)Contos(

O bicho / novos contistas brasileiros;

George dos Santos Pacheco

Era uma casa agradável, nas cercanias de Lumiar, em Nova Friburgo. Havíamos nos mudado há cerca de dois meses para a pequena vila no interior do Estado, em busca do sossego que não se vê numa cidade grande como o Rio de Janeiro. O lugar parecia parado no tempo: os morros ocupados por plantações de banana ou inhame, as cachoeiras, a fumaça subindo em torvelinhos nas chaminés dos fogões à lenha e os passeios a cavalo davam ares coloniais muito bem explorados pelos donos das pousadas.

Depois de visitar várias editoras com meus manuscritos à mão, usando todo tipo de artifício para convencê-los de que meus originais eram um bom investimento, consegui ser contratado por um grupo e publicar meu livro.  O casarão em estilo neoclássico, construído há mais de cinquenta anos, porém muito bem conservado, era tudo que eu precisava para escrever o romance que os editores pediram, após a boa recepção pela crítica e público do meu primeiro trabalho.  Todos os seus cômodos eram muito grandes, seis ao todo; as paredes eram pintadas de branco gelo, a maioria das janelas e portas com tinta a óleo azul real; o piso era feito de tábua corrida de pinho de riga, assim como o forro do teto.

Minha história deveria se passar no início do século 20, sobre um jovem acometido pela tuberculose que se refugiaria no interior para tratamento. E eu buscava me aclimatar com toda essa atmosfera no bosque fechado em que se encontrava o casarão, distante cerca de 20 minutos do centro da vila, muito próximo, felizmente, do sonoro riacho que dava um charme todo especial às noites frias de inverno.

Cláudia largara o emprego na loja de calçados para me acompanhar. O que a editora me pagava era muito mais que o dobro de seus rendimentos. Dormia serenamente ao meu lado. Os cabelos avermelhados e brilhantes espalhavam-se pelo travesseiro e o arfar de seu peito era lento e ritmado. A luz fraca do abajur iluminava parcialmente o rosto sardento, mas era suficiente para folhear as páginas de Dom Casmurro, as quais eu devorava avidamente.  Bento sentia falta de um filho, “um triste menino que fosse, amarelo e magro, mas um filho”. Eu já lera a publicação anteriormente, mas agora, com a expectativa de um novo livro, as letras de Machado de Assis ganharam novo desenho, nova interpretação, tudo era diferente. Ler, afinal, é um exercício maravilhoso em que nós, que estamos deste lado da folha, influenciamos os significados que se apreendem da leitura, por mais que tudo já esteja escrito e acabado. Um mesmo homem não atravessa o mesmo rio duas vezes, porque nem o homem nem o rio serão os mesmos. De igual forma, um mesmo homem também não lê um mesmo livro duas vezes, pois assim como o homem não é o mesmo que antes, o livro, consequentemente, também não o será.

Suspirei e ajeitei o óculos que escorregava para a ponta do nariz. A vista pesava. Olhei o relógio de pulso, passava das duas da manhã, e o silêncio da noite, acompanhado pelo coaxar dos sapos-martelo, o vento nas folhas das árvores e a água do rio batendo nas pedras, foi interrompido pelos chamados do pequeno Bernardo, o meu anjo de cinco anos que dormia no quarto no meio do corredor comprido que atravessava completamente o casarão, no segundo andar.

– Pai... pai... – chamava sua voz, que se aproximava de onde eu estava. A luz do abajur piscava, rareando.

– O que foi, meu filho? – sussurrei, para não acordar Cláudia.

– Pai... pai... – repetia Bernardo, a voz com um tom choroso ainda se aproximando. A luz continuava falhando e eu abri a gaveta do criado-mudo a fim de buscar uma lanterna guardada para o caso da falta de energia que era comum no lugarejo.

­– Diga, meu filho! – sussurrei novamente, emprestando, contudo, maior vigor à voz. Tirei o óculos e o coloquei junto com o livro sobre o tampo do pequeno armário, descobri-me e calcei as sandálias de borracha. A porta se abriu lentamente, Bernardo estava ali limpando as lágrimas tímidas que corriam pela face macia.

– Pai...

– O que aconteceu, meu filho? – perguntei indo a seu encontro.

– Tem um bicho, pai... tem um bicho no meu quarto... – explicou o garotinho, cabisbaixo. Vestia um pijama azul claro de moletom, os finos cabelos loiro acinzentados divergiam sobre os rumos que queriam tomar.

– Um bicho, filho?

– Um bicho, pai... tem um bicho no meu quarto... – repetiu ele.

