)Contos(

O flautista das sombras /

George dos Santos Pacheco

Caminhavam apressados e ofegantes pela mata. O desejo os impulsionava. Namoravam há alguns meses e a libido adolescente tornavam os corpos brasis; nada importava a não ser eles mesmos. Eram escravos do Conde Barcelos, talvez o maior produtor de café da Região Serrana Fluminense em 1791. A vila era próspera. Contava com um comércio aquecido, uma locomotiva que circulava por uma linha férrea implantada pelo Conde, e a melhor casa de moças-damas das redondezas.

O longo vestido atrapalhava a moça mas não a impedia de prosseguir entre os arbustos mais altos. Contudo, ela o suspendeu a fim de correr com mais facilidade. Ambos gargalhavam, emoções os assaltavam. Enfim, atiraram-se sob a grande copa de uma árvore. O ar era fresco, o sol ameno. As cigarras, entretanto, emitindo seu zumbido característico, lembravam que o dia esquentaria ainda mais. A vegetação do Condado de Setúbal era esplêndida, formada por beijos, azaléias e jasmins, alguns ipês, eucaliptos e araucárias. As flores pareciam cobrir os montes quase por completo. Ele deitou-se sobre ela e afagando seus cabelos beijou-a intensamente.

– Eu te amo...

– Eu também te amo...

Retiravam suas roupas apressadamente, não podiam se dar ao luxo de serem surpreendidos pelo Capitão-do-Mato naquela situação. Contudo, foram impedidos por algo menos agressivo. Uma melodia leve e cativante invadiu seus ouvidos, algo doce e maravilhoso.

– Está ouvindo isso? – perguntou Sebastião.

– O quê? – disse Conceição.

– Esse som... parece... uma flauta...

– Sim, sim! Posso ouvir... é... maravilhoso!

Levantaram-se sem incômodo e perseguiram o som que aumentava de intensidade a cada passo que davam. Chegaram a uma clareira com arbustos mais rasteiros do que o restante da mata. A melodia parecia vir da direção de uma pedra chata, mais ou menos no centro daquele lugar, coberta por musgos e um pouco de capim.

– Parece vir daqui...  – observou Tião. Ela não disse nada, apenas sorriu boquiaberta, com o olhar estupefato. Ele aproximou o rosto da pedra a fim de verificar a música. Sim, ela vinha dali. O negro forte apoiou as mãos na pedra e a forçou, deslocando-a lentamente. Uma cova profunda e escura, semelhante a um túnel, pode ser avistada, e o volume do som tornara-se quase insuportável agora assim como os miasmas que dele emanavam.

Os dois escravos se aproximaram da cova, como num feitiço, e então algo os sugou com incrível brutalidade para dentro, e gritos ecoaram na solidão da mata.

 

Em pouco tempo a cidade estava infestada de ratos que possuíam as medidas de um cachorro de porte médio. Eram ferozes e perigosos. Exterminavam animais e pessoas pelo povoado – principalmente crianças, causando pânico e desespero. Alguns homens partiram à caça dos animais, mas suas armas de fogo pareciam não ser eficazes, pois para cada animal abatido, tinha-se a impressão de que dois surgiam, sem qualquer explicação. O número das feras aumentava incessantemente e começou-se a temer pelo futuro do Condado da Vila de Setúbal.

Estando o Conde Barcelos trancado em seu escritório, preocupado com a situação da vila e sem ter uma solução eficiente para a peste, eis que sua porta se abre vagarosamente. Um homem de vestes negras se aproxima lentamente; seu chapéu, também negro, encobre por completo seu rosto com sua sombra, sendo visível apenas duas contas vermelhas e brilhantes no seio de sua face. O conde teve um sobressalto e erguendo-se da cadeira, sacou rapidamente uma garrucha de dois tiros da gaveta da mesa, apontando na direção do homem.

– Pare aí mesmo! Como ousa...

– Abaixe essa arma, seu tolo... – disse o homem com sua voz rouca, após um muxoxo.

– Mas você... – balbuciou Barcelos, parecendo reconhecê-lo.

– Assombrado? – disse ele ao sentar-se na cadeira em frente à mesa do Conde.

– Não... não é possível! – exclamou ele, deixando-se cair no assento, sua tez era pálida e fria.

– Tudo é possível sobre esta terra e abaixo dela.

– O que... o que você quer?

– Nada que você não possa me dar...

– Então é você o responsável por estes ratos, seu bruxo... observou o Conde.

– Talvez... mas posso fazer com que voltem para onde vieram. Puxa... Conde da Vila de Setúbal... o Imperador foi generoso contigo...

– Não desconverse! – disse o conde erguendo-se e desferindo um soco na mesa. – O que quer para nos deixar em paz com seus ratos?

– Abaixe o tom de voz, meu caro. Desse jeito você se torna cada vez mais patético.

– Diga logo o que quer!

– Sua filha.

– Minha filha?

– Por que o espanto? Achou que ela seria sua para sempre? Nunca pensou que alguém a levaria algum dia? Eu?– disse o homem.

– Não! Analice não!

– Então, temos um trato? – disse o homem num sussurro ao arranhar sua mão esquerda com a ponta da unha enegrecida da mão direita, fazendo fluir um sangue negro dela. – Levarei os ratos embora e na volta, você me entrega Analice... – disse após se levantar e caminhar em direção a porta, que se abriu e fechou após ele, sem que fosse necessário que ele a tocasse.

