)Contos(

Doravante /

Alex Viron

A tarde estava morna. Lenta. Um leve vento batia no barraco e morria na terra avermelhada, exposta pelas chuvas fortes dos últimos dias. Preciso fazer o muro de arrimo ele pensava, mas o dinheiro nunca sobrava. Será mais barato plantar mais árvores pelo quintal, pensou. A grama está alta — outro pensamento. Mas faltava ânimo. O tempo em abundância não lhe dava energia. A aposentadoria não era tudo aquilo que imaginava, ainda mais com pouco dinheiro. Foi até seu banco de praça. Sentou. Colocou seus fones de ouvido e entregou-se ao som de uma bela seleção de música italiana. O dia não prometia nada além do que já acontecia em seus finais de tarde no seu quintal, e então uma pessoa sentou ao seu lado, que ele só percebeu pela sombra que ela fazia. Ele abriu os olhos e viu a última pessoa que gostaria de voltar a ver em sua vida. Não teve palavras. Ela olhou pra ele e disse: Oi.

Ele nada disse e só fechou os olhos de novo pensando ser uma miragem. Não era. Tirou seus fones e olhou para a mulher de meia idade de beleza artificial e disse: Oi. 

Foi difícil te encontrar

É?
Sim. Fui no seu Facebook, mas você parou de postar faz muito tempo. 
Mas acabou me achando.
Foi. Seu filho me deu seu endereço.
Você falou com ele?
Eu não. Minha filha mais nova. Ela disse que ele está ótimo. 
Não fale sobre ele. Você nunca se importou com ele.
Não é verdade. 
Não vou discutir isso com você. O que você quer?
Nada. Só pensei em passar para conversarmos. 
Sobre?
Não sei. A vida, as coisas, co…
E você acha que as coisas são simples assim?
Eu só pen…
Pensou errado, como sempre. Você foi a pessoa que mais me fez de otário em toda minha vida e acha que é chegar assim e tudo está bem? Você realmente não tem noção do quanto me magoou, me machucou.
Eu sei de tudo isso, mas as coisas mudaram e eu queria voltar a me aproximar de você.
Não há a mínima possibilidade disso acontecer. 
Ele levantou e saiu. A tarde continuou letárgica. Mas depois ele voltou.
Quero que você vá embora.
Tudo bem. Ela levantou de um jeito sem graça. Olhos baixos e disse:
Estou seriamente doente. Posso morrer em breve.
Ele olhou para ela com uma segurança que queria ter tido quando terminaram e falou: 
Você já está morta para mim faz 20 anos.

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ILUSTRAÇÃO DE helton souto

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O que há para dizer sobre mim? Sou ALEX VIRON. Tenho 38 anos e sempre estive às margens da vida, observando, saindo às vezes para um texto ou para uma ação mais sincera e menos humana. Às vezes minha vontade era de deixar esse meu lado assumir total controle, mas a rotina mundana ou os desejos comuns me colocavam de volta. Agora tenho conseguido me expor mais e vejo que trabalho em algo que não planejei trabalhar. Estudo o que para mim não agrega nada. Lido com pessoas que estão muito longe de qualquer entendimento de compaixão. Não tenho amigos. E agora preciso arrumar toda essa bagunça. E começo por fazer algo que sempre quis: escrever. Tenha paciência! Estou começando.

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HELTON SOUTO nasceu em 76. Ribeirão Preto. Casado com Silvana. Cientista social, educador, gerente de projetos na área de educação e juventude, artista plástico e ilustrador. Desenha e pinta desde sempre. Torce para o São Paulo. E seu cachorro se chama Yoda. Blog: Andar na pedra. Contato (Facebook): Helton Souto.

  • Conversa de Botas Batidas

05/04/2015