)Literatura(

Rebelde Torquato /

Paulo Andrade

Natural de Teresina, Piauí, Torquato integra a estirpe de poetas que captam e absorvem a complexidade do universo multifacetado e fragmentado que caracteriza a cultura contemporânea. Sua poética personalíssima revela a tensão trágica entre o eu lírico e a cultura de seu tempo, os anos 60/70.

Como poucos, o poeta registrou e sintetizou, na vida e na arte, os sabores e dissabores, a verve e as angústias de uma geração, deixando sua marca inventiva na poesia, na música, no cinema e no jornalismo, embora seja mais conhecido como poeta, da palavra escrita e cantada. Suas letras, musicadas por Caetano, Gilberto Gil, Edu Lobo, Jards Macalé, Carlos Pinto e outros compositores confirmam a importância de sua participação na música popular.

Mesmo tendo uma atuação múltipla em várias áreas, podemos arriscar uma definição da poética que norteia a sua produção como estética da resistência. Seja qual for o modo como ela se manifesta, a poesia de Torquato possui a mesma marca, a mesma intencionalidade. A sua criação, como ato de resistência, possui uma densa conexão interna que dá unidade aos textos reunidos postumamente no livro Os últimos dias de paupéria, antologia organizada por sua esposa Ana Maria Silva de Araújo Duarte e pelo amigo Waly Salomão. A obra, que foi constantemente lida e relida pelos jovens dos anos 70, concretiza a metáfora do jovem abatido em pleno vôo, semelhante a alguns mitos do nosso Romantismo.

Ao mergulhar no universo torquatiano, o leitor encontrará desde o lirismo intimista, no estilo bossa-nova, como na clássica canção Pra dizer adeus, feita em parceria com Edu Lobo, o lirismo regionalista, como em A rua, Minha Senhora e Zabelê, em parceria com Gilberto Gil, até o idealismo revolucionário das letras de protesto, entre 65 e 66, cujo discurso populista é próximo ao movimento dos CPCs (Centros Populares de Cultura).

Como um dos principais “teóricos” e articuladores do Tropicalismo (67/68), esteve à frente da revisão crítica da cultura nacional dos anos 60, tanto pela radicalidade e irreverência das letras de música, como pelos manifestos “Torquatália III”, “Tropicalismo para iniciantes” e “Vida, Paixão e Banana”. Conhecedor da obra completa de Oswald de Andrade, Torquato levou a teoria e a prática da antropofagia às últimas consequências nesses textos da Tropicália.

Em Os últimos dias de paupéria é notável a representação de um poeta que, por entre caminhos e descaminhos, arrisca-se à palavra escrita, posicionando-se sempre na contramão, à margem, resistindo a todo tipo de discurso opressor, sem, no entanto, cristalizar seu pensamento numa ideologia ou movimento, optando viver pelas frestas do sistema, como um herói rebelde e libertário.

Como jornalista, foi um crítico combativo e criativo na coluna “Geléia Geral”, do jornal Última Hora, entre 71 e 72, atacando severamente o pacto do cinema com a ordem político-social no início da década, em especial as produções de filmes históricos, eficazes para contar a história do ponto de vista oficial. Seus principais alvos foram os remanescentes do Cinema Novo, Carlos Diegues e Gustavo Dahl, que, em 71, vinculavam seus filmes a uma linguagem do espetáculo: com as super-produções históricas, patrocinadas pela Embrafilme, transformavam o cinema em mera diversão.

Inserindo-se na tradição romântica dos poetas malditos e rebeldes, Torquato optou por viver em zonas de limite, na fronteira entre a vida e a morte. Nenhum emblema traduz tão bem esse comportamento como o de vampiro. Não foi por acaso que ele encarnou de modo provocativo essa figura lendária, como protagonista do filme super-8 Nosferato no Brasil (1971), um cult movie do cineasta Ivan Cardoso. Depois dessa ação performática, a imagem do vampiro, cabeludo e encapotado, ficou amalgamada à persona do poeta.

A linha fronteiriça que separa a vida do poeta Torquato com a sua obra é tão sutil que se torna praticamente impossível uma separação. Essa fragilidade de fronteiras entre artista/produção ficou mais evidente com a concretização do suicídio, cujos indícios, espalhados por vários poemas, profetizam a morte prematura.

Acuado pelo contexto histórico e por sua própria natureza rebelde, Torquato reescreve o gesto do escorpião com o suicídio, Torquato Neto, inscrevendo no próprio corpo as marcas de uma poesia trágica.

Por outro lado, a fatalidade de uma vida dilacerada ficou para sempre inscrita na materialidade radical dos poemas de Torquato, especialmente no último texto, escrito à espera da morte num caderno espiral, encontrado ao lado do seu corpo.

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ILUSTRAÇÕES DE gutierrez 

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PAULO ANDRADE é autor do livro Corpo arquivo, Paulo Andrade nasceu em Boa Nova (Ba), município incrustado entre a caatinga e a mata, onde passava seus dias lendo, tocando e ouvindo música. Aos 21 anos, foi fazer Letras na Universidade Federal de Viçosa (MG). Lá começou a trabalhar como repórter/redator de jornal. Em 1996, mudou-se para Araraquara-SP, onde fez mestrado e doutorado em Estudos Literários na UNESP. Durante muitos anos integrou, como saxofonista e flautista, a banda lítero-musical Mestres Cantores. Foi professor de Teoria da Literatura na Unesp/Assis, entre 2010 e 2014, cargo que continua ocupando na Unesp/Araraquara, para onde foi transferido. É autor de Torquato Neto: uma poética de estilhaços, (Annablume/Fapesp) e de vários ensaios sobre poesia contemporânea em livros e revistas. É casado com Maria Lúcia e pai da Marina e da Júlia.

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Gutierrez — nascido em São Paulo, é mineiro por opção; vive entre Ribeirão Preto, Uberaba e São Paulo. Arquiteto por formação, é professor por vocação. Desenha porque se pretende escultor.

  • 07 - lets plat that

31/01/2015