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O mar interminável / "Restinga", de Miguel Del Castillo (Companhia das Letras, 127 páginas)

Haron Gamal

Restinga, de Miguel Del Castillo é um livro composto por dez contos e uma novela, dividido em quatro partes. A primeira, com três histórias; a segunda com quatro; a terceira, três. Por último, a novela “Laguna”. As histórias têm em comum o tema, que é a quebra e a perda das relações familiares. Os títulos dessas narrativas também se entrelaçam, trazendo como lastro a geografia que cada um deles comporta, como Restinga, Paranoá, Leme, Cancun, Arraial, Laguna. A exceção fica com Violeta, mas mesmo assim, o nome não é enigmático, porque se refere à mãe que teve um filho pertencente ao movimento Tupamaro, como sombra, a ditadura militar do Uruguai e as do cone sul da América Latina.

No primeiro conto, “Restinga”, Laura, filha única, cuida da mãe doente, mas ela demora a perceber que a mulher, há muito, perdeu a vontade de viver. Laura é separada, seus filhos já cresceram e estão distantes. A geografia do Rio de Janeiro aparece em primeiro plano. Restinga, dando nome à narrativa e ao livro, refere-se à restinga da Marambaia, e nos apresenta o começo do fim, por que é onde aparece o primeiro sintoma da morte. O surpreendente neste conto, como em muitos outros, é o jogo passado / presente, incluído na narrativa através de cortes bruscos seguidos do surpreendente emergir da memória: “Laura lembra como a mãe cuidou do pai no fim da vida”, “o antigo apartamento da mãe era em Copacabana. Ficava num edifício de pastilhas rosas, era assim, que as colegas de Laura se referiam a ele: vamos ao prédio rosa”, “desde que Laura era adolescente, a mãe a levava num restaurante cuja vista dá para o começo da restinga da Marambaia.”

“Empire State” é ambientado em Nova York. Dois irmãos encontram-se ao acaso, muitos anos depois de se terem separados e não mais se comunicarem entre si. Um deles é surdo. O conto é escrito pelo outro irmão, que partiu primeiro e mora nos Estados Unidos. “A última vez que estive com ele foi numa carta que mandou oito anos atrás.” Esta história, assim como a que vem a seguir, “Olimpíadas”, trata de seres humanos com deficiências. “Pensei na época em que minha mãe estava viva e me explicava as limitações do meu irmão. Pedro, ela dizia, você precisa ter paciência com o Tiago; não adianta você se irritar.” O encontro acontece em situação vantajosa para o surdo, pois ele não está só, tem uma namorada e parece ter a vida até certo ponto resolvida. O narrador, apesar de estudar numa famosa universidade americana, de cursar o doutorado e de dar aulas na graduação, parece ser quem está devendo. No final, percebemos de modo mais intenso essa questão. O conto também vale pelo artifício narrativo.

“Olimpíadas” aborda sonhos, sessões de terapia e o universo daqueles que sofrem de síndrome de Down. Também comparecem parentes e pessoas que convivem com quem sofre desta síndrome. Trata-se de um pai que pega o filho para passar o fim de semana. Ele narra a uma psicóloga seu percurso de vida. “Desde que João nasceu oscilam nele dois sentimentos contraditórios: o amor pelo filho, é claro, e algo de que tem muita vergonha, e ele confessa agora pela primeira vez em voz alta: a vontade de que o filho não tivesse nascido, de poder ficar livre dele.” Por isso o sonho que se repete. É bom o leitor dar uma conferida.

Na parte dois, está o melhor conto do livro: “Violeta”. “Miguel Angel era um dos primos do meu pai, um tupamaro que desapareceu durante a ditadura uruguaia.” Na pequena história, narrada por um homônimo do herói – um descendente de outro ramo da família –, mescla-se a busca pela memória e a dor causada pelo esquecimento. É preciso resgatar o passado, nossos mortos precisam ser lembrados. Mas, ao mesmo tempo, com o envelhecimento, Violeta começa a ter sintomas de Alzheimer. Antes, ela também fora presa e torturada, porque a polícia queria informações sobre o paradeiro de Miguel Angel. Fica a mensagem, a literatura jamais pode perder a memória.

“Paranoá” descreve uma espécie de confraternização entre parentes, numa mansão em Brasília. Da conversa vão surgindo as faltas, as frustrações e os problemas de todos, apesar de a família aparentemente ser bem sucedida. Há histórias desde os primeiros habitantes da cidade, cujos descendentes estão reunidos ali, até a morte de um sobrinho num acidente de automóvel numa das pontes da capital federal. Vale o conto pela estrutura, todo em forma de diálogo, com várias vozes misturando-se. Aqui predomina a passagem do tempo como elemento que corrói as vidas.

“Cruzeiro” é um conto ambientado num navio, desses de cruzeiros, em que há muita gente e muitas festas. Mas, para a narradora, o que prevalece é a própria solidão. Numa construção em abismo, há a história de Lourdes, ex-babá da narradora. “A Lourdes detestava barcos”, diz a personagem. No navio, as pessoas confraternizam-se, marcam encontros para depois do regresso. A narradora não, ela faz um inventário de suas perdas, que se resumem nas cinzas da babá, que leva a bordo. “Abro a tampa azul, o pó cinza começa a voar com o vento. Fecho-o rápido e desse jeito atiro o pote ao mar.” Uma maneira de desvencilhar-se das lembranças. Mas talvez isso seja impossível. O ser humano sempre será o conjunto de suas vivências e de suas lembranças.

