)Sarau(

Do que eu quis (er) (vi) ver / "Fuga das horas"; Raphael Rocha; novos poetas brasileiros

Raphael Rocha

 

 

 

 

 

 

Estirão

Para chegar lá o que é preciso?

Alguns calos no pé

Doses diárias de utopia

 

E arrancar

 

Sim, extrair

Todo siso

 

Compri(mi)do

 

Ontem

Parecia cumprida

 

A vida

Num instante

 

Mas não!

Não há cessar

 

Tudo é L ida.

 

Caminhões de Camões

Nenhum Lusíadas

 

Ágiodeságio

 

Vou pagar cada centavo

Do que eu quis  (er)

             (vi)               ver

Do homem que caminha em minhas veias corre o sangue

Ao custo de Munch goteja o suor sagrado

 

E pagarei cada centavo.

 

Em seis mil folhas

de um cheque sem fundo

pré-datado

 

sem fundo

como eu

                              produto sem garantia

 

 

} do leito ao peito do pleito ao leito {

 

E pagarei

porque honro minhas dívidas

como honro minhas dúvidas

 

Sim, vou pagar cada centavo.

 

de todo des prazer

em lágrimas, cervejas, feridas,

guimbas, prazeres, suores, partidas

 

xxxxxxxxxxxxxxxxxxxx parcelas

com cheque sem fundo roubado

de um banco falido

 

vou dar um pré-datado.

 

afinal,

essa vida é um até quando

    muito breve

 

e ninguém controla essa inflação.

 

o preço é cada vez mais alto

nem sei se vale

se vale mesmo cada centavo


 

Passatempo

 

Já faz tempo

Que o tempo me diz faz

 

Já faz tempo

Que o tempo me diz para

 

 

Fuga das horas

 

Fugir é preciso

Da cidade de dentro

Do centro

Do umbigo

 

Correr rumo às matas

Se enfiar na própria casca

 

Fugir é preciso

 

Tem horas sou meu amigo

Mas grande parte do tempo

Quase não me aguento

 

E fugir é preciso

 

Sem pensar em nada

E que tudo caia

Quando a hora travar

 

Relógio de pulso, já não te escuto

Na fuga das horas eu só sinto o pulsar

 

É quando acelera o rock ‘n’ roll em meu peito

De repente, tudo claro, me entrego satisfeito

 

E fugir é preciso

Do tempo, do entorno,

Da hora, do útero

Do abrigo

 

Fugir é preciso

 

Do centro da cidade da terra da cabeça do umbigo da fome do medo do zumbido da sandice da miséria do breu da dor da Certeza com C maiúsculo do conforto com c minúsculo da subordinação de dentro da inveja da hipocrisia do quadrado da mentira de raskolnikov da opressão do lixo do mau gosto do inferno da mesmice da ordem do desinteresse da ânsia do dízimo do desespero do despreparo da centralidade da ordem do barco do comodismo de cá de lá de cá do oficial do consumo do lugar da baia da preguiça da rotina do abandono da tristeza de jack torrance da pretensão da prepotência da pasteurização do mundinho do exagero do homem-bomba do cúmulo do acúmulo da vaidade do desemprego do leão do desprezo da solidão da inércia do rockfeller do cheque especial do óbvio da burocracia da claridade da annie wilkes do sedentarismo do achismo do mr. jang dos radicais do desgosto do esgoto do ódio do estado do estado do estado dos fantasmas do feliciano do fast-food do furacão do mau gosto da farsa da fila do puritanismo do gesso do momento da agonia da morte do fim

 

Fugir

 

Fugir é preciso.

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ILUSTRAÇÃO DE helton souto

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RAPHAEL ROCHA nasceu em Belo Horizonte, em 1986 e, ganha a vida como jornalista em Brasília. No ano passado lançou o projeto autoral Commodities, composto por um álbum com 15 canções e uma banda que tem sua configuração alterada a cada show. Todo o CD foi gravado por ele e pelo produtor Adalberto Lima. Graduado em jornalismo em 2009, Raphael lançou o primeiro livro Do Universo Rabisco o Mundo, em 2011, durante a Bienal do Livro do Rio de Janeiro. A publicação recebeu boas críticas de mídia e público. O autor integra ainda a 2ª edição da antologia Bienal do B – A poesia na rua, do Açougue Cultural T-Bone, em Brasília.  No ano passado também emprestou a voz para o áudio livro Catraca Inoperante, da escritora Clara Arreguy, trabalho que recebeu, entre outras, as vozes da cantora Fernanda Takai e Maurício Tizumba. No Facebook: Raphael Rocha.

 

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HELTON SOUTO nasceu em 76. Ribeirão Preto. Casado com Silvana. Cientista social, educador, gerente de projetos na área de educação e juventude, artista plástico e ilustrador. Desenha e pinta desde sempre. Torce para o São Paulo. E seu cachorro se chama Yoda. Blog: Andar na pedra. Contato (Facebook): Helton Souto.

 

  • 02 - Eternamente

05/07/2015