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Sobre ócios & ofícios / "Tomo maldito santo dia"; Paulino Júnior; literatura brasileira contemporânea;

Cláudio Dutra

Há aproximadamente um ano, Todo Maldito Santo Dia – livro de contos de Paulino Júnior – passou a habitar a minha estante de leituras, frequentando em geral a área dos que me estão mais próximos. Recebi-o das suas próprias mãos, na ocasião em que fomos apresentados, entre amigos. Na verdade, troquei-o por um exemplar do meu perpetuo continuum – do qual ele já fez a gentileza de enviar-me suas primeiras impressões.

Lembro que iniciei a leitura por aqueles mesmos dias. Mas fui lendo aos poucos, sem pressão, sem labor – como recomenda, por sinal, o autor dos vinte contos que compõem a obra. E como eu também labuto todos os dias (no exercício dos ofícios que escolhi), procurei dedicar-lhe então boas horas do meu melhor ócio. Aliás, um dos afazeres que mais deleita é degustar, sem pressa, sem estresse – mas sempre com intenso interesse e cuidadosa atenção – as várias leituras que costumo ir explorando em simultâneo. E, assim, fui consumindo as suas páginas, até transpor, algum tempo depois, a última delas.

De início, e já a partir da elaboração do título – com a engenhosa inclusão do adjetivo “maldito” no corpo de uma expressão de largo domínio popular: “todo santo dia”, que serve para enfatizar a repetição, a recorrência, a rotina – assim como das apresentações da obra e do autor, sobressai uma visão de projeto, de estrutura intencional, que segue um desenho prévio.

Ao eleger um enigma (ou uma “Esfinge”) para tentar decifrar – o “mundo do trabalho”, segundo declara – Paulino Júnior pretende fixar aí o eixo e o viés temático do seu livro. E a sua escolha se mostra acertada, pois trata-se de um assunto de espectro amplo, que diz respeito e alcança praticamente todas as pessoas, de um modo ou de outro. Inclusive ele próprio, no ofício de escrever, uma vez que necessitou despender uma certa quantidade de horas de esforço para materializar a sua obra.

Diante disso, parece bastante plausível transcender a limitada percepção de que este seja um livro que se posiciona contra o trabalho – ou, menos ainda, que promova algum tipo de apologia ao ócio ou à inatividade. Pois, para começar, fica difícil imaginar que o autor se entregasse a tal esforço, mesmo que pensasse naqueles termos – se não por outras razões, pelo menos para evitar a armadilha da contradição lógica entre discurso e prática. Além disso, tem-se ainda a dificuldade – que nos desafia a todos – de conceituar ou definir corretamente o que se pode denominar “trabalho” nos dias atuais, tão liquefeitas e fluidas foram-se tornando as suas bases e os seus atributos mais importantes, ao longo do tempo.

Pode-se, antes, aceitar que a crítica mais contundente de Paulino Júnior – encapsulada no seu bem urdido argumento estético – esteja apontada para a banalização do esforço humano, para a mercantilização da vida, para a pasteurização das experiências sociais, coletivas e individuais, tudo indexado pelas cotações das bolsas e dos mercados. Trata-se de denunciar e desmoralizar o trabalho vazio de significado, desprovido de propósito; aquele que é realizado apenas pela contrapartida de um pagamento, numa sociedade cada vez mais fútil, alienada e míope, que valoriza – e hierarquiza – os indivíduos pela sua capacidade de consumo, pela sua aparência ou pela sua posição e representatividade nas sociedades digitais, por exemplo.

