)Livros(

"que as palavras caídas na folha arrebentem os homens de dentro pra fora" / "O lado imóvel do tempo"; romance;

Matheus Arcaro

Que diferença há entre mim e essa garrafa de uísque? Talvez o uísque empreste alguma cor às pessoas; uma tonalidade que escape do meio-tom-pastel. Eu, com o avesso grisalho, não sou capaz de fugir do mofo. Talvez? Porra, o uísque implode o corpo, arremessando a alma pra outro âmbito. O uísque venda os olhos da consciência e entrega o sujeito a uma sensação excitante. Como eu, Salvador dos Santos, ousaria competir com algo tão viril? Com palavras! Ah, achei que seria capaz de penetrar nas pessoas escolhendo o adjetivo compatível com o substantivo, rimando, construindo imagens... Que as palavras todas sejam levadas pro caralho a quatro! São tão ingratas quanto as mulheres. Por que, Susana? Não fui suficiente pra você? Não, não fui... Nem as mulheres que vieram depois, nem estes trinta e oito anos de separação foram competentes pra costurar o rasgo que você fez em mim. Ingratas? As palavras estavam ali como estavam pra Drummond. À espera do caçador com habilidade e coragem pra abatê-las em voo. Com um tiro. Ou dois, quem sabe. Que sejam dez, cem, mil! Desde que as palavras caídas na folha arrebentem os homens de dentro pra fora. O fato é que há profissionais e amadores. E profissionais amadores: os gênios. E talvez haja homens que não saibam ser. E você é um deles, filho da puta!

Não dissimule, Salvador, olhe bem pra você. Sempre cumpriu com excelência o papel pro qual fora incumbido desde o nascimento. Mas o tempo teceu-lhe uma capa impermeável sobre o coração. De modo oposto, reduziu-lhe a fiapos os músculos, amoleceu-lhe a pele e, aproveitando-se do terreno fértil, cavou-lhe buracos por todo o espírito. As trincheiras do rosto poderiam estar repletas de histórias heroicas, mas denunciam setenta anos de batalhas perdidas; de tentativas que não saltaram da possibilidade. As pálpebras desmaiadas sobre as retinas acrescentam-te muitos anos. As panturrilhas suplicam por repouso. Os ombros não suportam o peso do fracasso, das lembranças amareladas. Ter setenta anos é como ter AIDS... Não, não é verdade. Se um homem de meia-idade contraísse essa doença, teria mais tempo de vida que eu. Eu tenho câncer. O câncer do tempo que se embrenhou em mim pra devorar os fios de fé que ainda me abraçavam.

Resta-lhe a lucidez, homem, mantenha a cabeça ereta! Essa poltrona, esse rádio, essa garrafa vazia, essa coleira despelada não são mais nem menos necessários que eu. Mas eles não suspeitam disso! Não sabem que, na maioria das vezes, os castigos usam a máscara da justiça! Não desconfiam que seria infinitamente preferível que a putrefação mental viesse junto da física que aí está. Mas a quem pedir tal bênção? Passei da idade de crer em deuses ou fantasmas que, no fim das contas, existem apenas como palavras mortas. Morte, Morte, Morte! Sei que a senhora está terminando o discurso pra cerimônia, pro dia em que me possuirá. É o verbo se fazendo carne; carne não, carniça: penetrando nas fibras pra salpicar aquele odor ardido. O gosto que me visita a língua, o gosto das minhas vísceras, o gosto que os vermes sentirão em breve... Daqui a dez anos, Salvador e Santos serão duas palavras amareladas. Daqui a cem, só constarão numa lista de óbito. Isso não tem grande significância: se não há quem as veja ou as pronuncie, elas não existem. Ninguém mais as manuseará! Mãos, por favor, parem de tremer. Por favor, o caralho. É uma ordem!

O que posso fazer pra ficar, ao menos, em imagem depois que a morte me levar? Levar pra onde? A pergunta sequer pode ser feita porque não há esse onde, não há haverá. Se não existe recompensa depois da vida, é necessário construir algo palpável no mundo. E meus versos, já tive provas suficientes, são inábeis pra me deixar vivo depois que eu morrer. Minhas palavras não têm dedos sensíveis o suficiente pra apalpar as intimidades do mundo. O que me resta? Não criei seres pra carregar adiante meus genes. E não tenho como fazê-los. Não por incapacidade, alugaria uma barriga pobre se necessário, mas porque não tenho esse direito. Ninguém o tem, na verdade. Por que o piso balança tanto? Calma, calma. Rearranje os pensamentos, Salvador... Ora, ora, desde quando falo comigo em terceira pessoa? Mas que importância tem isso? Vejamos: se estas duas possibilidades, literatura e filhos, me estão vedadas, o que me sobra? O conformismo. Mas a vida toda fui qualquer coisa líquida, adequando-me ao recipiente sem derramar uma gota: no banco, nas letras, no amor. O que estas folhas estão fazendo fora da gaveta? Por que deixei essa caneta destampada? Gaveta-folhas-caneta. Que porra é essa que fica martelando na minha cabeça? Uma saída seria, quem sabe, fazer caridade, entregar-me ao próximo, oferecer a outra face ao inimigo... O quê?

