)Entrevistas(

O dia em que cantei com Pearl Jam /

Gisele Castro

Tive o prazer de conhecer a banda Lost Dogs (Pearl Jam Cover) em novembro de 2011. Pearl Jam veio ao Brasil nessa época, porém não pude ir aos shows. Por coincidência, naqueles dias, Lost Dogs fez uma apresentação em um bar aqui, em Ribeirão Preto. A partir daí, minha irmã e eu viramos admiradoras do trabalho desse pessoal que tem carinho e respeito pelo Pearl Jam. A banda americana veio ao Brasil com a turnê Lightning Bolt: Latin America Tour 2015, a fim de divulgar seu último trabalho. Foi então que o vocalista da Lost Dogs, Eddu Vedder, realizou o sonho de muitos fãs: subir ao palco e cantar ao lado do ídolo, Eddie Vedder. Nesta entrevista, ele conta como foi e também sua história como iniciou sua história como vocalista da Lost Dogs.

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Pra ser sincero, não houve um plano, estratégia ou nada desse tipo. Meu aniversário é no mês de novembro (09), e quando eu soube que Pearl Jam viria ao Brasil decidi me dar de presente os shows. Quem é fã sabe da real dificuldade que é se aproximar deles, especialmente do vocalista, Eddie Vedder. Conseguir falar com ele já é algo incrível. Então, eu conversei com minha esposa, Magna, e falei: Pensa se nessa tour o cara me chama pra cantar com ele? Acho que eu infarto. Contei que em 2013 já tinha conseguido falar com o vocalista, que veio ao Brasil para shows de sua carreira solo, e nessa época eu o conheci, conversamos e, ao final, ele autografou meu ukulele. Quando me lembrei disso, pensei: e se nos shows em novembro eu levar uma faixa escrita alguma coisa? Minha esposa me apoiou. Foi quando pensei que poderia atrapalhar alguém durante o show, com a faixa. Eu sou um cara muito de boa, gosto de respeitar os limites de todo mundo e tinha certeza que, se fizesse isso, acabaria atrapalhando. A Magna não concordou e disse: Faz a faixa; se você não fizer e não expressar o seu sonho, como vai conseguir?.

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Eu tinha em casa um tecido preto. Nós compramos tinta branca pra poder destacar. Pensei comigo: A faixa preta com a escrita branca dá pra enxergar de longe. Minha esposa escreveu que era meu aniversário e que eu gostaria muito de cantar com ele. Em São Paulo, levei a faixa e a levantei algumas vezes durante o show. Vi que Eddie Vedder viu, mas não sei se ele a leu ou não. Por causa da minha banda, eu mando fazer camisetas iguais às que o Eddie usa nos shows. Acho legal e invisto bastante na caracterização. Durante o show ele viu a camiseta que eu usava e, várias vezes, me apontou e brincou: Que legal, as camisetas são iguais. Então, levantei a faixa mais vezes, mas nunca dava pra saber se ele havia entendido o que estava escrito. Como não queria mais incomodar ninguém, decidi curtir o show de boa e esquecer essa ideia maluca. Ao final do show, na última música (“Yellow Ledbetter”), quando Mike McCreedy (guitarrista) estava fazendo o solo, Eddie veio muito próximo de onde eu estava; aproveitei e levantei minha faixa novamente, e dessa vez ele a leu. O trejeito feito por ele foi algo: Puxa cara, que pena que eu só vi agora, ou alguma coisa assim. Pensei que fosse ficar por isso mesmo, mas ele voltou pro palco e pediu para o rapaz que regula os equipamentos da banda um tamborim pra me dar de presente. Foi a primeira vez que fui presenteado pelo Eddie Vedder.

