)Contos(

Acampamento /

Alexandre Nobre

Agora que a noite desabara por completo sobre a serra, eles vinham em ritmo acelerado, quase correndo, para fugir do frio repentino. São quatro: três homens e uma mulher, e caminham com dificuldades pela trilha escurecida.

Alguns passos à frente, Ricardo vai desbravando a mata fechada, marcando terreno e abrindo passagem aos outros que seguem atrás. A estrada é dura, difícil. O caminho de terra batida, mal iluminado, misturado à bebedeira do dia, tornava ainda pior a tarefa de voltarem ao camping.

E então ele para e olha a longa subida à sua frente. O vale parece engolido por um profundo silêncio. Um silêncio que, assim, mergulhado em delicada e confortável tranquilidade, é como se coubesse a ele preservar, evitar qualquer mínimo desgaste que pudesse perturbá-lo.

Até que Artur topa com uma pedra e solta um berro violento. Ricardo vira-se e volta rapidamente para ajudá-lo. Quando chega, vê Manoela abaixada, perguntando ao namorado se está tudo bem. Artur responde qualquer coisa, muito baixo, numa língua incompreensível, e xinga novamente. É quando Ricardo levanta a cabeça e dá com os olhos de André.  

Desvia o olhar, mas os dois já adivinham que a tensão começou a se formar, silenciosamente, como uma cobra quando enlaça e sufoca.

Logo voltam a caminhar e, próximos à entrada do camping, resolvem fazer uma última parada, para mais uma rodada antes de dormir.

O bar é uma tenda armada sobre um trailer velho, sem paredes, com cadeiras e mesas de plástico. Estão imóveis, sentados uns de frente para os outros, calados. André levanta-se e segue até o balcão. Depois de algum tempo, uma música começa a tocar. Então ele retorna e passa a encher os copos com cachaça, demoradamente, como se quisesse ouvir o barulho do líquido batendo contra o vidro. Seu rosto sustenta uma expressão alegre, quase de felicidade. Ricardo está tenso e aperta o copo entre os dedos. O som da bebida atacando o cristal vai abrandando e diminuindo, até desaparecer, como se o silêncio crescesse dentro deles. No rádio Bob Marley assegura que não há com o que se preocupar, que tudo está bem.

No outro lado da mesa, Artur, quase caindo sobre o corpo de Manoela, declara que está muito bêbedo, e que não sabe como vai chegar até a barraca. Ela apoia sua cabeça entre as mãos e sorri; e os dois se beijam e abraçam e trocam carinhos e sussurros abafados. Ricardo olha para as próprias mãos suadas, apesar do frio intenso, e sente as roupas molhadas. Evita os olhos de André e procura pelos letreiros do cardápio mais adiante, examinado as letras uma a uma sem conseguir reuni-las em palavras.

Os gemidos e sussurros se ampliam, cada vez mais profundos e intensos, junto com uma respiração rápida, sufocada. Manoela inclina-se para junto do namorado, e uma alça do seu vestido despenca, revelando um pedaço de pele clara, marcada pelo sol. Só depois de algum tempo ela ajeita a alça novamente. Ricardo ergue o rosto e fica um momento inquieto, olhando de um lado para outro, como se procurasse alguma coisa. Vira-se com o copo de cachaça na mão e bebe de uma só vez, sem perder o fôlego.

André o observa de lado, sem falar. Procura pela garrafa na mesa e recomeça a servir os copos, decidido. Quando vai encher o de Manoela, encosta todo o seu corpo sobre ela, como que querendo se apoiar. Seus olhos procuram os de Ricardo e os dois voltam a se encarar. Um farol de carro passa bem lá em cima na serra, suavemente. Ricardo levanta-se e procura pelo banheiro, observando o camping que se estende à sua frente.