A caridade é irmã mais nova do egoísmo. Pra eternidade, poucas portas ainda me são acessíveis. Algum reality show? Que programa de televisão escolheria um velho sem extravagâncias, Salvador? O desespero é mesmo o fertilizante da imaginação! Dissociada do raciocínio, ela é como um morcego que voa até encontrar a vara sacudida pela desilusão. Antes nada do que ridículos minutos de fama. Mas talvez haja uma janela, um vitrô que seja. E essa luz que não para de piscar lá fora? Pra evitar ser mastigado pelo esquecimento, não preciso ser amado, desde que seja repugnado. O que acha dessa conclusão categórica, senhorita? Desculpe, é senhora garrafa: o líquido já rompera a tampa. Elegante conjugar no pretérito mais que perfeito! Ou piegas? O homem que assassinou Kennedy, o homem que assassinou Lennon, o homem que assassinou Luther King, todos eles cravaram seus nomes na história, é verdade. Mas quem fala deles hoje em dia? Inclusive os que matam pessoas sem expressão têm seus nomes propagandeados por aí. Não, matar uma pessoa não é o bastante. Nas páginas policiais, crimes de paixão são como moscas sobre a carne podre. Preciso de primeira página, de matérias longas e ilustradas, de horas de reportagens ao vivo na televisão. E, pra conseguir isso, tenho que matar vários, com critério. Mas, que direito tenho de matar pra me imortalizar? Que direito não tenho? A palavra direito é tão vazia quanto minha fé no homem. Eu construo meus direitos! Nem Hitler, nem Bin Laden foram capazes de matar sem motivo.

De mãos dadas com os cadáveres, nadarei contra o fluxo do tempo. Como você devia ter nadado, Pessoa. Você não tinha o direito de me abandonar! Direito? É natural, cães não vivem mais que quinze anos, disseram-me. Natural? Natural é eu querer ficar, permanecer sem o ônus da presença. É difícil a morte derrubar um homem com os pés fincados na história. Mas como um velho fraco como eu conseguiria matar tantas pessoas? É provável que esta seja a pergunta mais importante da noite. E só há uma resposta: preparação! Médico, academia, caminhada, estudo e mais estudo. Só não se pode saber em quanto tempo corpo e mente estarão à altura da empresa que os espera. Pai, estou certo de que você se orgulharia de mim, mesmo que da sua superfície borbulhasse repulsa. Você convencido, mamãe convencida. Um brinde, Jack Daniels, ao homem imortal que acaba de nascer! Melhor, não. Brindar com o copo vazio dá azar.

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As ilustrações compõem o livro de artista Rush-Rush, elaborado por Helton Souto em 2005.

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Este texto é o capítulo 11 de O lado imóvel do tempo, primeiro romance de Matheus Arcaro, publicado neste mês pela editora Patuá.

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MATHEUS ARCARO nasceu em 1984 em Ribeirão Preto, onde vive atualmente. É graduado em Comunicação Social e também em Filosofia e pós-graduado em História da Arte. Atua como diretor de criação publicitária e como professor de Filosofia e Sociologia em cursos pré-vestibulares. Desde 2006 tem artigos, contos e poemas publicados em veículos regionais e nacionais. Violeta velha e outras flores é seu primeiro livro publicado (Patuá). Nas poucas horas vagas, arrisca-se ainda como artista plástico. No Facebook: Matheus Arcaro.

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HELTON SOUTO nasceu em 76. Ribeirão Preto. Casado com Silvana. Cientista social, educador, gerente de projetos na área de educação e juventude, artista plástico e ilustrador. Desenha e pinta desde sempre. Torce para o São Paulo. E seu cachorro se chama Yoda. Blog: Andar na pedra. Contato (Facebook): Helton Souto.

 

  • 08 - Demon Alcohol

24/04/2016