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Memória curta / "As veias abertas da América Latina"; Eduardo Geleano

Igor Vianna Godoy

É, parece que foi ontem... e foi mesmo! Mas quem se lembra das aulas de História do Ensino Médio? Poucos ou ninguém – é a “decoreba” prestando seu desserviço ao longo de gerações. Acontece que a grande vítima não é a História, que fica esquecida; essa continua aí, existindo e acontecendo. Vítimas somos nós, do nosso próprio descaso e curta memória. Lembrar o passado é compreender melhor o presente para construir um futuro decente. Mas a decoreba, nomes e datas... essa se apaga.

Bem, o tempo passa e o mundo muda - nada de novo. E conforme o mundo muda, as ideologias também se transformam, pois precisam se adaptar às novas realidades.

Lendo o livro As veias abertas da América Latina, de Eduardo Galeano, que ora sugiro, muita coisa fica mais límpida na compreensão de nossos dias. Muitas coisas também, apesar de já sabidas, tornam-se insuportavelmente mais dolorosas – devido à riqueza de detalhes com que são apresentadas pelo autor. Mas que “coisas” são essas? Estas:

Que a escravidão, quase nos mesmos moldes que a da antiguidade, ainda perdura dentro dos limites da nação brasileira – em diferentes níveis do mercado de trabalho.

Que o feudalismo ainda é uma realidade em nosso meio rural, sem previsões de se extinguir.

Que a “balança comercial favorável” (“favorável” para a Metrópole, claro) que funcionava “tão bem” nos primórdios de nossa colonização, ainda funciona – senão vejamos: a colônia exportava matéria-prima barata (porque produzida em monocultura, senão meramente extraída, com mão-de-obra escrava ou quase) para a metrópole na Europa e dela (e apenas dela) comprava produtos manufaturados, industrializados, a preços exorbitantes (porque era proibida, por essa mesma Metrópole, de produzir ou fabricar seus próprios bens). Hoje, o Brasil bate recordes de exportação (mas apenas de matéria-prima – minério, grãos etc. – tudo isso sem valor agregado) e importa produtos industrializados (carros, computadores etc.) das grandes economias do planeta.

Que os nossos políticos (independentemente de partido) remontam à nobreza pré-Revolução Francesa: nobres não trabalhavam, não suavam a camisa para possuírem seus bens; viviam de rendas provenientes de terras e posses tradicionalmente herdadas e não pagavam impostos (esses eram pagos apenas pelos trabalhadores e pela burguesia), apenas se beneficiavam deles. É preciso desenhar para a comparação se completar?

Ao ler esse livro, prepare-se para muitos e seguidos desgostos. O sangue nos olhos e os dentes cerrados serão inevitáveis. Mas nada é tão mau que não possa contribuir com algo de bom, ainda que seja apenas um “despertar” para o agora. A saber, as diferenças entre “direita” e “esquerda”, “capitalismo” e “socialismo” – mas que são “definições” cuja essência vem se modificando ao sabor das mudanças que a História inevitavelmente provoca.

O que vem a seguir é uma tentativa bem simplificada (mais do que querer convencer alguém de algo) de provocar a curiosidade, instigar a vontade pessoal de descobrir alguma verdade (pois A Verdade não existe). Afinal, foi a curiosidade de saber mais sobre o fogo que nos tirou das cavernas.

Capitalismo – o nome já diz: é o regime que defende a aquisição e acúmulo do capital (a riqueza material produzida pela nação); é a cria direta do mercantilismo do século XVI, nascido nos países europeus quando de sua descoberta e ocupação das terras que viriam a ser suas colônias (na América, na África e na Ásia).