“Colônia” é um conto que está na terceira parte. Duas irmãs, apesar de próximas, seguem caminhos diferentes. Mas, ao contrário de “Empire State”, elas não estão brigadas, é a família que vai envelhecendo e se corroendo com o passar do tempo. Nada é como na infância. O avô precisa de duas enfermeiras para ir ao casamento de uma das netas. A irmã que se casa não compreende por que o marido um ano depois desaparece sem deixar vestígio. Ela volta à casa dos pais, apesar de bem sucedida (é dona de um restaurante), mas a casa já não é a mesma.

“Arraial” aborda a vida de um homem que se vê sozinho no Rio de Janeiro. Tem um emprego, alguns colegas, mas o que predomina é a companhia fria dos amigos da principal rede social. “Abre o Facebook e percorre as novidades daquelas pessoas que admira vagamente, por quem tem certa simpatia, mas a quem conhece pouco.” Alguém em Pernambuco, sua terra de origem, pensa em reunir os amigos de faculdade. Ele curte as fotos de uma amiga de trabalho. Alguns dias depois, quando a encontra no mundo real, ela lhe diz “que deveria tentar conhecer Arraial do Cabo. Ele se espanta um pouco. Deveria ir lá, começar a conhecer mais o estado do Rio, não é só Pernambuco que tem praias incríveis.” O leitor pode perceber, no entanto, que os relacionamentos são vazios, na verdade impossíveis, e o personagem acaba sozinho, numa madrugada após uma festa no Jóquei, tentando tirar uma foto da paisagem vazia.

Laguna é uma novela contada em primeira pessoa por um jornalista que está no Uruguai. Durante sua estadia, conhece uma mulher, Valentina, com quem empreende uma viagem de carro por todos os balneários do país. No final, apesar de quase um mês de convivência com ela, o protagonista se vê numa situação embaraçosa.

Os contos de Miguel de Castillo primam pela necessidade de reter de cada história fragmentos que compõem todas as vidas, vivências necessárias, mas que são constantemente ameaçadas por alguma intempérie, pelo devastador desgaste a que cada vida humana está submetida. Mudam-se as pessoas, algumas morrem, outras desaparecem. O autor trabalha com maestria o efêmero, que é essencial para que cada vida tenha sentido, enfim, essencial também para a existência do que chamamos literatura.

O A.U.T.O.R.

Miguel Del Castillo nasceu no Rio de Janeiro, formou-se em arquitetura e mudou-se para São Paulo em 2010, onde atualmente é editor da Cosac Naify. Foi editor da revista Noz, de arquitetura e cultura, e recebeu o prêmio Paulo Britto de Prosa e Poesia pelo conto “Carta para Ana”, publicado na Antologia de prosa Plástico Bolha (Editora Oito e Meio, 2010). Foi escolhido um dos vinte melhores jovens escritores brasileiros pela revista Ganta.

T.R.E.C.H.O. D.O. L.I.V.R.O.

Miguel Angel era um dos primos do meu pai, um tupamaro que desapareceu durante a ditadura uruguaia. Meu nome de batismo, portanto, é uma homenagem. Por muitos anos ignorei a história da minha família, os vinte e dois anos que meu pai passou em Montevidéu antes de se mudar para o Rio, Miguel Angel etc. Aprendi sozinho o espanhol que nunca fizeram questão de me ensinar.

Gosto de pensar que Miguel Angel não tinha medo: olhava-se no espelho todos os dias pela manhã, pegava as armas, fazia duas ou três ligações-código

Ahora el paharo ya vuela sólo

e tomava seu chimarrão à tiracolo, dizia adeus à filha Ximena que confiava a meu pai e ia se encontrar com os companheiros de luta.

 

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S.E.R.V.I.Ç.O.

Restinga

Miguel Del Castillo

Companhia das Letras, 127 páginas

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ilustrações de H.E.L.T.O.N. S.O.U.T.O.

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HARON GAMAL é autor de Apostas perigosas (Opção Editora, 2016), Estrangeiros: o anfíbio cultural na prosa brasileira de ficção (Ibis Libris, 2013) e de Magalhães de Azeredo (ABL, 2012). Tem doutorado em literatura brasileira pela UFRJ. É professor de literatura da Fafima (Faculdade de Ciências e Letras de Macaé) e professor de português do Estado do Rio de Janeiro, lecionando português e literatura para o Ensino Médio. Colabora no JB online, no Globo e no Rascunho. Tem um blog (harongamal.blogspot.com).

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HELTON SOUTO nasceu em 76. Ribeirão Preto. Casado com Silvana. Cientista social, educador, gerente de projetos na área de educação e juventude, artista plástico e ilustrador. Desenha e pinta desde sempre. Torce para o São Paulo. E seu cachorro se chama Yoda. Blog: Andar na pedra. Contato (Facebook): Helton Souto.

  • 05. Pastoral

22/05/2016