)Música(

"Paris, 1919", de John Cale: "porque ninguém mais enche de silêncio o coração e contempla isento de desejos o incessante vaivém do mundo" / "Paris, 1919"; John Cale;

Renato Alessandro dos Santos

Faz tempo que não ouve um bom disco? Por que você não compra o formidável 1001 discos para ouvir antes de morrer? É um archote. Há uma crônica do Ronaldo Correia de Brito, “E mesmo assim continuamos escrevendo”, que fala a respeito de um livro antigo, Tao Te King, de Lao Tse, que, por caminhos inexplicáveis, a despeito do tempo lá fora, irremediavelmente chega até as mãos do leitor, como um correio elegante de festas juninas que, vez ou outra, dá certo. Duvido que você nunca tenha percebido que certos livros não foram parar em suas mãos por acaso.

Lendo o archote, descobri Paris, 1919.

É um álbum acolhedor. John Cale, um alienígena entre nós, em um momento em que seu decodificador interestelar funciona comovedoramente, fez um tipo de música que não se encontra por aí a qualquer hora. Os arranjos e os acordes deixam o coração aquecido, enquanto lá fora, como Oswald Yoda ia dizendo, choverando chuva chove. Cada um dos caras que se atreveu a pôr a mão aqui o fez sabendo que sabia o que estava fazendo, ou seja, todos têm culpa no cartório, além de um talento enorme para a música. Parece comida mineira: arroz, feijão, bife, bacon, queijo Canastra, pimenta e, ali, como se ninguém fosse notar, aquelas costeletas que haviam ficado marinando por dias em banha de porco. Feed your head. John Cale é um chef singular, capaz de marejar, com audácia e sofisticação, suas papilas auditivas. Parabéns, maestro!

Intervalo: John Cale, artista

Cale é mais conhecido por suas estripulias vanguardistas com a trupe do Velvet Underground e por seu álbum drácula-cinderela, Songs for Drella, gravado com Lou Reed, em homenagem a Andy Warhol. Se você se dispuser a ouvir toda a discografia dele, acho que vai gostar. São seis gigabytes ultramodernos. Não é uma obra difícil de ser compreendida, porque o decodificador alienígena de Cale, aludido minutos atrás, estava ligado, registrando tudo, enquanto ele rolava por toda parte ao lado de gente como Bowie, Eno, Reed. Pois é. Só gente boa. Não tinha por que dar errado. Por isso é sempre longa a vida àqueles que pelejam e não esperam pelo dia seguinte, quando o devir pode chegar com uma machadinha nas costas, longe das melhores histórias de sublevação da natureza humana.

Tosse.

E o que esses três têm em comum? Muita coisa, mas, dentre elas, uma capacidade enorme de experimentar novas possibilidades musicais. São artistas, you know, e você não imagina o aprendizado que é ouvir o trabalho de toda uma vida de uma banda. Do início ao fim. Hoje, com os downloads, o acervo de cada um se multiplica e, traduzido em conhecimento, é a vida que se amplia. Álbum a álbum, a discografia de Cale revela-se sempre inquieta e, por isso, inovadora. Jambu com limão e truta. Requeijão e damasco seco. Cerveja, cu de burro e frango a passarinho. Ah, os primeiros raios serão saudados com guitarras que falam um idioma desconhecido, retorcido, torcido, distorcido. Vá por aí, com Cale, porque enquanto isso Paris, 1919 ficará tocando em sua cabeça por dias e dias.

Pense nas mulheres de Atenas, por exemplo. Pense em Penélope: não deve ter sido fácil a vida dela, enquanto o marido não regressava para casa. Se ela tivesse a chance de ouvir Paris, 1919 naqueles anos, certamente, sua dor teria sido atenuada. Duvido que Penélope não se emocionaria com canções como “Child’s Christmas in Wales”, “Hanky Panky Nohow”, “Half Past France”, “Andalucia”.

—Meu Deus, o que é esta canção, “Andalucia”?! — diria Penélope — enquanto se curvaria triste, deixando entrever a foto 3x4 da carteira de trabalho de Odisseu.

Mas Penélope ficaria feliz, também, ouvindo “Macbeth”, “Graham Greene” e outras referências literárias que John Cale deixou esparramadas aqui e ali em Paris, 1919 — esse álbum que é um archote, sem dúvida.

<>_<>

ILUSTRAÇÂO DE ubirajara gonçalves filho

<>_<>

A frase "porque ninguém mais enche de silêncio o coração e contempla isento de desejos o incessante vaivém do mundo", citado no título, é da crônica "E mesmo assim continuamos escrevendo", de Ronaldo Correia de Brito.

<>_<>

RENATO ALESSANDRO DOS SANTOS, 43, é professor no curso de Letras do Centro Universitário Moura Lacerda e no Colégio Semeando. Fez doutorado em estudos literários na UNESP, de Araraquara. É autor de Mercado de pulgas (Multifoco), da dissertação A revolução das mochilas e da tese Romances rebeldesa tradição de rebeldia na literatura norte-americana: de Moby Dick a On the Road. É editor do TERTÚLIA. Contato: realess72@gmail.com. Facebook: Renato dos Santos Santos.

<>_<>

UBIRAJARA GONÇALVES FILHO, vulgo Bira, foi parido em São Paulo (apesar do nome e da cara de índio), em 1984, esse ano estranho, xará da obra de Orwell. Formou-se em Letras em 2008. É cinéfilo, lê e faz histórias em quadrinhos. Já tentou parar de desenhar, com adesivos antifumo, mas não obteve sucesso. E a recaída vem sempre mais forte. Perfil no Facebook (Ubirajara Gonçalves Filho).

  • 08 - Half Past France

  • 01 - Child's Christmas In Wales

  • 04 - Andalucia

  • 15. Macbeth (Rehearsal)

16/08/2015