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Ares reprocessados: impressões sobre "Ares-Condicionados", de Demétrio Panarotto / "Ares-condicionados"; Demétrio Panarotto; literatura brasileira contemporânea

Paulino Júnior

No breve ensaio ‘Pode-se ensinar a escrever?’ (In: Viagem à literatura norte-americana contemporânea, Ed. Nórdica, 1985), William Burroughs aconselha o escritor iniciante a estar preparado para rasgar em pedacinhos e jogar na lata de lixo (do vizinho) um texto que, dias atrás, julgava o máximo. Subjacente ao exercício da autocrítica, a orientação aponta no sentido de que é necessário produzir para descartar e, assim, selecionar.

Demétrio Panarotto, natural de Chapecó (SC) e residente em Florianópolis já há algum tempo, dá a impressão de que não jogou nada fora em seu recente livro de contos Ares-Condicionados. Todavia, soube aproveitar no melhor estilo “nada se perde, tudo se transforma”. E isso não diz respeito, apenas, à sugestiva seção do livro intitulada ‘Parágrafos avulsos’, onde o autor deixa flagrante que a prática da escrita leva à composição de belos e expressivos fragmentos que podem terminar bastardos, sem texto que os acolha, ou mesmo desgarrados do meio de que são derivados.

Estendo a ideia da reciclagem para sondar o processo de criação da obra e visualizo o autor recolhendo cenas banais – dessas que são cotidianamente produzidas, repetidas, presenciadas e descartadas por nós – e as processando de forma que seja extraído o absurdo nas malhas da matéria-prima. Neste caso: nada se perde, tudo se recria.

Fico tentado a decretar a seguinte frase de efeito para definir a obra: Ares-Condicionados decreta o imaginário no poder! Porém, seria impreciso e injusto com um trabalho em que a engenhosidade na montagem das cenas e a meticulosidade no encadeamento rítmico são patentes. O leitor é conduzido desde o primeiro conto – o carro-chefe "Ares-Condicionados" – por um universo em que a vida cotidiana é revelada como um ciclo delirante.

O propósito do trabalho de Panarotto vai além do pitoresco e do riso fácil, pois o insólito irrompe no dia a dia de vidas que se supõem ajustadas por poderem exercer o que eu chamaria de ‘rituais do comezinho’ – a rotina de encerrar o dia em frente à TV, a manutenção de um hobby, uma reunião com fins recreativos etc. Neste sentido, a obra evidencia uma perturbadora falta de sentido e o vazio da existência em que teimamos acreditar que estamos atribuindo algum significado, seja no papel de protagonista, coadjuvante ou espectador de tragicomédias que, não raro, descambam para o nonsense.

O recurso à metaficção, presente em diversos contos, também combina com a referida noção de reciclagem (dos fatos). Impasses na apresentação de personagens e no desenvolvimento narrativo, assim como pontos de vista divergentes, são tratados diretamente no texto. A criação questiona o próprio processo, o artifício maneja o artifício, e não deixa esquecer que estamos diante de uma obra (lúdica) de ficção.

Acabo de lembrar outro apontamento de Burroughs, um lapidar: a boa ficção tem o péssimo hábito de se tornar realidade. Modifico ligeiramente os fatores e aponto que Demétrio Panarotto reprocessa os péssimos hábitos na realidade para compor boa ficção. E do produto final resulta o convite para respirarmos um pouco de ar que não seja condicionado.

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ILUSTRAÇÕES DE helton souto

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PAULINO JÚNIOR (Presidente Prudente/SP, 1979) vive em Florianópolis desde 2005. É graduado em Letras e mestre em Teoria Literária pela Unesp/Assis. Seus contos figuraram em diversos periódicos (Coyote, [ô catarina], Cândido, RelevO etc) e em antologias literárias. Foi um dos convidados do 5º Festival Nacional do Conto e participou do e-book Cisco – com um conto produzido especialmente para o evento. Sua obra Todo maldito santo dia (Nave, 2014) foi premiada no Edital Elisabete Anderle 2013 (Fundação Catarinense de Cultura) e vencedora na categoria Livro de Contos publicado em 2014, pela Academia Catarinense de Letras. Lançou recentemente o livro-conto Bife a cavalo pela editora de livros artesanais Butecanis Editora Cabocla. Seu único trabalho fixo é de ficcionista, e nisso inclui as crônicas que assina às segundas-feiras no Caderno Plural do jornal Notícias do Dia.

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HELTON SOUTO nasceu em 76. Ribeirão Preto. Casado com Silvana. Cientista social, educador, gerente de projetos na área de educação e juventude, artista plástico e ilustrador. Desenha e pinta desde sempre. Torce para o São Paulo. E seu cachorro se chama Yoda. Blog: Andar na pedra. Contato (Facebook): Helton Souto.

06/03/2016