Quando ele sai, dá com Manoela parada à sua frente. Faz um gesto rápido em sua direção e tenta passar pelo outro lado. Mas ela faz um movimento no mesmo sentido e por um momento eles se esbarram e os seus olhos se encontram. Ela está calma, e sorri com o canto dos lábios. Um sorriso de quem sabe, de quem está totalmente inteirada da situação. Ricardo enfim se desvencilha e segue novamente para a saída do camping. No céu, o prenúncio de uma tempestade começa a assombrá-los. No rádio, Bob Marley acaba de atirar no xerife.

Assim que chegam à barraca, Artur desaba sobre o colchão. André dá dois passos para ele, sorrindo, com os olhos divertidos. Depois fala que a noite está muito fria e que eles deveriam dormir todos juntos na barraca. Mas Artur solta uma gargalhada e diz que hoje cada um vai dormir com a sua namorada: ele e Manoela na barraca; e André com Ricardo, no carro. Leva a mão até o bolso das calças e atira um molho de chaves ao chão. Então puxa Manoela sobre o seu corpo, que cai, e outra vez recomeçam os gemidos e sussurros, e os beijos e abraços sufocados. Ricardo abaixa-se e procura pelas chaves. Depois sai sem dizer palavra. André permanece um momento mais, ouvindo os outros dois ali deitados. Então dá meia volta e segue atrás do amigo.        

Quando chega ao automóvel, Ricardo abre a porta e deita-se nos bancos da frente. Passados alguns minutos, André entra e acomoda-se atrás. Depois de algum tempo, ergue a cabeça, apoiado sobre os cotovelos, e procura na penumbra pelo rosto do amigo:

- Qual o problema? - diz.      

- Nada. Eu quero dormir. Só isso. – responde o outro em voz baixa, contida.

- Dormir agora? – André inclina-se para ele e fica um momento em silêncio, observando-o. Seus olhos correm pelo contorno do rosto de Ricardo, e ele flagra um suor amontoado sobre a testa do amigo. Chega mais perto e diz:

- Ou será que você tá incomodado com os outros dois lá fora, na barraca?

Ricardo agita-se nos bancos do carro. No camping o silêncio é violado pelo som de um automóvel que passa por alguma estrada próxima e desaparece. Um oceano de ventos agita as árvores ao redor. Da terra vem um cheiro doce, morno. André sustenta-se desafiadoramente sobre os cotovelos:

- Hein? Vai me dizer que está pensando nela? Na Manoela?

- Para de ser besta, André. Me deixa em paz.

Agora André ergue o corpo ainda mais próximo de Ricardo, obrigando-o a encará-lo:

- Vai falar que não quer ela também?  

Ricardo sente a respiração quente, pesada. Ergue os braços para cima da cabeça, em direção ao teto, atento ao que está se passando. Um gosto ácido começa a invadir sua boca. Mansamente, quietamente. Nisso, qualquer coisa, um pássaro, passa voando próximo a eles, deixando um sopro de rastro no vidro dianteiro. André joga todo o corpo para trás, assustado, mas ainda sorrindo. Depois, lentamente, diz:

- Hoje, na cachoeira, o jeito como ela ficava se mostrando... 

Então para e parece pensar um minuto. Levanta-se outra vez, e recomeça:

- Será que você não vê? Não percebe que ela também quer? Que está adorando ficar nos provocando?

- Quer o quê? Você tá louco!

- E qual é o problema? André passa o dorso das mãos pelo rosto afogueado, deita-se, o olhar fixo no painel do carro - Você não percebe? O negócio não é só ela, é também o babaca do Artur.

- O Artur é nosso amigo. – Ricardo responde com uma voz débil, como se sofresse.

- Amigo o cacete!  É um imbecil, filho da puta, isso sim. Só sabe pensar nele mesmo – André inclina-se outra vez na direção de Ricardo, agora bem próximo, quase caindo sobre ele. – Fica nessa exibição toda! Tanto aqui como lá na cidade. É a viagem dele, no carro dele, desfilando com essa mina para cima e para baixo.       

