)Contos(

Verdades / literatura brasileira contemporânea;

Beto Canales

Pois é, doutor. Trinta? Quarenta anos? Tenho tempo demais para lembrar, mas como tenho idade suficiente para não ser preso, vou fazer um esforço. Na verdade, começou antes, sessenta anos atrás. Era tudo diferente, o senhor deve imaginar. Como agora, eu morava na zona rural, retirado, num fundão de campo. Diversão era coisa de poucos. Tempos diferentes aqueles. Eu, menino novo, sempre dava um jeito de fazer umas coisinhas mais perigosas, com risco mesmo, mas com muita cautela e justiça. Achava - veja só o senhor! - que deveria ser juiz, porque sempre sabia direitinho quem merecia castigo. E como sabia, claro, dava um jeito nas coisas. Aproveitava e juntava diversão com esse trabalho de (como poderia mesmo dizer?) limpeza, talvez. Bem, a primeira vez aconteceu quando fui à vila buscar uma encomenda. Cheguei cedo e fiquei matando tempo, esperando o pessoal acordar. Foi quando vi um velho, tanto quanto eu agora, sair da casa com a luz na porta. O senhor sabe, não é? Safado. Saiu com um sorriso no rosto do tamanho da sem-vergonhice dele. Cuidei para ver onde ia e não foi difícil, pois cambaleava a cada passo. Guardei bem o lugar e voltei até a casa de onde ele saiu. Entrei, a porta estava aberta, sempre aberta, e conversei com a menina. Bonita como ela só. Uma verdadeira preciosidade. Aconselhei, mostrei o caminho certo, ela sorriu e disse que quando eu virasse homem aparecesse. Peguei minha encomenda e voltei para casa, mas minha cabeça ficou lá, no velho que não valia nada. E o senhor sabe, homem sem cabeça, cedo ou tarde faz bobagem. Sempre fui um sujeito correto e aquilo tudo ficou me incomodando. O desgraçado fazendo mal à menina e ficaria o dito pelo não dito? Ah não - disse para mim mesmo - não enquanto eu viver. Eu tinha que bolar um plano que tirasse o velho da vila.

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Quando eu o vi pela primeira vez, ele estava todo suado e ensanguentado. Eu tinha ido de férias da cidade para a fazenda e estava acostumada com cheiro de perfume, não de suor. Provavelmente por isso, aquela figura rude, quase um troglodita, me despertou curiosidade. Ele passou apressado como se fugisse, moço bonito e forte, ao lado do velho que o senhor falou, provavelmente, e se foram campo afora. Saí atrás e perguntei para o capataz de onde vinham e para onde iam. Estavam carneando, ouvi, e iam ao açude tirar a catinga, disse ele. Claro que nunca esqueci daquele dia porque foi quando nos conhecemos. Lembro cada detalhe, cada palavra do que afirmo por ter sido o começo da minha vida. Bem, fiquei parada embaixo de uma árvore imensa, à sombra, fazendo poses que via nas revistas, esperando que ele voltasse. E ele voltou, mas como um bicho cego e solitário, parecia um lobo, e passou sem sequer desviar os olhos para o meu lado. Estava ofegante e molhado, com o peito brilhando contra a luz do sol. Passou reto, em direção às casas dos empregados, e sumiu. Ficamos eu, minhas poses e meu perfume francês protegendo minha brancura na sombra da figueira. Mas como não sou e nunca fui mulher de desistir, corri atrás.

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Pois, minha ideia era simples: diria a ele que as meninas me mandaram chamá-lo. Estavam esperando, umas três ou quatro, tomando banho peladas no açude grande. Claro que ele iria, o desgraçado. E assim fiz. Não demorou cinco minutos e lá íamos nós, em passo ligeiro, rumo à fazenda. No caminho não resisti e já dei um sopapo na cabeça do velhote. Pois não é que o degenerado fez exatamente o que não devia? Disse - “para, que eu sou autoridade”. Daí mesmo que não parei. Não senti nenhuma pena. Batia nele pela cabeça, pelo rosto, por tudo. Ele andou abaixo de laço. Fiquei todo cheio de sangue e quando passava perto da sede, adivinha quem aparece? A filha do patrão. Foi quando conheci minha velha, bem nesse dia. Ela estava garbosa e com um vestido branco, meio curto, mas o pessoal da cidade era assim mesmo. Passei ligeiro e disse a ele que ficasse quieto ou o matava ali mesmo. Cheguei no açude, parei na beira e mandei que rezasse a última Ave-maria. Ele tremia feito vara verde de marmeleiro. Eu achava graça. Fui caminhando em sua direção, obrigando a ir cada vez mais para o fundo. Quando estava com a água pelo pescoço, avisei que ele tinha sido condenado à morte por abusar da pobre menina. Ele tentou se defender, mas suas palavras ficaram embaixo d’água, junto com a falta de moral e de vergonha. Tirei minha camisa e atei o velho a um tronco submerso. Mergulhei um pouco e tranquei aquela carne quase podre lá em baixo. Dois problemas resolvidos. Me livrei do corpo e alimentei os peixes. Voltei e ela ainda estava lá. Passei ligeiro novamente, disfarçando com os olhos, e fui para casa me esconder. Ela sabia o que eu tinha feito. Tive certeza quando bateu na porta me fazendo sair do banho.

