)Contos(

O nascimento da vaidade /

Marcelo Henrique Marques de Souza

Muito antes de ser possível um roteiro incestuoso entre o tempo e a escrita – ou isso que chamamos, de forma mais ou menos desleixada, de História –, um jovem rapaz encontrou um velho riacho, cujo cheiro abrandou-lhe a angústia.

Sentou, próximo a uma das margens, e começou a procurar, naquele silêncio intermitente, uma conexão qualquer, uma apenas, que freasse o seu desespero.

Não havia, ainda, como claro está, palavras, esses ousados instrumentos de invasão, com os quais borramos a intimidade das coisas. Nem o desespero e nem a angústia tinham, até este episódio, um nome.

Perto dali, o tremor de um vulcão, que deslizava pelas entranhas da terra, misturava-se ao reclame dos trovões, que anunciavam a chuva inconteste. A lava e os pingos do céu selavam o acordo definitivo.

E então, atingido na alma pelo eco da mistura do mais alto dos raios com a mais faminta das erupções, o rapaz perdeu completamente a capacidade de escutar. Ensurdeceu mesmo. E olhou para o rio, antes de pular.

Foi aí que avistou o próprio rosto aflito, cortado em estilhaços pelo pincel dos ventos.

Naquele momento, a natureza incorporava, definitivamente, os próprios nomes próprios do desespero e da angústia, sem saber mais a diferença entre os dois sentimentos. Aprendia, por puro acaso, o mais escondido dos segredos do infinito: a causa – e porque não dizer, o fermento – de sua inquietude ancestral, cuja fagulha só percebemos de perto através da sombra que chamamos, na falta de palavra melhor, de tempo.

Não haveria mais intimidade absoluta para a eternidade. O sonho eterno do universo estava irrevogavelmente contaminado.

O fatídico encontro entre o jovem olhar e o velho rio criou esse momento sem fundo no qual a natureza ousou colar-se ao buraco da fechadura. Viu a si mesma. E impregnou-se de desejos, como se o espaço inteiro cheirasse, enfim, a seio materno.

O rapaz? Desistiu de pular. E disso, da costela de sua surdez, nasceu o aborto decisivo: ao dobrar a primeira esquina, depois das primeiras árvores, ele descobre, então, a imagem fatal, uma moça que, nua, passeava, distraída, a coçar levemente os cabelos.

Esse relato pretensioso só foi possível graças a essa moça, que, sem o saber, acrescentou à eternidade os espasmos da História.

Não é possível dizer o que ocorreu do encontro dos dois, porque a intimidade vez por outra resiste. Mas uma coisa é certa: a natureza, a partir dali, nunca mais foi a mesma. Aprendeu a contemplar-se e, com isso, a apreciar os próprios fracassos, em toda a sua riqueza abissal e sua cólera montanhesca. Aprendeu, enfim, a masturbar-se de delírios, até que a eternidade aposente a água e, com ela, esse breve intervalo de ostentações.

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Conto retirado do livro acidentes (MultiFoco, 2012) e publicado no Tertúlia com autorização do autor.

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ILUSTRAÇÃO DE gutierrez

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MARCELO HENRIQUE MARQUES DE SOUZA nasceu em 1975 no Rio de Janeiro. É graduado em Comunicação Social e faz mestrado em Comunicação e Psicanálise. Já foi professor de um monte de disciplinas da área das chamadas "ciências humanas" (tremendo pleonasmo, mas tudo bem) e trabalha há cerca de quinze anos com revisão literária e de artigos científicos de todas as áreas das "humanidades". Possui 8 livros publicados: 2 de poemas ("a quânticas andam as formas" e "anonimato heterônimo"); 2 de contos ("acidentes" e "Vestígios" - vencedor do Prêmio UFES 2013 da categoria); 2 ensaios ("O poeta, o canibal e o espelho" - vencedor do prêmio da Academia Carioca de Letras no ano de 2012) e "Justiça, Simulacro e o Exílio da Argumentação" - premiado no concurso "Contos Bandidos", da editora Rio em parceria com a Academia Brasileira de Letras, no ano de 2006), um de artigos científicos ("Apropriações Indébitas") e um de aforismos ("Entre aspas, mas com lógica"). É poeta, contista, pesquisador e autor do blog "Im-postura.blogspot.com". Facebook: Marcelo Henrique Marques de Souza.

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GUTIERREZ — nascido em São Paulo, é mineiro por opção; vive entre Ribeirão Preto, Uberaba e São Paulo. Arquiteto por formação, é professor por vocação. Desenha porque se pretende escultor.

 

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15/03/2015