)Livros(

Hemingway & company / "Paris é uma festa"; Ernest Hemingway

Renato Alessandro dos Santos

Um leitor pode ter vários motivos para ler Paris é uma festa: uma viagem que se aproxima, para o Velho Mundo; conhecer mais de perto a Geração Perdida, descobrindo como era a relação de amizade entre alguns escritores americanos que foram morar lá, após o fim da Primeira Guerra; ou mesmo, simplesmente, passar horas agradáveis com um bom livro em mãos; enfim, quaisquer que sejam os motivos para alguém ler este romance, nenhum me parece mais apropriado do que lê-lo para se tomar notas sobre a arte de escrever, como se o leitor fosse um aspirante a escritor.

Àqueles que, em uma época como agora, quando escrever e ler passaram a ser instrumentos que, bem executados, garantem bons momentos nas redes sociais vida afora, pretendem dominar algumas técnicas de diálogos, ou mesmo como escrever contos, ou ainda como lidar com outros escritores, bem, esses tendem a ser os leitores ideais de Paris é uma festa, esse livrinho ótimo de Hemingway, escrito em San Francisco de Paula, Cuba, em 1960, décadas depois dos acontecimentos ali narrados, mas que, ao lado de um filme como ½ noite em Paris, preenche o imaginário de leitores que, hoje, querem saber mais a respeito dos escritores expatriados que beberam, dançaram e, em seguida, regressaram para casa, sem nunca abandonar Paris, porque Paris is a moveable feast.

Hemingway, ou seu narrador, adverte que o livro pode ser lido como um trabalho de ficção, ou não, porque os personagens têm nomes verdadeiros e trata-se de fatos ocorridos com ele e com seus amigos. E, se o leitor não gostar do livro, bem, sempre há o piparote de que Brás Cubas lança mão para se desfazer das coisas.

Acompanhamos Hemingway morando razoavelmente bem em Paris. Ele não tem dinheiro que sobre, mas vive feliz com a esposa em um apartamento, ocasionalmente, com uma chaminé entupida e sem banheiro. Tem, às vezes, por falta de dinheiro, de pular uma refeição e, por isso, quase sempre faminto, as referências à comida aparecem a todo instante diante do leitor, o que é uma delícia, porque há sempre um grande prazer em se ler que alguém colheu o fio de azeite de um prato com um pedacinho de pão. E há o vinho, consumido ali, como água, refrigerante ou cerveja em nossas refeições brasileiras de cada dia. Há a sofisticação de Paris, escritores por toda parte e, curiosamente, como em O sol também se levanta, outro romance de Hemingway, nada de guerra, o que é admirável, porque essa mesma guerra, anos antes, havia varrido a autoestima europeia para baixo do tapete. Nada de guerra, portanto; em vez disso, vida literária. Brito Broca que o diga.

Lemos sobre a livraria de Silvia Beach, a Shakespeare and Company, onde se podia roçar cotovelos com gente como James Joyce, Ezra Pound, o próprio Hemingway antes da fama, e outros expatriados, como Fitzgerald ou Ford Madox Ford. E lemos sobre como Gertrude Stein captou aquela geração, descrevendo-a como une génération perdue. Hemingway conta que tal sugestão ocorreu a ela depois que um velho Ford T foi maltratado na oficina por um juvenil mecânico atabalhoado, o qual foi repreendido por seu chefe, que, de graça, sugeriu o bordão à perspicácia de Stein. Vemos a indelicadeza de Hemingway com Ford Madox Ford, a quem despreza, ou, por outro lado, sua devoção a Ezra Pound, a quem admira como um santo. É muito prazeroso ler sobre a malfadada viagem que ele e Fitzgerald fizeram ao interior da França, logo no início da amizade entre eles. Fitzgerald não é poupado, e o vemos como alguém que, se vier a beber um único copo de vinho, já era. Lemos sobre a loucura de Zelda, tão logo a doença desponte em seus olhos.  Por sua vez, muitos leitores podem decepcionar-se com a badalada suposição de que todos aqueles escritores só bebiam e se divertiam e nada mais. Não é bem assim. Hemingway levava a literatura a sério, como todos. Ele não bebia para escrever e cuidava de seus contos com devoção, algo que fez dele um mestre no gênero.

Agora, voltando ao início deste texto, se alguém que gosta de literatura, de escrever e, principalmente, de escrever contos, e, ainda, se tal pessoa tiver aspirações literárias e, por isso, estiver em busca de sugestões e dicas e conselhos, bem, poderá encontrar tudo isso aqui, porque a prosa de Hemingway é uma festa, como Paris.

Muito bom, Papá.

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ILUSTRAÇÃO DE helton souto

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RENATO ALESSANDRO DOS SANTOS, 43, é professor no curso de Letras do Centro Universitário Moura Lacerda e no Colégio Semeando. Fez doutorado em estudos literários na UNESP, de Araraquara. É autor de Mercado de pulgas (Multifoco) e da dissertação A revolução das mochilas e da tese Romances rebeldes — a tradição de rebeldia na literatura norte-americana: de Moby Dick a On the Road. É editor do TERTÚLIA. Contato: realess72@gmail.com. Facebook: Renato dos Santos Santos.

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HELTON SOUTO nasceu em 76. Ribeirão Preto. Casado com Silvana. Cientista social, educador, gerente de projetos na área de educação e juventude, artista plástico e ilustrador. Desenha e pinta desde sempre. Torce para o São Paulo. E seu cachorro se chama Yoda. Blog: Andar na pedra. Contato (Facebook): Helton Souto.

  • 01. Minority

17/06/2015