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Esse episódio me deu motivação pra continuar com o plano. Em Belo Horizonte, lá estava eu novamente. Era o único com uma camiseta igual ao do Eddie, que, por sinal, foi a que ele usou na Argentina. Novamente me viu, apontou pra mim, pra camiseta e, ao final, ganhei outro pandeiro. Falei para minha esposa: Cara, eu ganhei duas vezes o pandeiro. Se eu aparecer de novo com a faixa acho que vai ficar estranho. Ela discordou e me motivou a continuar tentando. A essa altura, já estava bem cansado e faltava mais um show; pensei até em não tentar a grade no Maracanã. Eu tinha tocado três dias direto com minha banda, ido pra fila no Morumbi de madrugada, viajado pra Belo Horizonte... Mas a Magna me apoiou: Leva a faixa; só não fala que é mais seu aniversário. Pensei: Se não levar, talvez ele não me reconheça; se levar, ele vai lembrar que estive presente nos últimos shows. Era uma oportunidade única que tinha. Então, optei por não desistir. No Rio de Janeiro, cheguei às cinco horas da manhã no Maracanã e, de novo, grade!

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Para o Rio de Janeiro, fui com uma camiseta que ele usa muito: preta, com um círculo e o número 21 no centro. Eddie Vedder viu e fez um sinal “redondo” do logotipo. Primeiro contato. Como eu estava na grade, deixei a faixa o tempo inteiro estendida. Quando terminou o primeiro encore break da banda, ele voltou pra apresentação acústica, cantando “Yellow Moon” e “Imagine”. Antes de tocar “Just Breath”, olhou na minha direção e falou: Estou vendo um fã da banda ali e, se não me engano, o vi em uns três ou quatro shows, e ele está segurando uma faixa que diz que é seu aniversário. Gostaria de ser como ele: fazer aniversário todos os dias. Nesse momento, todas as câmeras viraram pra mim... Eu e Eddie Vedder trocando uma ideia ali no Maracanã. Na plateia, havia um casal que completava 25 anos de casamento; antes de começar a música, ele a ofereceu para o casal e disse que, depois, pagaria uma cerveja pra mim, por ser meu aniversário. Ficou nisso e ele tocou a música. Quando terminou, Eddie Vedder foi até o segurança que ficava no palco e falou alguma coisa pra ele. Este segurança comunicou outro que estava na pista e eu vi uma correria de gente de um lado pro outro. Pensei que tinha alguém passando mal – estava muito quente no Rio de Janeiro. Então um dos seguranças parou bem diante de mim e disse: VEM.

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Foi uma loucura! O pessoal gritando, falando meu nome. Já comecei a ficar mais nervoso. Saí de onde estava e fui levado pelo segurança até os degraus que ficam na frente do palco. Ele me disse: Não sobe. Fica aqui parado e não tenta fazer nenhuma gracinha. Caso contrário, vou ter que te levar de volta pro seu lugar. Daqui a pouco vou te passar mais informações. Fiquei ali, parado como uma estátua. Então, esse segurança voltou e me levou pra trás do palco. Eu pensando mil coisas: o cara vai me chamar pra cantar. Eu vou cantar com Eddie Vedder! Pilhado! O segurança perguntou se eu entendia inglês e eu respondi: Mais ou menos. Por isso, foi chamado um tradutor que me passou as instruções. Algumas coisas eu conseguia entender, outras eles traduziam, mas basicamente me pediram pra ficar quieto e aguardar porque “o Eddie Vedder vai vir te buscar”. Nessa hora, nem respirava mais.  Achei muito legal a preocupação deles comigo. Os seguranças perguntavam o tempo todo se eu estava bem ou se queria água. Devem ter percebido que eu estava bem nervoso.