Então Ricardo o empurra para trás, sem olhar, e fecha os olhos por um momento. O ar parece ter sido esmagado dentro do carro. André retorna para o seu banco e respira com impaciência, a boca e os dentes cerrados.  Diz:

- Você não vê o jeito como ele nos trata? Como se fôssemos dois bocós...

Depois, um pouco mais calmo, continua:

- Ou será que você já está apaixonadinho por ela? Hein? Pela Manoela?     

Em silêncio, Ricardo imagina a cena que se passa lá fora. Parece enxergar as silhuetas imprecisas de dois corpos que se amontoam dentro da barraca. Uma bolha de ar toma-lhe a garganta. E parece ouvir, longe, muito longe, para lá do camping, um grito fundo e prolongado que se arrasta. Como o de um animal que ataca e assusta-se, ao mesmo tempo, horrorizado com sua própria força de violência e morte.

André ergue-se e o olha de cima, calado. Depois de algum tempo, Ricardo levanta a cabeça e mais uma vez os dois se encaram. Os olhos de André estão vazios, terríveis:

- E então?

Ricardo permanece em silêncio, sem responder. André prossegue:

- Se você não quiser ir, eu vou. Ou vamos os dois! Garanto que ela vai até gostar. A piranhazinha...

Dessa vez Ricardo sustenta o olhar contra os olhos do outro. Com esforço, diz:

- Nem todo mundo é como você, André. 

André inclina-se para ele. Seus olhos, pálidos, brilham ligeiramente como os de um gato. A boca aberta, num meio sorriso irônico, como quem se diverte, diz:

- Quer apostar?

Em algum ponto impreciso, ouve-se o canto de um pássaro. Três notas repetidas, agudas, idênticas. Ricardo escuta o som como se não o compreendesse. Tenta, mas não consegue manter-se concentrado. Então aperta os olhos e sente a cabeça doer e dar voltas. Dentro do carro tudo se desvanece. Ergue o corpo e vê, pela janela, o camping quase deserto: uma lata vem arrastada pelo vento. Volta a deitar, voltado para frente, com os olhos grudados no vidro dianteiro.

Até que André abre a porta e sai. Ricardo observa-o caminhar lentamente em direção à barraca. E observa, pelo espelho retrovisor, suas próprias narinas que se dilatam e contraem, num movimento acelerado. Depois, procura com as mãos a maçaneta do carro, mas detém-se um segundo antes de abrir.

Então afunda o rosto contra o assento do automóvel e tenta, desesperadamente, não ouvir nem pensar em nada.

<>_<>

ilustração de HELTON SOUTO

<>_<>

ALEXANDRE NOBRE é paulistano, mas reside em Ribeirão Preto, interior do estado. Durante os anos 90 atuou como compositor e guitarrista em bandas de blues e rock e, paralelamente, publicou alguns poemas e contos em jornais e revistas da cidade e região. A partir de 2007 passou a dedicar-se à literatura, sendo premiado em diversos concursos literários do país, como: Concurso Nacional Luiz Vilela 2008, de Minas Gerais, com “A mangueira da nossa infância”; Newton Sampaio 2009, do estado do Paraná, com “Aila”, Maximiano Campos 2007, de Recife, com “A praia” e Prêmio Ignácio de Loyola Brandão 2011, com o conto “Fazendo Nova América”, dentre outros. A mangueira da nossa infância é o seu primeiro livro publicado. Facebook: Alexandre Nobre.

<>_<>

HELTON SOUTO nasceu em 76. Ribeirão Preto. Casado com Silvana. Cientista social, educador, gerente de projetos na área de educação e juventude, artista plástico e ilustrador. Desenha e pinta desde sempre. Torce para o São Paulo. E seu cachorro se chama Yoda. Blog: Andar na pedra. Contato (Facebook): Helton Souto.

  • 443 - Bob Marley - I Shot The Sheriff

  • 08 Redemption Song (Bob Marley cover)

24/05/2015