)Música(

Led\\\centrismo / Led Zeppelin

Renato Alessandro dos Santos

Depois, Led Zeppelin. Em casa, a mulher é fã número um dos caras. Indiscutível. Os CDs por aqui, sem que me importasse com eles; ela, não: ouvia cada um e, até então, não se conformava por me ver, até os trinta e muitos anos, abrir a porta apenas para bandas de rock alternativo, dessas eternamente bem-vindas aqui em casa; naqueles anos todos, os ouvidos, sem explicação, estavam surdos para o que Jimmy Page e Cia. faziam em cada álbum. Mas muitos, por outro lado, viram os caras como a banda que ocupa o centro de tudo que, ao redor deles, circula; quer dizer, o Sol em volta do qual outros planetas giram, e Led Zeppelin, para muitos, mais do que Beatles ou Rolling Stones, ocupa o centro de tudo. Led\\\centrismo.

A cada álbum, uma descoberta. O segundo disco parecia o melhor de todos. Já havia ouvido os LPs e discordava de minha mulher, que dizia, Não existe melhor disco, o todo é que importa, e nisso aí cada disco não é melhor que o outro, nunca. Discordei. Houve discussão. Um desperdício de lágrimas. Dias sem conversar comigo, e se não pode vencê-la... Então, revi minha opinião. Sobre tudo. Tudo: bandas, O castelo de Otranto, Freud, “Vamos pular”. Pode ser verdade. Minha geração cresceu desconfiando do Coda; hoje, muita gente o acha 1 Led Zeppelin admirável. Desconfio que nem todas as faixas são inacredincríveis, mas aí falta a audição constante, por um longo período, da discografia de uma banda; então, vou esperar o dia em que jogarei eu mesmo na minha cara, Você estava errado, Sarcófago!, e nesse dia ouvirei Coda em vinil, dos dois lados.

O segundo disco começa com um suspiro de Robert Plant, enquanto Zéfiro joga as madeixas do vocalista para trás, e, então, a cortina é aberta para um dos mais altos mirantes do rock. Uma faixa: "Whole lotta love". Você tem de ver Jimmy Page no documentário It might get loud (2008) mostrando ao White Stripe Jack White e ao The Edge U2 como se faz uma caipirinha com as cordas da guitarra. Tem um pessoal que carrega uma alma biruta, não é mesmo?

O próximo passo era ouvir mais, muito mais, o primeiro disco, aquele que passei a gostar mais do que qualquer outro. Você já cansou de ouvir “Good time, bad times”, mas ouça de novo a guitarra, a voz, a bateria, a linha de baixo aliada à guitarra dando piruetas, juntas... Vale por um bifinho. Se podes ouvir, repara: você tem de dar atenção a uma banda que se lança ao pega pra capar do mercado da música com uma primeira faixa como essa. Parece The Walking Dead. QuemAquele ali? Foi mordido.

No fim das contas, não há nada como chegar em casa e pôr o primeiro álbum do Led Zeppelin no toca-discos, e quando começa a tocar “How many more times”, a última faixa do lado B, e você lembra que é só o primeiro álbum, penso que, mais uma vez, Sementinha de Mostarda, você está coberta de razão.

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ILUSTRAÇÃO DE ícaro cardoso

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RENATO ALESSANDRO DOS SANTOS, 43, é professor no curso de Letras do Centro Universitário Moura Lacerda e no Colégio Semeando. Fez doutorado em estudos literários na UNESP, de Araraquara. É autor de Mercado de pulgas (Multifoco), da dissertação A revolução das mochilase da tese Romances rebeldes — a tradição de rebeldia na literatura norte-americana: de Moby Dick On the Road. É editor do TERTÚLIA. Contato: realess72@gmail.com. Facebook: Renato dos Santos Santos.

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ÍCARO CARDOSO, 17, desenha desde criança, incentivado pelos pais. Cresceu apaixonado pelas artes. Nasceu e mora em Ribeirão Preto. No Facebook: Ícaro Cardoso.

  • 01. Whole Lotta Love

  • 01. Good Times Bad Times

  • 09. How Many More Times

07/11/2015