)Contos(

Rotina /

Alex Viron

Por mais que sempre tenha odiado a rotina, as mesmices do dia a dia, desenvolvido uma de suas manias de nunca voltar pelo mesmo caminho, a vida dele se tornou uma rotina, que se expandiu a todos os momentos do seu dia. Ainda tinha algum dinheiro que acumulou na vida, pois sempre foi precavido, e seu pai lhe deixara um pouco mais e a casa de praia onde hoje passava seus dias.

Pela manhã acordava e saia para caminhar. Sozinho. Não tinha cachorro ou gato, se revoltava com o quanto se gasta com um animal de estimação. Nunca mais conseguiu se relacionar com alguém, depois de sua última mulher, mas não ligava: quando estiveram juntos, divertiram-se tanto que ele tinha lembranças por pelo menos mais duas vidas. Às vezes voltava para casa e tentava escrever algo, ainda tinha esperança de conseguir escrever sobre o grande amor que viveu, mas não tinha vocabulário, gramática e sensibilidade suficiente para colocar tudo isso no papel. Também lhe faltava paciência e memória com os detalhes. Ainda não conseguia entender como aquele amor surgiu e por que ele ainda existia, uma vez que ela foi embora há alguns anos. A vida é feita de perdas e derrotas, pois lembramos mais delas do que das conquistas e das vitórias. É o que sempre dizia. Por volta do almoço pensava no que comer: camarão, shimeji, frango. Ela gostava de tudo aquilo e, para cada um, ele tinha inventado uma receita especial. O camarão: fritava com azeite extra-virgem; jogava um pouco de pimenta e pimentão, depois refogava com molho branco e misturava o penne, servindo com vinho branco. O shimeji: refogava com saquê, depois shoyu, e colocava para cozinhar com arroz; servia com uma caipirinha de frutas vermelhas que só ela sabia fazer. O frango assava no forno com batata e maionese; servia com farofa do miúdo do frango. Ele se esforçava muito para fazer os dias dela mais felizes. Ela retribuía com todo o amor do mundo. Mas ele não cozinhava mais; apenas agia e reagia, sem nenhum prazer. Seu dia a dia continuava cheio dela, mas na verdade, com o tempo que ficaram juntos, a vida dos dois tornou-se uma só.

À tarde, tentava ler algum livro dos muitos que comprava nas livrarias da cidade. Sem sucesso. Mas mesmo assim toda semana comprava um novo livro. Jurava que algum dia os leria. Porém: e se eu morresse hoje? Era o que pensava quando começava a ler um livro novo. Não. Definitivamente não vou morrer hoje, falava com convicção, quando deixava seu livro de lado. Ela sempre dizia isso. Vamos fazer tal coisa, pois não sabemos se vamos estar vivos amanhã. Ele sempre protelava. Tentou depois fazer tudo o que sempre quiseram, mas não deu tempo para tanta coisa que deixaram para trás, quando se divertiam muito. Era impressionante para ele como eles se alegravam com coisas tão simples. Desde tomar um banho juntos, fazer o jantar até sair para caminhar. Simples. Não precisava pensar em coisas mirabolantes para impressioná-la: bastava estar ao lado dela, com uma rosa e algumas palavras de amor. Simples assim, como as coisas deveriam ser. Próximo ao pôr do sol, ia para a praia. Nos últimos dias que ficaram juntos, havia um lugar especial na praia, próximo às pedras de fim de montanha, onde os dois subiam e, com uma bebida qualquer, viam o sol ir embora: "Para irradiar e inspirar outros amores" — era o que ele sempre dizia. “Você devia escrever um livro” — ela completava. “Minha inspiração é muito triste e, neste momento, sou o homem mais feliz do mundo.” Ela sorria, e ele a abraçava. Simples. E também foi naquele lugar que ela o fez prometer que, após sua ida, ele continuaria vivo. Era naquele lugar que ele conseguia forças para manter a promessa e continuar a viver um dia de cada vez. Era ali que ele a encontrava todos os dias. 

À noite era difícil. Muito difícil. Tentava apegar-se a alguma lembrança boa, mas só o que sentia era solidão e uma sólida tristeza. Comia o resto do almoço. Dava uma chance para a TV entretê-lo. Pegava outro livro e lia um pouco mais do que de manhã. Mesmo assim as horas não passavam; então, rendia-se à bebida. Bebia muito. Muito mesmo. E em pouco tempo estava novamente no passado, lembrando corridas pelados pela casa, do amor que faziam em qualquer lugar que quisessem e das loucuras juvenis, apesar de já estarem na terceira idade. E do fim. Sempre se lembrava daquela noite em que ela já estava por algum tempo internada por causa da doença muito avançada. Ela pediu para ele a levar para casa, pois não queria morrer no hospital. Ele a trouxe. Ela mal conseguia respirar; pesava menos de 40 quilos e nada parava em seu estômago. Ele a colocou na cama. Ela pediu para ele ficar ao lado dela, segurando suas mãos. Outra hora, invulneráveis; agora, frágeis. Teimou em buscar um travesseiro mais alto, que estava na sala, e ela segurou sua mão para que não fosse. Insistiu e, quando voltou… O resto foi tudo como planejaram: o crematório, as cinzas ao mar no pôr do sol, a leitura do poema de Vinicius. Mas o que sempre o incomodou foi não ter estado presente no momento em que ela fora embora e, por isso, imaginava que talvez tivesse ido para um lugar triste. Imaginação de escritor-postiço, talvez. Mas depois da bebedeira, das lembranças, pedia perdão a ela e dormia. Algumas noites ela vinha lhe visitar em seus sonhos, e eles dançavam, bebiam e faziam amor. Mas ela nunca disse que o perdoava por tê-la deixado sozinha no momento derradeiro.

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ILUSTRAÇÃO "Rotina #365 - uma lembrança para Iberê" DE helton souto

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O que há para dizer sobre mim? Sou ALEX VIRON. Tenho 38 anos e sempre estive às margens da vida, observando, saindo às vezes para um texto ou para uma ação mais sincera e menos humana. Às vezes minha vontade era deixar esse meu lado assumir total controle, mas a rotina mundana ou os desejos comuns me colocavam de volta. Agora tenho conseguido me expor mais e vejo que trabalho em algo que não planejei trabalhar. Estudo o que para mim não agrega nada. Lido com pessoas que estão muito longe de qualquer entendimento de compaixão. Não tenho amigos. E agora preciso arrumar toda essa bagunça. E começo por fazer algo que sempre quis: escrever. Tenha paciência! Estou começando.

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HELTON SOUTO nasceu em 76. Ribeirão Preto. Casado com Silvana. Cientista social, educador, gerente de projetos na área de educação e juventude, artista plástico e ilustrador. Desenha e pinta desde sempre. Torce para o São Paulo. E seu cachorro se chama Yoda. Blog: Andar na pedra. Contato (Facebook): Helton Souto.

  • 06 Dois Corações e o Sol

17/05/2015