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História verdadeira /

Beto Canales

Justo quando pensava no Quexadim, o gaiato disse "quero ver alguém fazer uma história sem ponto final" e, sem esperar, afirmou que era impossível para o nosso povo, mas, eu, quieto como água de poço, matutei e logo saí a procura de meu amigo que estava ali, bem perto, no outro bar da cidade, a prosear, como sempre, de forma ininterrupta, usando de todos os cacoetes e vícios de linguagem que tinha, como fazer perguntas, inclusive quando respondia algo, e de falar quase à exaustão, sem nunca, porém, deixar de ouvir, e foi exatamente o que ele fez quando relatei o acontecido, soltando uma sonora risada como resposta, afirmando que era fácil, muito fácil, e avisando que faria sem ponto algum, incluindo os que ficam em cima das vírgulas, exceto pelo final, onde teria aquele de perguntar, permitindo a escolha do ocorrido, e, para tanto, bastava lembrar a história do Jequitibá Corno, que morava depois da descida, com a mulher e meia dúzia de crianças, quase todas diferentes uma das outras, sendo que a mais nova tinha até os olhinhos puxados, como japonês, mesmo não tendo nenhum amarelo por aquelas bandas, fora as icterícias e o velho verdureiro, mas, coitado, tinha pra lá de noventa anos e Jequetibá tinha o seu Nakito na maior consideração, até porque quando saía pra viajar, era caixeiro, o corno, sempre passava pela roça do japa e deixava dinheiro para que ele levasse umas hortaliças pra criançada, já que carne seca e farinha nunca faltavam, além de que o velho era respeitador e, principalmente, brocha, pois não tem pé de alface que fizesse o ancião curvado e magrinho de pés pequeno voltar a ser homem, ainda mais pra seduzir a patroa, que de bonita não tinha nada, apesar das ancas largas e os peitos grandes, e, mesmo com a meninada de tudo quanto é feitio, ele sabia que a mulher era honesta, afinal, nunca tinha visto coisa errada, portanto, não precisava se preocupar com as visitas de Nakito, até o dia em que parou pra fazer a encomenda e pediu por uma plantinha pequena com as folhas verdes curvadas, tendo bem no meio uma espécie de espiga amarela, dura, quando ouviu do japonês que não era pra comer e sim pra fazer chá,  e claro que, curioso como todo corno, Jequetibá perguntou se servia pra curar algum mal ou se era só pra beber e achar gosto, ouvindo como resposta que era um afrodisíaco e, sem saber do que se tratava, seguiu poeira estrada afora para encontrar seus clientes e, por ironia do destino, sem saber que o tal destino pudesse ser irônico, foi o professor da escolinha, homem culto por demais, respeitado por nunca negar ajuda aos ignorantes, e aproveitou pra tirar a dúvida em poucos minutos, voltando de vereda pra casa, passando antes pelas terras do amarelo, onde viu apenas alguns galhos da plantinha espiguda cortados, chegando de surpresa sem ter surpresa alguma, terminando essa história de maneira que o senhor pode imaginar o final e eu, como só sei contar, paro por aqui, assim, então, coloque o senhor mesmo no papel, sem ponto nenhum, porque o único necessário mesmo é aquele que avisei, pra perguntar sobre o futuro da criançada, sem mãe mas com muitos pais, ou sem eles também, deixando os barrigudinhos órfãos, todos criados pelo corno que não é mais manso e nem filhos tem, mas, enfim, o que o senhor escolhe?

 

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Ilustração de joão thiago

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Beto Canales é colaborador de Tertúlia. Produz contos e narrativas longas, apesar de atrever-se a "cometer" crônicas. Escreve sobre cinema e, sobretudo, sobre tudo em seu blog Cinema e bobagens. A universalidade de seus personagens e os lugares onde ocorrem suas histórias são marcas registradas, permitindo que aconteçam com qualquer um em qualquer parte. Cinéfilo apaixonado e crítico de cinema, escreve em vários sites e revistas. É também editor da Esquina do Escritor e autor de A vida que não vivi, pela Multifoco.

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JOÃO THIAGO é fotógrafo, professor de informática e de artes visuais e, agora, ilustrador no TERTÚLIA. Mais sobre ele em www.joaothiago.com. No Facebook:João Tiago

  • 04 Lunch w- The King

11/07/2015