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Bonecas nem tão bonecas / "Bonecas Russas"; Eliana Cardoso; romance; literatura brasileira;

Haron Gamal

O ser humano é um ser cultural. Vive sempre criando transcendências, sentidos e significados que vão além do caráter utilitário de cada objeto – os próprios objetos em si têm seu fundamento metafísico. E a literatura é a medida desse mundo da cultura, da transcendência. Mesmo que não se queira mergulhar fundo, a atividade de escrita acaba por revelar conceitos que estão muito além daquilo que pensamos quando escrevemos. Apenas por isso, já se pode perceber a necessidade da imaginação. O consequente ato de contar histórias não está dissociado desse universo.

Outro fato interessante é que acabam sendo nomeadas como arte e, no nosso caso, como literatura, as obras que tocam o caráter trágico da existência humana. Os personagens temperamentais, soturnos, que pouco sorriem, normalmente são os que permanecem. Corrobora esse conceito os livros de Dante, Shakespeare e Dostoievski, entre outros. O próprio personagem que visita as três esferas, na Divina Comédia, Hamlet ou mesmo Otelo, Ivan ou Dimitri Karamazov, são personagens pungentes e trágicos. Como situar a literatura da sutileza nessa marcha conturbada de personagens que habitam a literatura universal? Acredito que haja resposta plausível. Na sutileza também é possível encontrar o nível trágico da existência. Sua representação, portanto, não se tornará menor. É o que acontece no romance Bonecas Russas, de Eliana Cardoso.

A narrativa, que aborda a vida de várias mulheres, começa com as duas primas, Leda e Lola, num diálogo em que, como revela o título do capítulo, Leda aparece nua. Mas ambas já não são jovens. Leda pergunta à Lola: “Quero saber o que você vê”, e Lola prontamente responde: “Uma velha pelada.” Este início imprime à narrativa certa desmistificação a respeito do corpo feminino e, ao mesmo tempo, insere a sutileza como componente catalizador do que se poderia nomear de trágico. Adotando tal artifício, a autora não apenas se contrapõe ao conceito contemporâneo de beleza e, também, à forma como as mulheres são vistas na sociedade, mas acaba conduzindo o leitor a um patamar acima, fazendo-o flertar com o trágico, pois o envelhecimento e o perecimento estão à vista. No âmbito da história, esse desnudamento – podemos entender assim a alegoria – arrasta consigo importantes consequências: as mulheres não serão somente microcosmos da humanidade, mas se mostrarão nuas também em relação aos seus sentimentos e angústias.

Apesar de o romance começar com uma quase brincadeira, pouco a pouco ele se vai revelando de uma intensa seriedade. O retorno à infância de Leda e a descrição do mundo dos adultos sob a perspectiva de uma criança alimentam buscas a tempo e atitudes perdidos. Esses, logicamente, não podem ser recuperados. Sua mãe, Francisca, foi uma artista plástica, uma ceramista, e Leda vivia em meio às obras de artes produzidas por ela. Mas a mulher não lhe dava atenção, acabou trocando marido e filha pelo amante e partindo a seguir para o exterior. Morando na França, onde permaneceu até o fim da vida, Francisca verá a filha apenas uma única vez. Leda a visitará quando já adulta. E essa visita acontece no mesmo ano em que Francisca vem a falecer. É um momento pungente da narrativa.

Dentre as possíveis leituras que o romance oferece, há a trajetória das mulheres, suas escolhas e tentativas de serem donas do próprio destino. Uma velha questão é abordada aqui. Como amar sem que o casamento ou a maternidade escravize essas mesmas mulheres? Muitas vezes, no afã de optar pela realização do desejo, elas são tomadas pela culpa, da qual jamais conseguirão livrar-se. É o caso de Francisca em relação à Leda. Outro fator é que a juventude um dia acaba, e todas as pessoas precisam se defrontar com os danos causados pelo passar dos anos, sobretudo quando se começa e envelhecer e é necessária a convivência com a juventude e o vigor presentes na nova geração.

Quanto à forma, o romance é dividido em vinte capítulos, todos com títulos, e construído por várias vozes. Quase todos os personagens principais, e são muitos, têm o seu momento de narrador. Há também capítulos compostos por cartas e mensagens de e-mails. Essa estratégia torna a narrativa difusa, acentuando as características de cada personagem e ressaltaltando a fragmentação, já discutida e sempre retomada na literatura desde o início do século 20.

