)Música(

Hoje é dia de Ó.P.E.R.A. / música clássica; ópera; grandes compositores;

Renato Alessandro dos Santos

Há duas coleções de ópera aqui em casa. Antes dos 30, relutei em me dobrar aos tenores, aos barítonos ou àquelas mulheres modeladas por vestidos de gala com seus gritinhos que fazem rir à primeira audição. Mas da mesma forma que, moleque, tinha horror aos hippies com suas calças boca de sino, barba por fazer etc., e, mais tarde, espiritualmente, acabei me tornando um, a ópera também entrou em minha vida. De mansinho. Começou com uma coleção de mais de 100 CDs de música clássica da Deutsche Grammophon e, em seguida, com outras duas coleções. Uma é a Coleção Folha grandes óperas e está completa: 25 grandes compositores; a outra é Tesouros da ópera e, infelizmente, está incompleta, mas as duas praticamente se repetem. Vá por ali, vire à esquerda e, depois, siga adiante.

No início, fica difícil acostumar-se às óperas, mas bastam alguns dias ouvindo a mesma obra, repetidamente, para que o ouvido comece a se maravilhar com essa mistura de teatro, literatura, música. Se assistir ao filme Liberal arts, que é muito legal e tem o Ted (Josh Radnor), de How I met your mother, no papel principal, ficará ao lado dele quando começa, por sugestão de uma garota por quem se apaixona, a ouvir não somente ópera, mas a mais inspiradora música clássica que há por aí. A Pastoral, de Beethoven, está lá. Wagner e Mozart, também. Não dá para fechar os ouvidos a esses rapazes, e o protagonista de Liberal arts começa a mergulhar na audição dos grandes compositores. De uma hora para outra é um aprendizado radical descobrir que, além de baixo, guitarra e bateria, oboé, fagote e violino também existem. E existem para quê? Uai, para fazer da vida uma festa. Até porque a música, como tem de ser, faz sua parte, aliciando o ouvinte disposto a descobrir o que se passa pela cabeça de um compositor — como conta o Beethoven interpretado por Gary Oldman no cativante, mas irreal Minha amada imortal, quando lá pelas tantas, ao transformar seus sentimentos em notas musicais, o alemão-turrão narra a alguém o que ocorre debaixo dos caracóis de seus cabelos nessas horas. Há tempestade e ímpeto, mas a cobertura é de chocolate, como até hoje qualquer pessoa é capaz de descobrir ao ouvir Beethoven. 

Com as duas coleções de ópera à disposição, e com o espírito à mercê do que tem os compositores a mostrar, decidi ouvir um a um os CDs. Comecei pelo primeiro, La traviata (1853). Uma coisa é você não gostar de ópera porque parece coisa de gente velha ou sabe-se lá o quê; outra, é seu espírito ser ignorante o suficiente para se fechar ao trabalho de um grande artista, como Verdi, que se deu mal com algumas de suas óperas, mas que hoje tornou-se um dinossauro incontestável, e La traviata merece ocupar nosso tempo. Minha ideia era ouvir, e ouvir, e ouvir ópera até começar a me acostumar com cada uma delas, o que significa não apenas lavar o banheiro enquanto a música acontece, mas acompanhar o libreto, com o enredo e a participação de cada personagem às vezes cantando, às vezes narrando suas desventuras, fastidiosamente. O processo é lento, mas recompensador. De La traviata, parti para Carmen (1875), Tristão e Isolda (1865), La bohème (1896), Fidélio (1814)… Vê: não vale a pena tampar os ouvidos a uma música que “a oferecer tanto tem” (YODA, 1980). N.Ã.O.: há um aprendizado ali que merece nossa estima e tempo vida afora. Por que tanta gente gosta de Carmen? O que há que encanta quem dela se aproxima para ouvir a triste história dessa mulher obstinada?

Agora, aproxime-se: prepare-se para La bohème. Impossível ficar alheio a tudo que, nessa ópera, fisga o ouvinte. Experimente, de olhos fechados, como Hannibal Lecter, ou de olhos bem abertos, como Alex, e deixe a música eletrificar seu cérebro... Então, você segue adiante, mas agora com La bohéme aí dentro, isto é, um monjolinho que, intermitentemente, só aumenta os círculos de Beleza que você sempre espera encontrar.

Portanto, se vier a ouvir muita ópera, tomara que aprenda bastante coisa, e que ela ilumine seu dia. Não precisa ser agora. Pode ser amanhã, ou exatamente quando seu espírito estiver receptivo aos gritinhos das árias e a bordo do coração da orquestra; nessas horas, ele será grato a você por fazê-lo saltitar de alegria, justamente, por causa da… música.

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ILUSTRAÇÃO DE helton souto

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RENATO ALESSANDRO DOS SANTOS, 43, é professor no curso de Letras do Centro Universitário Moura Lacerda e no Colégio Semeando. Fez doutorado em estudos literários na UNESP, de Araraquara. É autor de Mercado de pulgas (Multifoco), da dissertação A revolução das mochilas e da tese Romances rebeldes  a tradição de rebeldia na literatura norte-americana: de Moby Dick a On the Road. É editor do TERTÚLIA. Contato: realess72@gmail.com. Facebook: Renato dos Santos Santos.

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HELTON SOUTO nasceu em 76. Ribeirão Preto. Casado com Silvana. Cientista social, educador, gerente de projetos na área de educação e juventude, artista plástico e ilustrador. Desenha e pinta desde sempre. Torce para o São Paulo. E seu cachorro se chama Yoda. Blog: Andar na pedra. Contato (Facebook): Helton Souto.

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14/02/2016