)Livros(

No meio do caminho desta vida, / Dante Alighieri, "Divina comédia"; Mathew Pearl, "O clube Dante"

Renato Alessandro dos Santos

Acabo de descobrir que tenho uma queda inconsciente pela Divina Comédia. Primeiro, os filmes. Se7en: os sete crimes capitais, mas... quais outros mesmo? Os livros, então: algumas edições da Comédia, empoleiradas na estante, estão empoeirando com o passar do tempo. Sempre que possível, alguma nova edição, mesmo que puro acaso, vem parar aqui em casa. De presente de amigo secreto a uma edição luxuosa, com gente da Unicamp por trás da coisa toda, uma mesa de sinuca versão GG. Uma mesa de sinuca versão GG des-lum-bran-te. Sem contar obras que tomam emprestado o passeio de Dante pelo inferno e, com tempero pop, ingressam por romances policiais, thrillers, histórias de terror etc.

Fico com O clube Dante, de Matthew Pearl, na estante por meses. Antes dele, a luz do dia: da passagem do ônibus à mochila nas costas, de um lado a outro. Mas as férias são semanas sabáticas na vida ordinária de qualquer um, e quando elas chegaram no inverno de 2014, descolei o livro de seu lugar, soprei a poeira para longe e percorri a capa com os dedos, cobrindo-os de mais poeira. Já devia estar tocando alguma coisa nos fones de ouvido, o sol esmorecendo como a tarde e o calor enchendo de preguiça a coisa toda. De O clube Dante, leio a orelha e a contracapa. Suspiro. Mas o bicho-preguiça, que trago enrolado em meu pescoço, aperta a tecla pause, o que faz um sono repentino tomar conta de cada átomo do esqueleto e da picanha que o contorna, e o livro acabou repousando no meio de outros que, pacientes, ficam à espera de um leitor.

Um dia,

quando menos esperava,

Dante me puxou pela orelha e me falou:

"Ou você pega esse livro ou te dou um tapão!"

Ele não estava para brincadeira. Virgílio ainda o segurava pelo roupão, mas as chispas que voavam por todo lado me fizeram acordar, finalmente, para a Divina Comédia, mesmo que por uma estrada vicinal chamada O clube Dante.

O romance de Matthew Pearl (2005) tem o carimbo editorial que o liga a Paulo Francis. Mas a empreitada, infelizmente, não deu certo, e a editora Francis, como Francis, cerrou as portas. Em 2015, com as férias de verão começando, abro o livro e, semanas depois, fechava-o, gostando do que havia lido. "Uma grande parte da felicidade da vida consiste não em lutar batalhas, meu caro Lowell, mas em evitá-las", diz Longfellow. "Uma retirada de mestre é, em si mesma, uma vitória", complementa o personagem. Mas menti, sem perceber: antes mesmo das férias começarem, já havia andado na mochila com a Divina comédia. Gosta de ler no ônibus? Gosto muito. Sem mais nem menos. De Ribeirão Preto a Batatais, de Batatais a Ribeirão, seis viagens por semanas. 12 passagens. Uma hora de leitura acolhedora. Os fones do celular inibindo qualquer distração, e os livros em pdf na tela líquida do tablet, grande o suficiente para a leitura. Dá-lhe cada canto do inferno, um por vez, ida e volta. "Então Virgílio", diz Dante, "volvendo para a direita, virou-se para trás e me disse: 'Melhor aproveita quem põe mais atenção ao que lhe narram'". E, rapaz, cá entre nós, temos de concordar com Dante.

Enquanto isso, na ficção cozinhada por Pearl, Wadsworth Longfellow (1807-1882), Oliver Wendell Holmes (1809-1894), James Russell Lowell (1819-1881) e J. T. Fields (1817-1881) têm um clube de poetas-tradutores que seguem os passos dos dois bardos pelos círculos do tinhoso. Mas há este problema: o pessoal da diretoria de Harvard não quer saber da tradução de a Divina comédia para o mercado editorial norte-americano, pois se trata de um livro perigoso, de um poeta perigoso, que cristaliza uma religião perigosa, e, por isso, franze os cenhos para o projeto Dante. Ah, há este problema também: em 1865, um serial killer anda a desferir citações da Divina Comédia em crimes hediondos cometidos por ele, em Boston. É o porquê desse romance inventivo. Tudo misturado resulta em O clube Dante, um prodígio de imaginação, se você considerar a pouca idade (28) que tinha o autor à época da publicação do livro nos EUA. Com isso, ele foi saudado por pontos de interrogação literários como Dan Brown, que o apadrinhou. Só não compreendo por que até hoje O clube Dante não virou filme. Valeria a pena.

Ah, Matthew Pearl escreveu outros romances que envolvem personagens históricos, como fez em O clube Dante ao inserir na trama poetas como Longfellow e, até mesmo, Raph Waldo Emerson (1803-1882), que chega para fazer uma ponta. A sombra de Allan Poe traz o bardo bêbado de Baltimore à berlinda, jogando luz à miséria que foi sua morte. Já O último Dickens busca no autor de "A christmas carol" um porto seguro para retratar, provavelmente, algum crime obscuro repleto da cena literária londrina vitoriana. Devem ser romances cativantes. Enfim, o mais importante de tudo isso é fazer o leitor ir em direção a Dante, em câmera lenta, enquanto toca música ao fundo. Não há como ler O clube Dante e não se interessar em ler a Divina Comédia. E aqui reside um ponto positivo para o livro pop que nasce do livro erudito: o de levar o leitor por aí com Dante e Virgílio. É uma bad trip delirante de Dante. Um triunfo da natureza humana. E com limonada fica melhor ainda.

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ILUSTRAÇÃO DE helton souto

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RENATO ALESSANDRO DOS SANTOS, 43, é professor no curso de Letras do Centro Universitário Moura Lacerda e no Colégio Semeando. Fez doutorado em estudos literários na UNESP, de Araraquara. É autor de Mercado de pulgas (Multifoco), da dissertação A revolução das mochilas e da tese Romances rebeldes  a tradição de rebeldia na literatura norte-americana: de Moby Dick a On the Road. É editor do TERTÚLIA. Contato: realess72@gmail.com. Facebook: Renato dos Santos Santos.

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HELTON SOUTO nasceu em 76. Ribeirão Preto. Casado com Silvana. Cientista social, educador, gerente de projetos na área de educação e juventude, artista plástico e ilustrador. Desenha e pinta desde sempre. Torce para o São Paulo. E seu cachorro se chama Yoda. Blog: Andar na pedra. Contato (Facebook): Helton Souto.

  • 03 3. Allegro moderato e marcato - Quasi Presto - Andante maestoso

27/03/2016