)Sarau(

notas para um segundo gênesis / poesia; poesia brasileira contemporânea;

Gabriel Pinezi

para Claudio Willer

sobrevivente do apocalipse
e habitante da linguagem

 

 

 

 

ZERO ou PRINCÍPIO DUALISTA DE UM SEGUNDO GÊNESIS ou DA ORIGEM CARNAL DA DIVINDADE

 

E FEZ-SE luz

,luz que ao mundo faz,

 

MAS seu reverso

profundo, sombra do

mundo, também

nos faz.

 

Faz a luz

no mundo

suas sombras,


MAS COMO a sombra

da luz

se faz?

 

I

 

Água que é você.


A onda te move

a você em concêntrico

círculo.


Pulmões de vento que

de fora a dentro

bombeia-te o sangue.


De barro, coração

Tempestade

de onde brota o fogo

informe.


Braço insensato

a mover-te ao mar

que para

 

e paira.


Homem,

és filha do vento!

 

Entre dedos tens

o mundo inteiro,

 

tanto tão-só.


Por onde passo,

meu passo estremece

a terra que sou.

 

II

 

Sustenta-se em teus pés

quem em ti

é o Sou,

 

e em dentes

morde a violência

do alimento: mulher

que ao mundo fode.

 

Louca que em ti

queima e consome-se

como se

o Nada houvesse,

e nada mais.

 

Cidade de um concêntrico

reino sem rei. A carne

de Deus te habita

e, no entanto, teu

corpo é santo

em ímpeto

exílio.

 

Quer-se e forja-se,

e na força de teu braço.

 

E que - filho - sofra, mas FAÇA-SE!

 

Nem que ao preço de

sangue, nem que ao corte

da carne.


No peito

tens o tempo, libertário

prisioneiro.

 

Condensa-te e

concentra-se

na mão

do suor e

 

,no entanto,

 

,com a força de um santo,

 

cala-te e serra-te ao mundo

de volta ao

antes-da-flor.

 

Semente,

a filha do vento sou.

 

O mundo atravesso ao avesso

em esplêndido

passo.

 

Meu pai é

grave, terra.

 

Mãe que tenho

é vento,

e vento é vida e

vão.


Da terra nasce, ao céu,

quem quer que seja

e seja;

 

mas em ti

dissolve-se na loucura

que habita.

 

Nasce-te ao

campo aberto do mundo

que de portas abertas

te porta.

 

III

 

Sentir-se o monstro que com as

mãos constrói-se

na argila do mundo.

 

Os filhos do barro

tem o fogo

mais denso

em seu dorso

 

e a lama de teu sangue

é vermelho-roxo-amarelo

 

banho a suar-se

no cio.


E em seu rosto

o milagre da vida

no dente a cravar-se vazio

 

,teci-em-torno da existência,

 

língua a tocar

o gosto

trêmulo

e tenso

do ar.

 

Consumir-se e desejar-se

 

sem medo

da morte,

 

sem medo

do medo.

 

O sul-frágio de teu norte

 

EM TI HÁ CAMINHOS

 

onde arrasto

meu passo

no rastro

de mim.

 

Mas fácil? Que fácil

se é frágil o tempo

a trembular-se

 

em âmbulo totem


Nada, NADA,

nem o fosso de teu corpo

nem o ânus que redondo

faz-se carne

pode em ti deter

(palavra) que

condensa o buraco

negro dos olhos.

 

FAZ-SE O FAÇA-SE DO HOMEM

 

em torno ao torso

o fosso do

tempo repousa,

 

o fogo do mundo

brota.

 

Não há chama maior.

 

IV

 

Deitado sob

estrelas eu

desço

ao descanso.

 

O céu é imenso,

como sou em

meu corpo.

 

A estrela é poeira

no teto de nada

que paira grudado

no alto do céu.

 

A Terra nos puxa

nos firma, nos forma,

 

mas a forma da Terra é

no mover-se do vento.

 

As folhas da relva

balançam-me-abraçam

 

devoram-me;

 

deitado no nada,

eu caio

em meus

braços,

 

estrela

cadente

que pousa.

 

Vento! sopra o tempo em minha boca

que eu sopro a mim mesmo de volta!

 

Ter-se a si mesmo em seu braço,

desejo à estrela em que passo.
 

Não há outro onde

onde eu queira estar.

 

V ou APOCALIPSE ou MERGULHO DO TEMPO NO CU DA LUZ

 

NO FUNDO DO fundo,

no topo que

há-de baixo,

o alto

se esconde.

 

Há noites e sóis

da noite (onde

o fogo sola-se,

no centro

obscuro da Terra). Há noites

e sóis da noite (onde

a morte seus

dentes de morte

devora);

há noites

no sal

que no núcleo

da Terra se

esconde.

 

Pulsa-se e filtra-se

a brisa do sangue,

 

vento que aos dentes

do tempo lacera;
 

a morte é língua

a lamber-se no lá

 

,bem lá,
 

donde a luz

se esconde:

 

o cu

da luz

 

,luz da noite,

 

é sombra

infinita

no homem.

 

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ilustrações de  HELTON SOUTO

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GABRIEL PINEZI nasceu em Ibitinga, interior de São Paulo, pra não ser grandes coisas na vida. Fez doutorado, mas na família é o menos dos doutores, segundo decreto de D. Pedro II. Gosta de teoria literária, daquelas originais, e pensa em dedicar a vida a escrever, ainda que não encontre formas de financiamento. Seu pai lhe pergunta pra que que serve sua vida de forma velada, toda vez que volta pra casa. Às vezes pensa em largar tudo, sair por aí, atrás de algo que não seja quantificável. Por preguiça, continua o mesmo, ainda que sonhe com outro de si mesmo. É um místico num mundo no qual Deus morreu. A linguagem lhe ama mais que as mulheres. Mora em Londrina, onde se sente em casa, por acaso do destino. Sabe perder mais do que ter. Pretende publicar um livro impublicável. Tem vergonha de escrever sobre si mesmo. FACEBOOK: Gabriel Pinezi.

 

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HELTON SOUTO nasceu em 76. Ribeirão Preto. Casado com Silvana. Cientista social, educador, gerente de projetos na área de educação e juventude, artista plástico e ilustrador. Desenha e pinta desde sempre. Torce para o São Paulo. E seu cachorro se chama Yoda. Blog: Andar na pedra. Contato (Facebook): Helton Souto.

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26/09/2015