– Onde, Bernardo? – perguntei ao dar-lhe um beijo na testa fria.

– No meu quarto, pai... no teto... – respondeu fungando.

– Está tudo bem, meu filho. Papai vai lá dar uma olhada... – disse ao tomar o corredor para ir até seu quarto. Minhas pegadas estalavam a madeira sob meus pés, um rangido grave que podia se fazer ouvir em todos os cantos da casa, em plena madrugada. Chegando à sua porta, voltei meu olhar em sua direção e ele não estava mais lá, provavelmente teria deitado ao lado de sua mãe. De qualquer forma, prossegui.

Empurrei a porta entreaberta, e a folha de madeira rangeu enquanto fazia o movimento. A luz fraca piscou até se apagar completamente e eu cliquei várias vezes o interruptor, inutilmente. Acendi a lanterna e corri o facho pelo interior do cômodo. Um arrepio correu minha espinha, e eu tremi de pavor: sobre a cama estava um pequeno corpo estraçalhado e todo o quarto havia sido tomado por manchas viscosas de um líquido vermelho. Ergui a luz até o teto e meus músculos retesaram, todo meu corpo foi tomado por uma intensa angústia. Cristo, senhor! Tentava recuar, mas as pernas não me obedeciam, pesadas como se presas a blocos de cimento. Arquejava lentamente, presa ao teto, uma criatura medonha, de corpo humanoide, porém, com os membros armados como os de uma aranha, a superfície de seu corpo brilhava como banhado em sangue, e as veias estavam saltadas, pulsando no mesmo ritmo de sua respiração. O bicho tinha feições demoníacas, grandes olhos negros numa cabeça abaulada, a boca de enormes dentes pontiagudos escancarada de um extremo a outro do rosto exibia uma língua bífida que pendia para o lado esquerdo.

– Bernardo! Cláudia! – gritei, retornando de meu tetanismo involuntário. Recuando e voltando correndo pela galeria, cheguei até meu quarto e vasculhei-o com a luz da lanterna. Não havia ninguém lá, para meu desespero. Onde estariam minha mulher e filho? Eu precisava agir rápido... eu... eu... precisava de uma arma. Sim! A carabina guardada na dispensa da lavanderia poderia me ajudar, mas ficava do outro lado da casa. Saí do quarto apressadamente, mas no momento em que eu ia tomar a escada avistei a criatura sob o umbral dos aposentos de Bernardo. Ela virou a cabeça em minha direção e tombou, como se reconhecesse a presa. Fiquei paralisado, mas como ela veio em minha direção rapidamente, desci as escadas em reação, tropeçando nas sandálias de borracha que embolaram sob meus pés. Rolei degraus abaixo, batendo a cabeça, braços e pernas no guarda corpo, chegando ao hall contorcendo-me e gritando de dor. Meu pé direito estava luxado, completamente torcido para fora e eu não podia movê-lo, provavelmente os ligamentos haviam se rompido com a torção. A lanterna caída afastada de mim iluminava o canto da parede e então pude novamente ver Bernardo, aos prantos.

– Pai... pai... o bicho... – alertava o pequeno.

– Fuja, meu filho! Fuja! – gritei e tentei me levantar, com muita dificuldade. A luz da lanterna falhou e apagou, e não pude mais ver o garoto. Caminhei escorando-me na parede, buscando o corredor inferior que levava à cozinha e mais adiante à lavanderia. Eu me arrastava tentando conter os gemidos e o assoalho rangia em meu encalço. Tentei imprimir mais velocidade aos meus movimentos, mas a dor era insuportável, era humanamente impossível ser mais rápido naquele estado. O sangue escorria pelo nariz, e pelo supercílio esquerdo, embotando a vista. A criatura parecia cada vez mais perto, assim como a porta da cozinha, que eu alcancei e fechei atrás de mim.

No centro da cozinha havia uma grande e pesada mesa de madeira, disposta em sentido longitudinal. O luar entrava pelo basculante iluminando o piso antigo e gasto, manchado de sangue coagulado, num rastro de passos que seguiam até o final do cômodo, na altura da porta da lavanderia, cuja borda também estava manchada de vermelho. Era possível ouvir o sofrimento de gemidos, acompanhados de pequenas batidas irregulares em madeira. Arrastei-me lentamente na direção dos sons, voltando vez em quando meu olhar para trás. A sensação de estar sendo seguido era nítida e real, embora eu não avistasse ninguém.

