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Salamandra /

Renato Alessandro dos Santos

Acabei de jogar o cabelo para trás. Culpa de um acorde. Me senti meio ridículo, sem idade para isso, um velhinho pego roubando um beijo de língua de sua amora.

Rio das estações dentro de mim. Quando o rio desembarcar no mar, o inverno terá chegado ao fim. À margem, Lídia, com os pés na correnteza, vamos preservar ideias de uma vida inteira, lutando para mantê-las dobrando como um serrote tocado com um arco.

Foge o tempo aqui, feito agora, agora, e agora, enquanto este segundo, esse outro, aquele, -€• qual mesmo? -€•, desaparece para sempre. Nostalgia: nunca mais terei de volta nem este sol nem aquela mecha de cabelo atirada para trás.

A ocupação do dia é perder-me como opção.

Lá está o futuro, esperando, braços estendidos. O mundo é gira mesmo; então, deixa os ninhos de mafagafinhos no lugar dos ninhos de mafagafinhos. Este frio no estômago volta, passa, volta e, passarinho, irá embora de vez. 

Importante mesmo é não deixar a alegria ir-se embora, a melhor coisa que existe, a dona de casa canta dançando de mãos dadas com os versos do poeta favorito, mesmo quando é segunda-feira e o samba sem tristeza inexiste.

Pelo chão, rastros pelo caminho. Ações do passado que, no gerúndio, dão em um presente de futuro incerto. Eis o dobrar da espinha até o estalar definitivo.

Em seguida, o silêncio.

Só o resultado do suor teu vertido sobre a terra vai permanecer.

Peleja, mas não como nos romances realistas-naturalistas-Eça-Azevedo em que vilões ocupam a área VIP. Incendiado pela vida, vê a direção que a bússola aponta. O rio está em chamas: mira. 

Um passo de cada vez.

Sê flamejante, sê salamandra.

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ilustração de   H.E.L.T.O.N.  S.O.U.T.O. 

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RENATO ALESSANDRO DOS SANTOS, 43, é professor no curso de Letras do Centro Universitário Moura Lacerda e no Colégio COC-Batatais. Fez doutorado em estudos literários na UNESP, de Araraquara, e é autor de Mercado de pulgas (Multifoco), da dissertação A revolução das mochilas e da tese Romances rebeldes  a tradição de rebeldia na literatura norte-americana: de Moby Dick a On the Road. É editor deste sítio: TERTÚLIA. Contato: realess72@gmail.com; Facebook: Renato dos Santos Santos.

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HELTON SOUTO nasceu em 76. Ribeirão Preto. Casado com Silvana. Cientista social, educador, gerente de projetos na área de educação e juventude, artista plástico e ilustrador. Desenha e pinta desde sempre. Torce para o São Paulo. E seu cachorro se chama Yoda. Blog: Andar na pedra. Contato (Facebook): Helton Souto.

  • 2 - Phoenix - 1901

17/04/2016