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Cheguei em frente à casa, era branca como todas as outras, e bati na porta. Nem sei com quem ele morava e se tinha mais alguém. Ele abriu, enrolado numa toalha. Como era bonito, nossa! Eu olhei aquele corpo másculo de cima a baixo e ele parado, sem saber o que fazer. Aqueles minutos foram um prazer. Ali começou minha paixão. Não tenho medo, nem vergonha de contar, apesar do defeito, ou, sei lá, desvio de caráter do meu velho, vivemos todos esses anos em harmonia. Eu conheci o problema naquele mesmo dia, mas aprendi a conviver com ele e principalmente a tolerar. Agora sei que tantas virtudes não poderiam ser abafadas. Bem, olhei e entrei. A porta se fechou sozinha, como cúmplice e, poucos meses depois, estávamos casados. Claro que me incomodei, mas valeu a pena. Na verdade, não entendo por que depois de tanto tempo fomos chamados aqui. Vivemos anos e anos quietos lá na fazenda. Não viemos muito à cidade, muito menos à capital. Olha, doutor, essa história de matador em série é coisa de filme, meu velho não é dado a essas coisas não.

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Menina linda com as pernas de fora. Só podia ter dado no que deu. Logo que entrou, perguntou o que eu havia feito. Ela tinha visto, então resolvi não mentir e contei toda a verdade. Ela ouviu calmamente e quando terminei ficou em silêncio. Respeitei aquele momento, pois sabia que era fundamental. Se reagisse mal, teria que matá-la também. E seria um desperdício. Aqueles segundos demoraram horas e fiquei pacientemente esperando. Lembro agora, olha só como a memória brinca com a gente, que ela coçou o queixo e disse: - "ele fez por merecer". Dali até o casamento foi como vento em pé de serra. Jurei para mim mesmo que nunca mentiria e, talvez por isso, estamos juntos por toda a vida.

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Bem, voltando para aquele dia, lembro que perguntei o que havia feito ou estava fazendo. Ele começou a contar uma história fantástica sobre mortes e justiceiros. Quanto mais falava, menos eu escutava. O peito molhado parecia colocar tampões em meus ouvidos e simplesmente não resisti a tanta beleza: enlouqueci. Foi o dia em que me tornei mulher e apaixonada, por quem chamei e chamo de meu homem.

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Acho que minha velha sempre gostou de justiça. Quando falei do acontecido, lembro que ela ficou excitada e ali mesmo começou nosso casamento. Cada vez que executava um trabalho, contava os detalhes e terminava em sexo, mas não comente com ela que lhe contei isso tudo, doutor. Ela foi a vida inteira muito alienada. Ouvidos só para coisas boas. Sabe como é, filha de fazendeiro, verdadeira sinhazinha. Um doce de mulher, mas uma estatuazinha de porcelana, muito frágil.

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Por isso afirmo que meu velho não é do mal não. É mentiroso, o medonho. Um contador de histórias danado de bom. Lembro que uns dias depois, meu pai quis fazer uma peixada para oficializar o noivado e ele não quis, preferiu um churrasco, com a carne da rês que ele mesmo havia matado. Puro romantismo. Esse meu velho!

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ILUSTRAÇÕES DE helton souto

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Beto Canales é colaborador de Tertúlia. Produz contos e narrativas longas, apesar de atrever-se a "cometer" crônicas. Escreve sobre cinema e, sobretudo, sobre tudo em seu blog Cinema e bobagens. A universalidade de seus personagens e os lugares onde ocorrem suas histórias são marcas registradas, permitindo que aconteçam com qualquer um em qualquer parte. Cinéfilo apaixonado e crítico de cinema, escreve em vários sites e revistas. É também editor da Esquina do Escritor e autor de A vida que não vivi, pela Multifoco

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HELTON SOUTO nasceu em 76. Ribeirão Preto. Casado com Silvana. Cientista social, educador, gerente de projetos na área de educação e juventude, artista plástico e ilustrador. Desenha e pinta desde sempre. Torce para o São Paulo. E seu cachorro se chama Yoda. Blog: Andar na pedra. Contato (Facebook): Helton Souto.

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18/10/2015