Na maçaneta da porta da lavanderia estava amarrada uma corda de sisal que subia retesada até seu topo. Abri-a lentamente, o conjunto de fios torcidos terminavam do outro lado, em um nó de forca onde ainda tremia o corpo de Cláudia, batendo os calcanhares na madeira. O sofrimento estava estampado em sua face, um esgar tétrico em que a língua descia roxa pela boca aberta exageradamente, assim como os olhos saltados a me fitar, um misto de medo, agonia e dor.

– Cláudia! Não! Fala comigo! – eu gritava sacudindo-a em vão.

– Pai... o bicho... – eu ouvia a voz chorosa de Bernardo a me alertar. Recostei-me na parede e cobri o rosto com as mãos, desesperado. O que estava acontecendo, afinal, naquela casa amaldiçoada? Uma pancada forte na porta da cozinha me fez lembrar da carabina e me pus em movimento novamente.

Outra pancada.

– Pai... o bicho...

Abri o armário rapidamente, a arma estava envolta em um trapo sujo e na prateleira inferior havia uma caixa com cartuchos. Desembrulhei-a e sentando-me ao chão, municiei e carreguei o armamento.

– Pai... o bicho, pai...

Um grande estrondo derrubou a porta da cozinha e o monstro veio lentamente ao meu encontro. Eu podia ouvir sua respiração pesada se aproximando, os passos rastejando ásperos pelo piso.

– Pai... o bicho...

Sua imagem então se postou à minha frente, inclinando a cabeça para um lado e para o outro. Apontei a arma com mãos fracas e trêmulas e puxei o gatilho, acertando em cheio os vasilhames de mantimentos sobre a tábua disposta na parede da pia. Eu não tinha muito tempo e continuei pressionando o gatilho emperrado, impossibilitando-me de fazer outro disparo. Eu tremia em minha aflição, não havia para onde fugir e eu já podia sentir o sabor amargo e podre da morte em meus lábios. A criatura, enfurecida, deu um forte grito e pulou sobre mim.

Abri meus olhos, assustado.

Cláudia dormia serenamente ao meu lado, os cabelos avermelhados e brilhantes espalhavam-se pelo travesseiro e o arfar de seu peito era lento e ritmado. Olhei o relógio de pulso, passavam das duas da manhã. O coaxar dos sapos-martelo, o vento nas folhas das árvores e a água do rio batendo nas pedras acompanhavam o silêncio quase tangível da noite. Pressenti a presença de alguém e me virei.

– Pai... o bicho, pai... – alertou Bernardo e saltou sobre mim. Seu rosto adquiriu feições demoníacas, com olhos negros repugnantes, os enormes dentes pontiagudos ligados entre si por saliva grossa cortavam a carne como navalha quente.

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ILUSTRAÇÃO DE ubirajara gonçalves filho

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GEORGE DOS SANTOS PACHECO nasceu em Nova Friburgo, Rio de Janeiro, em 07 de outubro de 1981. Desde a adolescência rascunha histórias em cadernos, mas só tomou coragem de escrever depois de assistir a uma entrevista da escritora Sônia Belloto, em que a autora afirmava que, se quisesse, qualquer um poderia escrever. Assim surgiu O fantasma do Mare Dei, publicado pela Multifoco, do Rio de Janeiro. É graduado em Pedagogia e um dos autores da Coletânea Assassinos S/A Vol. II, também da Multifoco. Tem participado de Desafios Literários propostos em sites, o que lhe rendeu a participação no e-book Contos sombrios de Natal, do fórum literário Fórum Câmara dos Tormentos (atual A Irmandade). Publicou também um conto na edição do 3º trimestre de 2011 da Revista Marítima Brasileira. Recebeu Menção Especial no VI Concurso de Trovas do Grêmio Português de Nova Friburgo, tema lírico-filosófico. Blogueiro desde 2009, publica textos na Revista Pacheco e nos sites A Irmandade, Tertúlia, As Crônicas do Edifício Cinza, dentre outros. A partir de janeiro de 2014, passou a compor o quadro de colunistas da Revista Êxito Rio. No Facebook: Revista Pacheco.

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UBIRAJARA GONÇALVES FILHO, vulgo Bira, foi parido em São Paulo (apesar do nome e da cara de índio), em 1984, esse ano estranho, xará da obra de Orwell. Formou-se em Letras em 2008. É cinéfilo, lê e faz histórias em quadrinhos. Já tentou parar de desenhar, com adesivos antifumo, mas não obteve sucesso. E a recaída vem sempre mais forte. Perfil no Facebook (Ubirajara Gonçalves Filho).

  • 12 - Amaralina

03/05/2015