)Contos(

Uma noite /

ALEXSANDRO POSSAMAI

A noite só estava começando. Encontraram-se após o trabalho. Em cumprimento formal. Um beijo no rosto. Um sorriso. Uma rápida discussão sobre aonde ir. Sugestões e ideias tentando adivinhar o gosto do outro, impressionar com as sugestões e agradar. Foram a um bar de jazz. O acesso um pouco difícil, mas valeu a pena. O lugar lembrava um bar em Cape Town que ele costumava ir. Sentiu falta do baseado depois de ouvir Coltrane. Lembrou-se do seu amigo Africano que sempre tinha uma história engraçada. Para ela foi ali que tomou seu primeiro porre. Pediram um vinho de rótulo conhecido, que valia menos do que cobravam. Mas era o primeiro encontro e não podia haver limitações mesquinhas. Conversa muito boa, sorriso sincero e toques leves. A banda começou a tocar algo puxando para o chorinho. Som estranho. A conversa estava fluindo fácil e o vinho descendo tão fácil quanto. Outra garrafa. Outra música.

Agora sim um pouco de jazz, o cara do trompete resolveu tocar. Ele adorava improviso. Ela adorava o ritmo. Animaram-se. Ela levantou para fumar. Ele foi junto. Não fumava cigarro fazia anos, mas ela provocava nele um desafio natural que queria enfrentar. Ele a desejava. Estava no olhar. Um cigarro. Mais conversa. Outros segredos, que já não eram só deles, ambos partilhavam. Infância. Sempre na infância estão nossos problemas de adulto. Trabalho. Chefes. Casa. Família. Rotina. Aventuras. Amores. Desamores. Paixões intensas de uma noite. Tudo bem passado e um pouco exagerado, pois faz parte da conquista, mostrar mais do que somos e menos do que realmente somos. A vida real muitas vezes é sem graça. Mais próximos por causa do frio. Ele gostava de ver a boca dela mexer enquanto falava. Ela gostava do seu olhar. Ele não resistiu e arriscou, pegou em seu pescoço e a puxou para um beijo. Ela resistiu para não se fazer de fácil. Os olhares se fixaram. Então um beijo. Um longo e gostoso beijo. Suas bocas combinavam e mantinham um ritmo perfeito como se bailassem. Voltaram para mesa. Agora com menos palavras e mais ação. A música não mais importava. Mais toque. Mais pegada. Terminaram a terceira garrafa de vinho. Foram embora para o apartamento dele. No caminho foram abraçados em silêncio, disfarçando a ansiedade, instigando a imaginação, alimentando o desejo acumulado. Ele se apressou a arrumar o apartamento, típico de um solteiro. Colocou uma música. Blues. Preparou uma bebida. Beijaram-se intensamente. Abraçaram-se tão forte como se fossem salvar a vida um do outro, tiraram as roupas velozmente e foram para a cama. Ele descobre lentamente cada parte do corpo dela. Primeiro com as mãos, depois com sua língua úmida e quente. Ela fecha os olhos e se entrega. Sem pudor algum. E ele percebe que ela se torna sua. Então, como se estivessem sozinhos no mundo, fazem amor devagar. Olhos nos olhos com movimentos sincronizados, até seu ápice. Descansam. Fumam. Bebem. Dormem.

Ele acordou no outro dia já bem tarde. Olhou do lado e seu olhar ficou sem vida. Estava sozinho. Lembrou-se do remédio que tomou para dormir. Sentiu uma forte vontade de não levantar. Ela foi embora já fazia alguns meses. Por alguma razão que já não importava. Mas ele ainda sonha com ela. E sempre sonhos bons. Melhor do que sua realidade. Pegou o frasco com pílulas. Tomou uma. Deitou de novo. Era fim de semana e queria passar com ela.

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ilustração de HELTON SOUTO que integra o livro de artista Nos olhos do tempo (2005), de sua autoria.

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O que há para dizer sobre mim? Sou ALEXSANDRO POSSAMAI. Tenho 39 anos. Um filho e é por ele que sigo adiante. Já plantei árvores. Já fui casado e me separei. Já experimentei do amor verdadeiro, da paixão doentia, do rápido lance, mas ainda não achei a mulher a quem eu possa fazer bem todos os dias. Estive longe, quase do outro lado do mundo. Em terras miseráveis que esperam a chegada de Deus. Estive nas terras ensanguentadas do tio Sam. Conheço pouco do meu próprio país. Trabalho com pessoas do bem e isso me estimula. Não sou prudente. Nem sempre correto. Não consigo ser constante. Mas tento ser justo, sincero e respeitar as pessoas. Quero ser um dos mocinhos pois há muitos bandidos. Por tudo isso, começo por fazer algo que foi a primeira coisa que sempre quis para minha vida: escrever. Tenham paciência! Estou começando.

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HELTON SOUTO nasceu em 76. Ribeirão Preto. Casado com Silvana. Cientista social, educador, gerente de projetos na área de educação e juventude, artista plástico e ilustrador. Desenha e pinta desde sempre. Torce para o São Paulo. E seu cachorro se chama Yoda. Blog: Andar na pedra. Contato (Facebook): Helton Souto.

 

  • 05 My Favorite Things, Pt. 1 [-][Single Version][Version]

26/07/2015