Socialismo – foi a tentativa de resposta do Oriente ao capitalismo (então em pleno desenvolvimento no Ocidente); apresentava a ideia de ruptura com o capitalismo oferecendo uma atitude oposta à dele (enquanto o capitalismo queria concentrar a riqueza em torno do poder político e das oligarquias, o socialismo queria “socializar”, “descentralizar” essa riqueza, numa tentativa de diminuir ou acabar com a miséria gerada pelo capitalismo no extremo oposto de sua linha de raciocínio) – é importante dizer aqui que isso ficou muito bonito “no papel”, como abstração; assim como a Anarquia, que também é linda porque não passa de uma ideia (impossível de se concretizar). Podemos incluir neste grupo de “utopias” a própria democracia (que também é ótima como ideia, pois nunca deu certo em lugar algum, nem na própria Grécia Clássica onde foi concebida; qualquer país que se diga “democrático” hoje – eu disse qualquer país – está perpetrando uma falácia e não mais do que isso. Os ditos países democráticos, no máximo, aproximam-se dessa ideia “quase perfeita).

Comunismo – é a radicalização do ideal socialista; acaba por pecar pelo excesso e instituir, a médio e longo prazo, a ditadura do proletariado.

Mas aqui entramos em outra categoria de definições, a saber:

Fascismo – é a ditadura, a ausência de direitos e liberdades civis, ausência de liberdade de expressão e de livre associação. O fascismo pode combinar-se com as ideias da direita ou da esquerda, outros dois termos tão usados atabalhoadamente, por mal compreendidos no momento de sua utilização.

Direita – posicionamento mais conservador, bem identificado com o capitalismo (conservador, por defender as ideias liberais de mercado, continuidade evoluída do mercantilismo renascentista – em contraposição com as ideias “inovadoras” do socialismo, já que este surgiu depois, como “resposta” ao capitalismo).

Esquerda – contrário óbvio da “direita”, também em seu conteúdo ideológico, que opõe as ideias socialistas às capitalistas; pretendia ser “inovadora”, romper com o conservadorismo através de propostas ousadas para a época em que surgiu.

Mas é bom que se diga, de novo: a ditadura, o fascismo, pode ter fundo de direita ou de esquerda. Naquela, é a ditadura do capital; nesta é a do proletariado. Qualquer ditadura é nefasta e maligna.

A “esquerda” que grassa na América Latina, hoje, é apenas uma caricatura malfeita da esquerda de antanho, com a qual as repúblicas latinas flertaram no século XIX (então debutantes apenas) e primeiríssimos anos do século XX. Aquela esquerda não era a mesma que se nos apresenta hoje pelos Evos, Lulas e Maduros – esta não chega a ser nem a ditadura do proletariado (que já era um desastre, mas mesmo assim almejada por Dilma Roussef e companhia!); esta é algo ainda pior, pois está contaminada pela ladroeira e enriquecimento a todo custo, pela ganância e ânsia de poder político perpétuo e crescente. Esta esquerda de hoje é a total involução de qualquer ideologia anterior, divorciada de qualquer viés político.

Eu também passei a compreender melhor tudo isso apenas muito recentemente. E não foi uma epifania repentina, não; foi a custo de muita leitura e interpretação, extremamente auxiliada pela prosa clara e contundente desse livro de Eduardo Galeano, que venho recomendar.

Através da contextualização dos fatos apresentados (ou seja, entendê-los naquele momento histórico), muita coisa se esclarece – inclusive para assumir um posicionamento coerente numa discussão sobre assunto tão delicado, por muito abstrato, impalpável, quase etéreo. Mas não hermético.

Ainda assim, vale repetir: não posso, hoje, defender os ideais de esquerda, porque essa esquerda deveria ter outra nomenclatura, de preferência bem pejorativa! Mas lendo o livro de Galeano, é possível entender por que as jovens repúblicas latinas de dois séculos (ou quase isso) atrás buscaram como alternativa desesperada o “ideal socialista”, hoje morto e putrefato – mas insepulto, qual zumbi de minissérie (desligue a TV e vai estudar, meu chapa!).

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ILUSTRAÇÃO DE helton souto 

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IGOR VIANNA GODOY é formado em Letras (Unesp, Araraquara); é professor e rebelde por natureza.

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HELTON SOUTO nasceu em 76. Ribeirão Preto. Casado com Silvana. Cientista social, educador, gerente de projetos na área de educação e juventude, artista plástico e ilustrador. Desenha e pinta desde sempre. Torce para o São Paulo. E seu cachorro se chama Yoda. Blog: Andar na pedra. Contato (Facebook): Helton Souto.

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13/09/2015