O fantástico também se apresenta num dos capítulos do livro, narrado a partir da perspectiva de Leda, que sempre gostou de inventar histórias. Eis o resumo do trecho: Leda visita um excêntrico padre chamado Mateus, que teima em afirmar que conversa com anjos e arcanjos. Em uma das histórias, os anjos aglomeram-se sobre a cabeça de um alfinete e se põem a formar uma incrível escada; o desafio maior é que mantenham a formação, uns sobre os outros. O fato é possível enquanto do aparelho de som vem a música de Noel Rosa “Com que roupa”. Aqui, por incrível que pareça, a autora procura desenvolver uma sedutora tese sobre o tempo e o espaço: “o espaço não só pode ser multiplicado como também dividido infinitamente, sem que se chegue ao nada. Bastava lembrar que era possível dividir o tempo sem se chegar ao tempo zero e dividir o movimento sem se chegar ao repouso.” No final das contas 308.428 anjos posicionam-se sobre a cabeça de um alfinete. A alegoria pode ser interpretada de várias maneiras, sobretudo num momento delicado para a instituição religiosa conhecida como Igreja Católica Apostólica Romana. Mas o padre mantém a fantasia de Leda, conversa com os seres invisíveis e traduz a conversa para ela. No final, a ainda menina chega à conclusão de que ele acabaria expulso da igreja por promover heresias.

A metalinguagem é uma questão que tem sido trazida à tona em muitas obras de arte, sobretudo quando se trata de literatura. Por outro lado, há autores em que esse artifício passa despercebido, privilegiando os acontecimentos e conflitos com o intuito de manter o leitor preso ao enredo. Mas neste romance, tal como a exposição do corpo feminino apresentado no início da narrativa, a metalinguagem está a martelar sua presença exibindo-se cada vez de modo mais intenso. Isso ocorre quando a história é centrada na imagem de Leda, que está a escrever um diário ou, de modo mais amplo, quando a autora usa a narrativa para falar sobre arte. Há também muitas menções a escritores e artistas plásticos. Essa atitude gera duas consequências: a primeira é que a narrativa pode ser permeada pela beleza das obras descritas, criando uma atmosfera de requinte ao romance; a segunda consequência é temerária, porque pode denotar certa insuficiência narrativa compensada com a referência a tais obras. No livro de Eliana Cardoso há referências excessivas às artes, fato que frequentemente desvia o foco do que está acontecendo. Portanto, cabe ao leitor julgar a pertinência ou não da estratégia da escritora. Grande parte dos autores da atualidade tende a abandonar o recurso da metalinguagem por acreditarem que seu uso tornou-se desgastado nos últimos anos, pois inúmeras obras perderam o sentido porque passaram a ter como foco elas mesmas. Por outro lado, um exemplo de pertinência é a novela Max Ferber, de W. G. Sebald, em Os emigrantes. Nesse livro, no entanto, a presença do pintor alemão com sua arte fuliginosa é o retrato da tragédia que se abateu sobre sua família e sobre grande parte da Europa em meados do século 20.

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Eliana Cardoso nasceu em Belo Horizonte. Formou-se em economia na Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro, concluiu o mestrado na Universidade de Brasília e o doutorado em economia no Instituto de Tecnologia de Massachusetts (MIT). Trabalhou para o Banco Mundial na China, na Índia, no Paquistão, entre outros países da Ásia, e foi professora da Fundação Getúlio Vargas (FGV). É autora de outros nove livros e tem mais de quarenta trabalhos publicados em revistas acadêmicas. Atualmente é colunista do Valor Econômico e mora em São Paulo. Bonecas Russas é o seu primeiro livro de ficção.

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Trecho

Fui visitá-la em 2007 numa viagem a Paris. Ela continuava elegante e se perfumou para caminhar comigo nos jardins de Luxemburgo. Parecia mais jovem do que eu. Ainda gostava de ostras e champanha. Tinha abandonado a cerâmica a pedido de “cher”, que perdera o “mon” e o “e” prolongado. Perguntei sobre o vaso violeta e ela se mostrou surpresa.

– Rosália nunca mencionou a falta de um vaso no vernissage. A exposição foi um sucesso.

E se calou, fechada em lembranças nas quais eu não estava. Suamãe morreu naquele mesmo 2007. De repente. Como um vaso de barro que voa, rodopia no ar e se estilhaça com a queda. Ainda hoje dói não ter sabido fazê-la minha.

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ilustrações de HELTON SOUTO

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HARON GAMAL é autor de Estrangeiros: o anfíbio cultural na prosa brasileira de ficção (2013), publicado pela Ibis Libris, e de Magalhães de Azeredo (2012), edições da ABL (Academia Brasileira de Letras), série essencial. Tem doutorado em literatura brasileira pela UFRJ. É professor de literatura da Fafima (Faculdade de Ciências e Letras de Macaé) e professor de português do Estado do Rio de Janeiro. Leciona português e literatura para o Ensino Médio. Colabora no JB online, no Globo e no Rascunho, onde esta resenha foi originalmente publicada. Tem um blog (harongamal.blogspot.com).

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HELTON SOUTO nasceu em 76. Ribeirão Preto. Casado com Silvana. Cientista social, educador, gerente de projetos na área de educação e juventude, artista plástico e ilustrador. Desenha e pinta desde sempre. Torce para o São Paulo. E seu cachorro se chama Yoda. Blog: Andar na pedra. Contato (Facebook): Helton Souto.

 

  • 14-Com Que Roupa_

31/05/2015