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Contentamento descontente: "Niketche" e a poligamia / "Niketche"; Paulina Chiziane; literaturas africanas de língua portuguesa

Renato Alessandro dos Santos

Qu’importa a cor, se as graças, se a candura,
Se as formas divinaes do corpo teu
Se escondem, se adivinhão, se apercebem
Sob esse tão subtil, ligeiro véu?

Cândido Furtado

Niketche, quarto romance de Paulina Chiziane, trata de um tema caro às mulheres moçambicanas, especialmente àquelas que vêm do sul do país: a poligamia. A narradora Rami, há duas décadas, é casada com Tony. Juntos, têm filhos, posses, estabilidade social. Mas ela descobre que o marido tem outras mulheres, e sua vida vira de pernas pro ar. Em Moçambique, como em outros países da África, a poligamia é permitida, para a tristeza de muitas mulheres que a aceitam, mesmo a contragosto. Rami, ciente dessa condição, parte do princípio de que a mulher, resignada e submetida aos caprichos dos homens, não deveria ser obrigada a passar por tal humilhação e injustiça e, por isso, acaba por reconhecer nas outras mulheres de seu marido não rivais, mas pessoas que, como ela, carregam nas costas o fardo da submissão feminina. É uma personagem de caráter extraordinário.

Há uma cena em que Rami e todas as outras mulheres de seu marido trancam-se nuas em um quarto com ele. O leitor magano e lobo mau esfrega as mãos e, em seguida, as pontas do bigode, seguro de que virá pela frente uma tórrida cena de sexo. Mas Niketche não busca 50 tonalidades cinzas, e os leitores descobrem que tal situação, para qualquer homem nas condições de Tony, é uma experiência terrível e cheia de agouro.

Paulina Chiziane foi a primeira mulher a publicar um romance em Moçambique, Balada de amor ao vento, algo que ocorreu apenas em 1990, mas ela, mais do que romancista, considera-se mesmo é uma contadora de histórias. Os leitores podem entender essa diferença à medida que avançam na narrativa; para o bem: o texto flui doce como água de rio; para o mal, ao final, não restam muitas pedras pelo caminho, algo que sempre faz diferença na literatura. Porém, a fluidez do texto assegura a adesão e o interesse do leitor, que se surpreende com as peripécias que o enredo vai tomando e, cheio de fôlego, segue até o fim, virando as páginas numa velocidade de leitura surpreendente.

O que faz um escritor decidir-se por apertar essa ou aquela tecla? O que quer que seja levou Chiziane a focar menos em temas que nas literaturas africanas de língua portuguesa são mais comuns, como política, colonialismo, guerra civil etc., embora estejam ali, e mais em questões que remetem ao amor, ao sexo, à vida conjugal – vista de dentro e de fora do casamento; daí emergir termos como “kutchinga”, “licabo”, makanga” e “niketche” – dança de amor tradicional do norte de Moçambique:

"Niketche. A dança do sol e da lua, dança do vento e da chuva, dança da criação. Uma dança que mexe, que aquece. Que imobiliza o corpo e faz a alma voar. As raparigas aparecem de tangas e missangas. Movem o corpo com arte saudando o despertar de todas as primaveras. Ao primeiro toque do tambor, cada um sorri, celebrando o mistério da vida ao sabor do niketche. Os velhos recordam o amor que passou, a paixão que se viveu e se perdeu. As mulheres desamadas reencontram no espaço o príncipe encantado com quem cavalgam de mãos dadas no dorso da lua. Nos jovens desperta a urgência de amar, porque o niketche é sensualidade perfeita, rainha de toda a sensualidade. Quando a dança termina, podem ouvir-se entre os assistentes suspiros de quem desperta de um sonho bom.
- O Tony devia celebrar e não chorar. Cinco esposas dançando niketche só para ele – diz a Mauá. – Que maior prova de amor espera ter?
"

Com isso, ao discutir a poligamia, Chiziane enfatiza, também, as diferenças culturais entre o norte e o sul de Moçambique – diferenças que nas mãos e na alma das mulheres expõem a violência física e psicológica do sufocante patriarcado exercido, lá em África, fora e dentro de casa.

Por último, vale afirmar que homens e mulheres têm muito a aprender com o romance de Chiziane: os primeiros, para se envergonhar da secular vilania masculina; já as mulheres, para se desvencilhar de uma subserviência legada a elas a ferro e fogo e que, de uma vez por todas, não tem mais lugar de ser

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ilustração de helton souto

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RENATO ALESSANDRO DOS SANTOS, 43, é professor no curso de Letras do Centro Universitário Moura Lacerda e no Colégio COC-Batatais. Fez doutorado em estudos literários na UNESP, de Araraquara, e é autor de Mercado de pulgas (Multifoco), da dissertação A revolução das mochilas e da tese Romances rebeldes  a tradição de rebeldia na literatura norte-americana: de Moby Dick a On the Road. É editor deste sítio: TERTÚLIA. Contato: realess72@gmail.com; Facebook: Renato dos Santos Santos.

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HELTON SOUTO nasceu em 76. Ribeirão Preto. Casado com Silvana. Cientista social, educador, gerente de projetos na área de educação e juventude, artista plástico e ilustrador. Desenha e pinta desde sempre. Torce para o São Paulo. E seu cachorro se chama Yoda. Blog: Andar na pedra. Contato (Facebook): Helton Souto.

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