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A banda terminou de tocar “Got Some” e veio o “nanico”, o tiozinho Eddie Vedder. Ele chegou, pegou na minha mão, me cumprimentou, perguntou meu nome, quantos anos eu tinha feito – 38 – e pediu pra eu esperar. Cantou mais uma música e, depois, voltou e me puxou para o palco. Apresentou-me para o público. Achei muito legal a maneira que ele falou meu nome, “Eddu”, e me perguntou: OK, vamos cantar? “Porch”? Se ele tivesse falado pra cantar “Mamãe eu quero” ou “Parabéns pra você” eu teria falado OK da mesma maneira. Ele me deu um abraço, começou a dançar comigo, batendo nas minhas costas, e eu pensei: vou entrar na onda do cara também. Comecei a curtir junto. Eddie disse pra mim: Vou começar a tocar. Você canta a primeira parte e depois recua que o segurança vai te levar. Respondi OK. Ele me perguntou se eu estava bem. Disse que estava muito nervoso. Então, ele pegou uma garrafa de vinho, deu um gole, me passou e quase virei a garrafa inteira. No vídeo, aparece eu batendo três vezes a mão no peito. Meu coração estava a um milhão. Ele então falou: Você disse que seu sonho era cantar comigo. Vai lá: o palco é seu. Você não tem noção: olhar o Maracanã inteiro... O pessoal gritando meu nome. Então, ele começou a tocar e a todo momento eu me segurava, porque, se eu começasse a chorar ali, não ia conseguir cantar nada.

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Cantei a primeira parte, respeitei as ordens e saí fora. O segurança brasileiro chegou e disse: Parabéns! Estou muito feliz por você ter realizado o seu sonho. Quer assistir ao show aqui do fundo ou voltar pro seu lugar? Falei que, por favor, gostaria de voltar ao meu lugar. Assim que voltei pra plateia, não aguentei: me deu uma crise de choro, e eu soluçava. O pessoal batia nas minhas costas e falava: Parabéns, você é merecedor. Chora mesmo. A banda continuou tocando “Porch”, e o Eddie desceu pro público. Primeiro foi pro lado de Mike McCreedy (lado esquerdo do palco) e, depois, pro lado de Stone Gossard. Andou mais um pouco e, quando eu vi, o cara estava parado na minha frente. Ele subiu na grade ― eu ainda estava chorando pra caramba ―, me abraçou, batendo a mão atrás da minha cabeça e cantando. Quando deu o microfone pro pessoal cantar, me deu um beijo no rosto e saiu. Foi embora.

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Essa foi minha experiência de cantar ao lado de Eddie Vedder e com o Pearl Jam em um Maracanã lotado!

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Lost Dogs – Pearl Jam Cover

A data de fundação da banda é de 2000, mas ela já existia antes. A princípio, tinha um repertório variado e estava começando a colocar um pouco de Pearl Jam no repertório. Nessa transição, o vocalista inicial saiu e eu entrei. O fundador da banda é o PJ (Carlos Augusto).

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Eu cantava desde os 15, 16 anos. Tocava Beatles com meu primo (ex-baixista da Lost Dogs, Anderson). Nós dois começamos na música bem cedo. Os anos foram passando e entrei em outras bandas. Em nosso repertório sempre tinha umas três ou quatro músicas do Pearl Jam, e o pessoal curtia muito. Falavam: Cara, sua voz parece demais com a do Eddie Vedder. Depois de um tempo, tocando em bandas que não eram cover, decidi que queria montar uma que tocasse apenas Pearl Jam. Foi nesse momento que conheci o pessoal da A25M – não me pergunte o porquê desse nome, até hoje eu não sei direito. O pessoal falava que foi uma placa que eles viram na rua e estava escrito “A 24 metros” (?), e aí colocaram esse nome.