O conde sentiu um intenso ardor na mão direita e observou que esta tinha um corte na palma, de onde corria sangue vivo. Sua porta abriu-se novamente, mas desta vez era a Condessa.

– O que foi Henriques? Parece que viu um fantasma... – disse ela.

– Eu vi, querida. Eu vi...

 

O homem de negro saiu da propriedade do conde e caminhando pela estrada de chão, empunhou sua flauta de bambu e começou a tocá-la. As canções pareciam seduzir os animais, que se puseram a sua ré caminhando ao ritmo da melodia. Homens e mulheres apareciam à janela de suas casas para apreciar o fenômeno, rendendo graças pelo desaparecimento das feras. O flautista atravessou a vila recolhendo os ratos, que podiam ser contados - caso alguém se desse ao trabalho - na proporção de cento e quarenta e quatro mil.

 

Aos poucos a rotina da cidade foi voltando ao normal. Menos para uma pessoa. O Conde Barcelos tinha pesadelos terríveis e parecia doente. Após seu encontro com o flautista, mais do que depressa ele tomou papel e caneta tinteiro, e redigiu uma carta a um velho amigo, o bispo. Nela, encomendava a filha para um dos conventos do Estado, fato que ocorreu um mês após a aparição do homem de negro.

Sete semanas depois daquele encontro, numa noite de sexta-feira, o flautista reapareceu. Barcelos estava trancado em seu escritório, quando o Senhor dos Ratos surgiu das sombras, para cobrar seu pagamento.

– Boa noite, Sr. Conde... – sussurrou ele com sua voz rouca.

– Ora... você outra vez... – respondeu o nobre, assustado.

– Achou que me esqueceria? Onde está minha moeda?

– Maldito demônio! Bruxo! Agora minha filha está em segurança em um convento. Eu jamais permitiria que a levasse. Jamais! – esbravejou o homem, com repentina coragem.

– Ora seu... insolente! – gritou o flautista, mostrado sua verdadeira face, de pele retorcida devorada pelas chamas, e uma expressão demoníaca. – Todos são capazes de escolher o próprio destino. E você escolheu o seu... – completou ele, e o conde permaneceu tetanizado enquanto o homem de negro cravava violentamente a flauta em seu peito, fazendo jorrar sangue sobre a mesa.

O flautista sorveu o sangue da flauta, e então saiu daquelas terras entoando o instrumento com todo vigor, invocando os terríveis ratos que emergiam das sombras. Os homens estagnaram-se, ao ouvirem a canção funesta, e as criaturas os atacavam aos bandos, num banquete macabro, dizimando toda a população masculina da Vila de Setúbal. O homem de negro continuava a tocar sua flauta, seguido por todas as mulheres – velhas, viúvas, casadas, escravas, senhoras, jovens e moças – que dançavam nuas, ferindo os pés no cascalho e gravetos do caminho. Bailavam entre os corpos dilacerados de seus pais, filhos e irmãos, caminhando lentamente para a cova, o descanso eterno do último bruxo queimado pelo Tribunal do Santo Ofício em terras brasileiras: o flautista João Cândido Marinho, condenado por amar demais a filha de um nobre. Era uma vez.

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ilustração de UBIRAJARA GONÇALVES FILHO

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GEORGE DOS SANTOS PACHECO nasceu em Nova Friburgo, Rio de Janeiro, em 07 de outubro de 1981. Desde a adolescência rascunha histórias em cadernos, mas só tomou coragem de escrever depois de assistir a uma entrevista da escritora Sônia Belloto, em que a autora afirmava que, se quisesse, qualquer um poderia escrever. Assim surgiu O fantasma do Mare Dei, publicado pela Multifoco, do Rio de Janeiro. É graduado em Pedagogia e um dos autores da Coletânea Assassinos S/A Vol. II, também da Multifoco. Tem participado de Desafios Literários propostos em sites, o que lhe rendeu a participação no e-book Contos sombrios de Natal, do fórum literário Fórum Câmara dos Tormentos (atual A Irmandade). Publicou também um conto na edição do 3º trimestre de 2011 da Revista Marítima Brasileira. Recebeu Menção Especial no VI Concurso de Trovas do Grêmio Português de Nova Friburgo, tema lírico-filosófico. Blogueiro desde 2009, publica textos na Revista Pacheco e nos sites A Irmandade, Tertúlia, As Crônicas do Edifício Cinza, dentre outros. A partir de janeiro de 2014, passou a compor o quadro de colunistas da Revista Êxito Rio. No Facebook: Revista Pacheco.

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UBIRAJARA GONÇALVES FILHO, vulgo Bira, foi parido em São Paulo (apesar do nome e da cara de índio), em 1984, esse ano estranho, xará da obra de Orwell. Formou-se em Letras em 2008. É cinéfilo, lê e faz histórias em quadrinhos. Já tentou parar de desenhar, com adesivos antifumo, mas não obteve sucesso. E a recaída vem sempre mais forte. Perfil no Facebook (Ubirajara Gonçalves Filho).

  • 04 Uma tocaia

  • 05 Arrancando estaca

  • 06 Baiao denso

28/06/2015