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Poesia inerente / "Aberrações causais"; Daniel Lisboa; literatura brasileira contemporânea; contos;

Haron Gamal

Aberrações casuais, de Daniel Lisboa, é um livro com onze contos. Todos apresentam muito vigor narrativo. O autor consegue extrair de situações aparentemente banais do dia a dia a respectiva violência de cada uma delas, mostrando neste cotidiano a predominância das aberrações. Mas não se trata apenas disso, pois suas narrativas revolvem muita pungência.

A partir da leitura dos contos de Lisboa, pode-se refletir sobre o que permite a um texto ser chamado de literário. E a resposta mostra-se no enfrentamento entre palavras e realidade, com o objetivo de chegar ao limite do inteligível e não despencar no abismo. A escrita que se pretende literária não pode ser de repetição; mesmo sabendo correr o risco de ultrapassar a fronteira da razão, também precisa perguntar: o que é a razão? Até onde vai seu território?

Na atualidade há autores que namoram a cultura de massa, pois seus objetivos são o consumo fácil da obra, e não a necessidade de deixar uma marca, ou uma questão. Não quero dizer com isso que sucesso e literatura sejam incompatíveis, mas é preciso que se tenha um mínimo de coerência. Há escritores que já não querem saber o que é literatura. O importante é fazer sucesso e vender os direitos para o cinema e para a TV. Se dizem que escrevem literatura, é porque a definem como eles próprios acham, não tocando no nomadismo que essa arte arrasta. Além disso, ela revela muito mais dúvidas do que certezas. Talvez literatura seja a desrazão, o indefinível, o território ambíguo. Não sabemos nomear este território nem dizer a quem pertence. Ele será sempre estrangeiro.

Os grandes escritores nunca caíram no gosto pleno do público, basta olhar os avatares do modernismo. Mário de Andrade com seu Macunaíma ainda é vanguarda até hoje, e mesmo um Graciliano Ramos não encontra leitores a cada esquina.

Daniel Lisboa escreve numa outra época, mas suas características são marcantes ao trazer um texto que não namora diretamente com o gosto do público mas, ao contrário, expõe as entranhas e o que há de estranho neste mesmo público.

O primeiro conto do livro, “Poesia inerente”, aborda um personagem chamado José, que vive em extrema solidão. Seu contato com o mundo são os beija-flores que chegam à janela de sua casa para beber um gole de água açucarada. Mas, em determinado dia, eles também desaparecem, deixando o personagem em pleno abandono. Apenas grandes insetos, como mosca varejeiras, aproximam-se dele, trazendo um mundo em decomposição. José então percebe que tudo começou no dia em que ele aproximou-se de outro ser humano.

“Entrevista” põe em cheque as entranhas do regime militar e dos militares que fizeram parte da ditadura. Mas não como a esquerda gostaria. E também não como os militares assim o desejariam.

O conto “O caçador e a joalheira” coloca no centro da questão o Holocausto: “os judeus poloneses foram os que mais se foderam”, mas sob o foco de um jovem de periferia que pouco entende de História e de mulheres. Ricardo e seus companheiros partem à caça daquelas que acham mais ignóbeis, “raros espécimes do sexo oposto”, como eles as classificam, “o que Ricardo e sua trupe queriam era foder garotas que a enorme maioria dos caras desprezaria, mas não por questões meramente estéticas”. Ele parte então atrás de uma judia, que se diz joalheira. Mas as coisas não acontecem como ele espera.

O principal conto do livro, “Aberrações casuais”, é uma história de família. Pai, mãe, filho e filha. A vida marcha normal, como a de todo mundo. Ou melhor, nenhuma vida é vida de todo mundo. Lisboa, então, mostra o que há de surpreendente nesta família, na família de todo mundo.

“Visite nossa cozinha” é um conto que também mergulha nas relações familiares. Um homem vai a um restaurante e descobre que o chef é o próprio pai, que já não vê há quase duas décadas.

O interessante é que em todas essas histórias os personagens não sofrem apenas de mutilações psicológicas, isto é, de traumas ou perversões, como o próprio nome do livro indica. Mas também (quase todos) são mutilados fisicamente.

“Amor de supermercado”, narrado do ponto de vista de uma mulher que trabalha como caixa, vai enumerando as mazelas de cada um à medida que a funcionária passa os produtos na leitora da caixa registradora. Rita, a empregada, enxerga o interior de cada um e, ao totalizar a conta, pergunta aos próximos clientes: “vocês estão juntos?” Como a resposta é quase sempre negativa, ela vai levantando hipóteses de como eles poderiam ser felizes se saíssem dali de braços dados, tentando escapar da própria solidão. Mas para todos esses personagens, praticamente não existe salvação. É digna de nota também a estrutura narrativa deste conto, com os produtos enumerados e seus respectivos preços. Talvez insinue o máximo e o mínimo que cada vida humana vale.

Aberrações casuais traz certa “poesia inerente”, como bem diz um de seus contos, possível lembrança ou referência a Vício de inerente, romance de Thomas Pynchon, escritor ácido, invisível, avesso à publicidade, mostrando que toda poesia é também uma espécie de vício.

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Leia aqui "Ucrânia", um dos contos de Aberrações casuais.

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S.E.R.V.I.Ç.O.

 

 

Daniel Lisboa

Aberrações casuais

Editora Kazuá, 123 páginas

 

 

 

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ILUSTRAÇÃO  "A marcha" (1997) de HELTON SOUTO: .

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Jornalista, DANIEL LISBOA é colaborador de veículos como UOLFolha de S.PauloTrip e Piauí. Estudou poesia na Jack Kerouac School of Disembodied Poetics, nos EUA, e Aberraçôes casuais é seu primeiro livro. No Facebook: Daniel Lisboa.

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HELTON SOUTO nasceu em 76. Ribeirão Preto. Casado com Silvana. Cientista social, educador, gerente de projetos na área de educação e juventude, artista plástico e ilustrador. Desenha e pinta desde sempre. Torce para o São Paulo. E seu cachorro se chama Yoda. Blog: Andar na pedra. Contato (Facebook): Helton Souto.

 

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