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Passou um tempo e fui chamado pra fazer um teste. Havia outros vocalistas. Só me chamara depois de dois meses. Foi uma correria: o pessoal da banda me ligou numa quinta-feira e o show era no sábado. Depois do primeiro show ficou decidido que eu seria o vocalista. Naquela época a maioria das bandas que faziam cover de Pearl Jam tomavam como referência o início de carreira da banda: o vocalista que fazia Eddie Vedder usava bermuda, camiseta flanelada, cabelo comprido. Quando entrei na Lost Dogs, Pearl Jam já tinha uns 10 anos de estrada. Vedder era um cara mais maduro e de bem com a vida. Falei pro pessoal: vamos montar um esquema buscando inspiração na banda atualmente e seguir com a mesma pegada. Mandei fazer uma réplica da guitarra de Eddie Vedder e a tocava em todos os shows. Começamos assim a formação: três guitarras, baixo e bateria. Foi legal, porque na época era um diferencial. Todo mundo estava acostumado a ver o vocalista sem tocar nada, e nós iniciamos um novo seguimento. Hoje, em qualquer show do Pearl Jam, Eddie Vedder fica praticamente 80% do setlist com a guitarra.

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Os anos foram passando. Começamos a tocar em alguns lugares, como no interior de São Paulo, e chegou um tempo em que aquela banda, que a início era uma brincadeira, começou a ficar mais séria. Tivemos de mudar alguns músicos, deixando apenas os que seguiam uma mentalidade mais profissional. Foi saindo integrante e chegando novos até ficar uma formação que durou bastante tempo, e foi a que realizamos a maioria dos shows: Cliff e PJ nas guitarras, Anderson no baixo, Richard na bateria e eu nos vocais. Ficamos assim por uns sete anos. Meu primo (Anderson, baixista) teve que sair da banda e depois saiu também o Richard (baterista). Entraram Adriano e Ronas. Estamos agora com essa formação e o pessoal aceitou muito bem. Nós investimos muito no setlist, na performance em palco. Pro ano de 2016, queremos seguir justamente essa filosofia do Pearl Jam: cada show ser único, não ter medo de investir nas músicas, fazer coisas diferentes. É exatamente isso que planejamos para 2016. Vamos aproveitar essa passagem do Pearl Jam pelo Brasil, a oportunidade que tive de cantar com eles.

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Depois de minha ida ao programa da Fátima Bernandes, na Globo, creio que vá aparecer muita oportunidade legal e queremos aproveitá-las da melhor maneira possível. O principal é realizar um trabalho bom, respeitando a filosofia do Pearl Jam e, principalmente, os fãs da banda. Nós, da Lost Dogs, não temos fãs: somos como qualquer outro que gosta de Pearl Jam. Somos afortunados porque conseguimos semear a musicalidade que o Pearl Jam nos deixa. É meio clichê, mas eu só tenho a agradecer. Se não fosse pelas pessoas que vão às nossas apresentações, a banda não teria continuado. Ano que vem, completamos 16 anos. É muito tempo de dedicação.

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Eu sou um cara que está sempre antenado com tudo o que acontece com Pearl Jam e com Eddie Vedder. Quando ele fez aquela trilha sonora para o filme Into the Wild (Na natureza selvagem), decidi fazer um projeto seguindo o tributo que ele faz: uma coisa mais folk, com violão, voz e ukulele. É bem legal, porque o pessoal consegue se identificar mais ainda com o trabalho da banda.

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Resumindo tudo: este ano de 2015 vai ficar em minha memória pra sempre.

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Fotos com moldura de joão thiago.

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JOÃO THIAGO é fotógrafo, professor de informática e de artes visuais e, agora, ilustrador no TERTÚLIA. Mais sobre ele em www.joaothiago.com. No Facebook: João Thiago.

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GISELE CASTRO, 27, é professora de inglês, formada em Letras pelo Centro Universitário Moura Lacerda. Leonina, leitora ávida de literatura fantástica, tendo como maiores ídolos JRR Tolkien e JK Rowling. Sangue Corvinal, mas coração e estômago de um hobbit. Futura mestre em Linguística (sonho meu); cinéfila e devoradora de séries de TV. Trabalhada na adolescência pelo universo pop, encontrou-se com o velho & bom rock and roll aos 20 anos. Facebook: Gisele Castro.

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  • 04_-_Given_To_Fly.mp3

  • Lost-Dogs-PJ-Cover-Given-to-fly.mp3

06/12/2015