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Apostas perigosas - capítulo 1 /

Haron Gamal

A sala de embarque do Santos Dumont começa a ficar repleta. É manhã de quarta-feira. G. se levanta de uma das cadeiras que ficam em frente ao café e caminha até o vidro que se alonga junto aos portões de embarque. Dali pode observar parte da baía, a saída da barra e o conjunto de morros que tem como destaque o Pão de Açúcar. Seguindo com os olhos uma linha horizontal à esquerda, ele aprecia as praias de Niterói. Seu celular, conectado a fones de ouvido, toca uma música do The Who. G nem sonhava em nascer quando a banda estreou aquela canção. Mas ele gosta do Who, acha interessante o ritmo, as guitarras, a batida ritmada da bateria, depois a voz, nem grave nem aguda, de Daltrey, a seguir a de seus companheiros de banda. O mesmo celular anuncia a mensagem que G. aguarda há uma hora. Ele não toma logo o aparelho nas mãos. Olha ao redor. Sabe que ao espreitar as pessoas, jamais vê alguém olhando em sua direção. Mas toma seus cuidados. Quem sabe a linda loura sentada a dois metros, concentrada no teclado do notebook, está de olho nele? Mas não por motivos amorosos, é lógico. Ou o rapaz de roupa esporte, camisa social aberta quadriculada sobre camiseta de malha, será que o espiona? Não posso ser tão impressionável, pensa, essa gente está preocupada com seus afazeres. Em torno do café há muitos homens de terno, mulheres com roupas de trabalho, talvez pessoas importantes do mercado financeiro. Na certa, todos aqueles tipos vão embarcar para São Paulo. O bip do celular vibra mais uma vez. É preciso tirar o aparelho do bolso e dar uma olhada. Com o celular numa das mãos, lê a mensagem. É Roger, na base, ele dá a dica, descreve quem G. precisa seguir. Ele e a pessoa a ser seguida estão no mesmo voo, informa a mensagem. Além da descrição física e da roupa que o suspeito veste, o amigo, da base, identifica uma última chamada, provavelmente também grampeada pela PF. Dois agentes estão na sala de embarque, no rastro da mesma pessoa visada por G. Mais um motivo para ele precaver-se. Os homens da PF são muito espertos, e jamais andam juntos. Quem serão eles?, pergunta-se. Em meio à multidão de passageiros é impossível tentar descobri-los. Seu celular vibra de novo. Roger dá a posição do suspeito na sala de embarque. Como isso é possível, Roger?, poderia perguntar, mas sabe que tudo aquilo é fruto de muita tecnologia, coisa que os agentes da CIA há menos de vinte anos nem sonhavam. G. segue num primeiro momento para leste, a direção contrária da indicada. Apesar de todas as precauções dos programas de anonimato, seu celular pode estar sendo monitorado. Os homens da PF não brincam em serviço. Caminha vinte passos. Para. Sintoniza o fone mais uma vez, move a cabeça para acompanhar o ritmo, agora do Led Zepelim, contorna uma fileira de cadeiras e se põe a marchar no sentido inverso, para oeste.

“Roger, há algum erro. É uma mulher”.

“Não há erro nenhum, é ela que você deve seguir.”

“Uma mulher muito jovem, Roger?”

“Cambio final, não posso continuar”, afirma o amigo. A base precisa deslocar-se caso não queira ser identificada.

Uma mulher jovem, é o que faltava, e bonita, muito bonita, pensa G. Ela deve ter dezenove ou vinte anos. Começa a acreditar que ela levará a ação até o final. Uma mulher, ele sussurra a si mesmo. O que há demais nisso?, reflete após alguns minutos, mulheres operam em todos os serviços secretos do mundo, em muitas máfias, inclusive. Não há discriminação no setor marcado pelo perigo. Uma mulher, porém, pode levar a uma pista falsa.

“Roger, ela está na fila de POA 1701, não é o meu voo”, a mensagem de G. aparece no monitor da Base.

“Vá para o seu voo, SP 1783, ela está despistando.”

“Despistando, Roger?”

“É uma armadilha, G., não deveria ser esta mulher, é muito arriscado, mas pode ser uma isca, ainda não temos certeza. E o lugar que ela ocupa na operação pode ser trocado por outra pessoa em SP, entende? Fique por perto, você não pode perdê-la de vista.”

“Ok, Roger, parto para o meu embarque, só me restam 3 minutos, e ela já está quase passando pela porta do embarque a POA 1701.”

“Não se preocupe, G., ela é Stella, 23A, assim devemos chamá-la daqui em diante, também é a posição dela no 1783. Embarque imediato, G.”

“Ok, Roger, salto dentro da aeronave, cambio final, desligo.”

Quando o avião acaba de fazer a curva junto ao Pão de Açúcar, G. respira aliviado. Não por estar cercado de problemas e de agentes desconhecidos. Mas por não desejar aquela montanha tão próxima. Stella 23A, na posição, jaqueta vermelha, calças jeans, segura um tablet da Apple numa das mãos. Antes da decolagem, a tripulação avisou aos passageiros que desligassem os aparelhos eletrônicos. Mas Stella descuidou da ordem. G. não é bobo, não deu a mesma mancada, sabe que há outros aparelhos ligados. Stella 23A tem dois outros além do tablet. Os agentes da PF, que G. gostaria de chamá-los de idiotas, também mantêm seus contatos com as respectivas bases, sabem que são monitorados mas têm certeza de que tudo se resolverá depois da aterrisagem em SP. Não imaginam que terão alguns problemas. O Floyd soa agora, mas quem o ouve é Roger. Gostaria de repassá-lo a G., porém não são amadores, o amigo, na aeronave, precisa estar morto para sobreviver, toda a aparelhagem desligada. Os homens da PF, espertos que são, podem ser monitorados apenas por Roger, que está longe dali. Assim sempre é mais seguro. Na base, através de um sinal de Nova York, Roger agora consegue captar uma música do Police. Entende aquilo como bom sinal. Outro sinal, agora de uma unidade móvel estacionada em Congonhas, antecipa o apoio a G. na capital. Resta saber sobre o apoio que sustenta Stella 23A em Sampa. Quanto aos agentes da PF, eles possuem toda a polícia como apoio. Mas todos sabem que a polícia nem sempre é polícia. Por momentos G. desconfia que poderá fracassar, mas tenta esquecer esse ponto. Sabe que o caminho escolhido jamais será fácil.

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ILUSTRAÇÕES  DE      helton souto 

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HARON GAMAL é autor de Estrangeiros: o anfíbio cultural na prosa brasileira de ficção (2013), publicado pela Ibis Libris, e de Magalhães de Azeredo (2012), edições da ABL (Academia Brasileira de Letras), série essencial. Tem doutorado em literatura brasileira pela UFRJ. É professor de literatura da Fafima (Faculdade de Ciências e Letras de Macaé) e professor de português do Estado do Rio de Janeiro. Leciona português e literatura para o Ensino Médio. Colabora no JB online, no Globo e no Rascunho, onde esta resenha foi originalmente publicada. Tem um blog (harongamal.blogspot.com).

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HELTON SOUTO nasceu em 76. Ribeirão Preto. Casado com Silvana. Cientista social, educador, gerente de projetos na área de educação e juventude, artista plástico e ilustrador. Desenha e pinta desde sempre. Torce para o São Paulo. E seu cachorro se chama Yoda. Blog: Andar na pedra. Contato (Facebook): Helton Souto.

  • 02 - Anyway, Anyhow, Anywhere

08/05/2016