)Contos(

Fígados / literatura brasileira contemporânea;

Beto Canales

A vida é difícil às vezes, mas ótima constantemente. E gosto de bife de fígado.

Então? Chocado com a revelação? Cortado fininho, seco, à milanesa, bem frito. Não é uma delícia? Falo isso porque outro dia ouvi que deveria ousar mais na literatura. Isso calou fundo. Sou um escritor e normalmente gostam dos meus textos, apesar de nem sempre serem entendidos. Não ligo e por isso a vida é melhor do que difícil. Mas a verdade é que a crítica me incomodou. Preciso entender para começar. O que é ousar mais? Contar que gosto daquela carne vermelha, quase negra, gelatinosa, é uma ousadia? Talvez terminar o texto com a mesma frase com que começou? Vou fazer isso, mas também não parece ser ousado. Ficar dando voltas, em uma espiral interminável? Literatura é uma coisa fantástica, tão grande e rica que se pode chamar de coisa. E sabe por quê? Porque literatura é uma coisa fantástica, tão grande e rica que se pode chamar de coisa. E sabe por quê? Estou te confundindo? Isso não é ousado, é chato. Ousado seria mudar de assunto completamente, como falar sobre certa vez em que eu caminhava sob intenso aguaceiro e um vento forte virou meu guarda­-chuva violentamente, fazendo uma vareta perfurar o olho de uma velha que andava encolhida atrás de mim. Virei-­me e disse: ­

— Dona Caolha, a senhora acredita em deus e sai em uma tempestade destas?

Caso ela respondesse "isso não tem nada de ousado", eu entenderia o recado, porque ela estaria certa.

Contar uma cena de sexo da menina virgem penetrada com violência, e, na hora em que sente o membro, ­ será ousadia usar esta palavra?, rasgando­-a num ato quase antinatural, joga a cabeça para trás soltando um urro pavoroso, de dor e prazer (talvez uma pouco de ação junto) segundos antes de um ladrão ter invadido a casa (uma pitada de trapalhada), justo quando o bandido escuta o terrível uivo da ex­-virgem, assusta­-se e cai, logo depois de dar passos largos e cambaleantes, batendo o rosto contra a geladeira. Levanta, se recompõe e tenta, enfim, roubar (humor?), mas pisa numa enxada (enxada?) fazendo com que o cabo bata no próprio rosto já machucado, derrubando­-o novamente (uma dose de suspense), bem no momento em que o jardineiro volta à cozinha para recolher o utensílio que deixara cair há pouco, na hora do grito, quando entrava na residência para matar a ex-­virgem (um pouco de sacanagem), na intenção de que seu namorado, filho do dono da casa e irmão da gritona, recebesse sozinho a herança. Além disso, para criar um clima de mistério, não revelaria quem desvirginava a jovem. Tudo isso em um parágrafo só. Seria ousado? Acho que não, ainda não.

Colocar citações de grandes autores sem identificá-­los, como se o ladrão estivesse caminhando calmamente pela rua, mas como havia uma pedra no meio do caminho, no meio do caminho havia uma pedra, ele tenha decidido invadir aquela casa, muito engraçada, que não tinha teto, não tinha nada. A culpa seria da pedra? Do autor? Nada disso. Nada disso.

Roubar é ousado? Se for, posso narrar a história de um "mané" que, "na dureza / senta à mesa / do café / dá um gole / de cachaça / acha graça / e dá no pé". Também não, muito óbvio. Ou se eu escrevesse difícil, com palavras pouco usuais contando como a moça foi gadanhada pelo galalau que a possuía? Ou citasse autores que nunca li, ou que não existem, tipo Mikail Lenborski? Não, não. Esse existe e é um excepcional romancista russo. Publicou, inclusive, um ensaio sobre os pré-socráticos muito popular e traduzido para oito idiomas.

Quer saber? Desisto. Não sei mesmo ser ousado em literatura e pouco me importo. Sinto­-me protegido, pois disse tudo isso para tentar não me exibir, afinal, minha escrita não tem ousadia, mas meus hábitos têm. Como não consegui, confessarei para ser aquilo que escrevendo não sou. É simples: eu mato. Assim mesmo. Escolho uma vítima, crio uma situação, envolvo­-a e cometo o assassinato com maestria. Então, lembro de meu velho pai dizendo que comer mulher bonita e não contar aos amigos é o mesmo que se masturbar e, como não posso desfilar de mãos dadas com meus defuntos por aí, retiro­-lhes o fígado, como uma marca, e me alimento. Dessa forma todos sabem o que fiz, mesmo sem saberem quem eu sou. A realidade é mais fantástica do que a ficção, não é? Ousado? Nem quero mais saber. Sei que sinto um prazer enorme nisso, um prazer sublime, apesar de nem sempre ser fácil atender ao meu desejo. Por isso, digo que a vida é difícil às vezes, mas ótima constantemente. E gosto de bife de fígado.

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ilustrações de Thaís Alberti & de Stênio Santos

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Beto Canales é colaborador de Tertúlia. Produz contos e narrativas longas, apesar de atrever-se a "cometer" crônicas. Escreve sobre cinema e, sobretudo, sobre tudo em seu blog Cinema e bobagens. A universalidade de seus personagens e os lugares onde ocorrem suas histórias são marcas registradas, permitindo que aconteçam com qualquer um em qualquer parte. Cinéfilo apaixonado e crítico de cinema, escreve em vários sites e revistas. É também editor da Esquina do Escritor e autor de A vida que não vivi, pela Multifoco.

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STÊNIO SANTOS nasceu em São Joaquim da Barra, interior de São Paulo. Desenha desde que se conhece por gente. Ainda não é formado em Design, mas pretende ganhar a vida com isso. Gosta de quadrinhos (principalmente os escritos pelos autores Alan Moore e Neil Gaiman) e mangás, de filmes e de literatura. Facebook: Stênio Santos.

 

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THAÍS ALBERTI nasceu em 1994, em Ribeirão Preto. A filha perdida do Neil Gaiman. Estudante de Letras por ter encontrado Oscar Wilde na adolescência; faz uns rabiscos, que chama de ilustração, nas horas vagas. Mais perdida na estrada do que Kerouac. Facebook: Thais Alberti. Blog: http://www.palavreie.com.br/

 

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07/06/2015