No mais, as suas narrativas são sólidas, consistentes. E vêm ancoradas numa abordagem que se mostra muito verossímil, quase palpável, reconhecível a olho nu – o que as aproxima, às vezes, dos cânones da crônica. Seus narradores ora interpretam (e “vivenciam”), ora apenas observam, consideram ou descrevem a saga dos seus personagens. Estes, por sinal, em grande parte dos contos, constituem consciências mais ou menos lúcidas de pessoas, seres, objetos e coisas, transcritas no momento da transição de circunstâncias ordinárias e prosaicas para perspectivas mais profundas ou abrangentes (como em Presas, O inimigo, Conto desentranhado de uma notícia de jornal, A vida afora, Material humano, Segurança é tudo, por exemplo). Há enredos, entretanto, que extrapolam as fronteiras do racional, não raro tangenciando o absurdo, flertando com o fantástico (A mascote, Debate sobre o cheiro do cupim operário, Prisão do aplauso), em peças de grande densidade e qualidade literária.

Com um texto enxuto e exato, à beira da síntese – demonstrando que Paulino tem-se esmerado no apuro das suas competências de “afiador de facas e tesouras” – mas sem prejuízo à agudeza da sua crítica social (como em Mercadoria, Maquinomem feliz, Catálogo de faces, Atividade terapêutica, Coisas de criança, Rock Pesado, Deleite, Galinha dos ovos de ouro, Saco e balaio, Happy hour, Ela), este é um livro que já nasce relevante, sobretudo porque nos apresenta um escritor atento, consciente e comprometido com o contínuo aperfeiçoamento das artes e técnicas do seu ofício.

S.O.B.R.E. O. A.U.T.O.R.

PAULINO JÚNIOR (Presidente Prudente/SP, 1979) vive em Florianópolis desde 2005. É graduado em Letras e mestre em Teoria Literária pela Unesp/Assis. Seus contos figuraram em diversos periódicos (Coyote, [ô catarina], Cândido, RelevO etc) e em antologias literárias. Foi um dos convidados do 5º Festival Nacional do Conto e participou do e-book Cisco – com um conto produzido especialmente para o evento. Sua obra Todo maldito santo dia (Nave, 2014) foi premiada no Edital Elisabete Anderle 2013 (Fundação Catarinense de Cultura) e vencedora na categoria Livro de Contos publicado em 2014, pela Academia Catarinense de Letras. Lançou recentemente o livro-conto Bife a cavalo pela editora de livros artesanais Butecanis Editora Cabocla. Seu único trabalho fixo é de ficcionista, e nisso inclui as crônicas que assina às segundas-feiras no Caderno Plural do jornal Notícias do Dia.

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ilustraç@o de J.R. BAZILISTA

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CLÁUDIO DUTRA, 52 anos, é escritor. Graduado em Filosofia (UFSC), possui 7 obras publicadas. Seu livro visAvis foi o escolhido para receber o Prêmio da Academia Catarinense de Letras – 2014 como melhor livro do ano, de autor catarinense, no gênero Poesia (ao lado Todo Maldito Santo Dia, de Paulino Júnior, escolhido no gênero Contos, e de outros escritores catarinenses).

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J. R. BAZILISTA nasceu na fronteira de Passo da Guanxuma com Yoknapatawpha precisamente em Américo Brasiliense, próximo de Winesburg, Ohio. Fugiu de lá após ser acusado de matar dois amigos imaginários. Enquanto foragido escreveu os livros: Como Empalhar Mosquito, Histórias do Grande Animal Sorridente (contos), Pornoman, Gelo na Boca, Transatlântico, Livro das Conexões Gritantes (novelas), Poemas Putanescos, Lojas das Antologias (poemas) todos inéditos ensacados e devidamente engavetados. Costumava dizer que era inédito e que nunca na vida tinha ganhado um prêmio, mas isso caiu por terra no ano de 2014 quando levou o 1° lugar nacional com um conto e foi publicado. Recentemente foi indicado ao site Antessala das Letras por Lourenço Mutarelli como escritor revelação. Já como desenhista rabisca desde que nasceu, atualmente esses rabiscos podem ser vistos na revista de humor literário http://revistamenas.com/ também no site (e no jornal) http://cannabica.com.br/ ou no seu blog: http://hqtaxidermia.blogspot.com.br/.

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07/02/2016