)Livros(

Priapopéia carioca / Uma aventura perigosa; George dos Santos Pacheco;

Renato Alessandro dos Santos

A literatura erótica no Brasil vem ganhando força. Há não muito tempo, quando a porta do quarto era fechada, o pudor pedia discrição e o que acontecia sobre a cama permanecia sobre a cama. Como Las Vegas. Hoje, não é mais assim e, por isso, muita gente vai ficar chocada com Uma aventura perigosa, essa segunda incursão de George dos Santos Pacheco pela narrativa mais longa, o romance. Já havia lido outros textos dele: contos e mais contos que vem publicando aqui no tertuliaonline.com.br. Quando concordei em ler seu romance, para prefaciá-lo, imaginei que o George estava reunindo seus contos para editá-los como livro. Qual não foi a minha surpresa quando vi que, na verdade, o livro não era de contos e, sim, um romance, o segundo do George, como você já sabe. Aí, fui ler.

Hoje, nada mais parece causar espanto, mas quando comecei a ler Uma aventura perigosa não encontrei ali o meu velho amigo virtual, Dr. Jekyll, com seu estilo costumeiro; em vez disso, me deparei com seu outro lado, o lado escuro da lua de Mr. Hyde: George está livre, solto, leve & libertino aqui. Bastante libertino. Como se trata de literatura, não é o que se manifesta entre a obra em si e várias pessoas que interessa, como em uma sessão coletiva de cinema, por exemplo. O que interessa, nessas horas, é o contato individual do leitor com o livro, ou seja, o diálogo que a obra cria entre narrador e você, leitor ou leitora-fã de literatura erótica. É o seu caso? Se for, você está em boas mãos, porque o romance do George é ousado. O sexo é tratado como tem de ser, ou seja, livremente. Mas não é uma liberdade chapa-branca, como se as cenas de sexo fossem comedidamente descritas. Não. Em Uma aventura perigosa o sexo é explícito. Então, nada de sexo com camisinha aqui ou literatura com notas de rodapé; antes, devassidão, sensualidade e uma tendência descomunal para o sexo. Leia, de boca cheia: P.R.I.A.P.I.S.M.O.

O enredo? Max é casado. Sua mulher, Soraya, tem um passado que o marido desconhece. A esposa tem uma irmã mais nova, que vai morar com o casal. Desnecessário dizer que a beldade é uma ninfeta. A mulher de Max trabalha em um banco, tem um bom emprego e sustenta o marido, que está afastado do trabalho na prefeitura. Vez ou outra, ela viaja por conta de algum seminário. Max e a cunhada ficam em casa sozinhos. Imagine... Max acaba escrevendo uma carta a si mesmo. A ideia é interessante: contar tudo o que deseja, sem medo do superego. Frustrações, anseios, tudo! E, em 24 horas, queimar a carta. Max quer, como diria Macunaíma, fazer festinha na cunhada, participar de uma sessão de gangbang com anãs (quem não quer?) etc. É o desejo de nove entre dez brasileiros, como diria Nelson. E a carta desaparece...  

A trama que George constrói em seu romance mantém o interesse do leitor. É divertido. Em certa altura, o sexo é tanto que você parece que está não com um livro de literatura em mãos, mas com um roteiro de um filme pornô. E isso é um elogio. Um brinde à ousadia do autor. É como se fosse La Fontaine em “Epigrama”: das fábulas para a poesia erótica. Dá-lhe ousadia. A tradução é de José Paulo Paes:

Amar, foder: uma união
De prazeres que não separo. 
A volúpia e os desejos são
O que a alma possui de mais raro.
Caralho, cona e corações
Juntam-se em doces efusões
Que os crentes censuram, os loucos. 
Reflete nisso, oh minha amada:
Amar sem foder é bem pouco,
Foder sem amar não é nada.

Gostou desse La Fontaine?

Se os leitores do romance do George desistirem, depois de dada a partida, será porque o conservadorismo deles não os deixou ir adiante, ou, em um sentido contrário, como acontece nessas horas, foram adiante justamente pela libido que o livro despertou neles. 50 tons de cinza? Nunca li. Mas os leitores dessa franquia erótica de butique, provavelmente, encontrarão no romance de George uma leitura prazerosa. Pouco importa. A despeito dessa comparação, a leitura de Uma aventura perigosa sustenta-se por si só. Dê uma chance a sua libido, leitor ou leitora. Dê uma chance à priapopéia que Max realiza pelas ruas quentes do Rio de Janeiro.

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Uma aventura perigosa, de George dos Santos Pacheco (Buriti, 166 páginas)

 

 

 

 

 

 

 

 

 

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ILUSTRAÇÃO DE helton souto 

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RENATO ALESSANDRO DOS SANTOS, 43, é professor no curso de Letras do Centro Universitário Moura Lacerda e no Colégio Semeando. Fez doutorado em estudos literários na UNESP, de Araraquara. É autor de Mercado de pulgas (Multifoco), da dissertação A revolução das mochilas e da tese Romances rebeldesa tradição de rebeldia na literatura norte-americana: de Moby Dick a On the Road. É editor do TERTÚLIA. Contato: realess72@gmail.com. Facebook: Renato dos Santos Santos.

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HELTON SOUTO nasceu em 76. Ribeirão Preto. Casado com Silvana. Cientista social, educador, gerente de projetos na área de educação e juventude, artista plástico e ilustrador. Desenha e pinta desde sempre. Torce para o São Paulo. E seu cachorro se chama Yoda. Blog: Andar na pedra. Contato (Facebook): Helton Souto.

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20/09/2015