)Contos(

Alice /

Matheus Arcaro

Era uma vez. Só uma vez. Mas Alice não foi capaz de resistir e agora, com os pés roçando o meio-fio, estilhaça a ilusão entre os poucos dentes que não abandonaram a gengiva. O fel que brota no céu da boca faz seu corpo úmido estremecer e ela se deita sobre si: na posição para a qual precisa retornar.

Da festa, comemoração do término do ensino médio, escoava música, álcool, mãos agitadas e os poderes ilimitados de quem desvenda o rosto do prazer. O movimento dos corpos era a silhueta do futuro, porém os poros urravam pelo presente. Os hormônios agarrados ao suor se comunicavam nos esbarrões dos braços ensandecidos e nos toques voluntários. Alice pertencia mais à festa do que a si. Era carregada pela batida eletrônica, pela batida de pêssego e pelas possibilidades que se escancaravam como prostitutas em noite de escassa clientela. O terremoto que destruía a infância subia pelas pernas, percorria cada célula do corpo recém-entalhado e saía pela boca num som selvagem, para voltar a subir pelas pernas: o ciclo do prazer que naquele átimo era eterno. Não há gozo que não possa ser maior, teria pensado se necessitasse de justificativas quando Carlos a convidara para o cômodo superior da mansão. Ela sabia exatamente o que os amigos faziam no quarto de casal e, exaltando seu autocontrole, venceu os degraus de mármore. É só dessa vez. Eu tenho ou não tenho domínio sobre mim? Abriram a porta: o pó branco alinhado sobre a bandeja de prata parecia uma vala às avessas. Hesitou, mas foi convencida de que a ocasião exigia tamanho salto. Venceu a vala com a ajuda de uma caneta esferográfica sem carga. Em pouquíssimos instantes suas narinas eram paredes de um vulcão e sua cabeça, um avião sem combustível a 10 mil metros de altura. Deixou a festa apoiada nos ombros de dois colegas com quem pouco conversara ao longo da vida escolar. Com a minissaia ao contrário e a calcinha pendurada no polegar ainda ratificou, antes de desmaiar novamente, a promessa de nunca mais aproximar aquele pó do seu nariz.

Nunca mais! A expressão esfola a parte interna da cabeça. Mas o rosto, acostumado às pancadas, molda-se à calçada e Alice parece pregada ao cenário cinzento. As pontas dos cabelos sebosos e encharcados são velas à deriva na água da sarjeta, tão ralas quanto as promessas que fizera para si.

Na semana seguinte à festa, mudou-se para a capital: faculdade de Ciências Sociais, contra a vontade do pai administrador e da mãe economista. As aulas mal começaram e ela trocou o apartamento pela república que abrigava dez dos seus novos amigos. Jovens engajados num futuro mais digno, disse à mãe por telefone. Ela acreditava nisso feito um evangélico. Deixou crescer os cabelos para enrolá-los como as mulheres africanas, passou a usar sandálias de couro e a banhar-se com menos frequência. Na primeira reunião da república, alguns dias após a mudança, estava em pauta a organização de uma passeata contra a ideologia das datas comemorativas criadas pelo comércio. Um absurdo fixar um dia pra presentear a mãe, outro pra presentear o pai, esbravejava o estudante que liderava a discussão. Seu irmão aproximou-se de Alice e despejou em seu ouvido: para as ideias fluírem mais facilmente. Ela tragou, mas nada sentiu de extraordinário ao soltar a fumaça. Percebendo a ineficiência de sua empreitada, o jovem barbudo foi ao quarto e voltou com um saquinho. Rasgou-o e a substância pálida caiu sobre a folha de papel que a menina segurava. Ela meneou a cabeça para os lados assim que sentiu a bílis na língua. Como acha que devemos conduzir a manifestação caso a polícia apareça, Alice? A voz sumiu-lhe quando ouviu seu nome saltando da boca do orador principal. Alinhou rapidamente o pó, aspirou-o com a carcaça de uma caneta e, pupilas dilatadas, falou até ser aplaudida.

Tenta se lembrar das palavras que lhe valeram aplausos naquela tarde. Em vão. Parece um passado desprovido de peso. Hiato, limbo, penumbra. Contudo, não faz mais que dois anos. Do canto da boca escorre uma gosma branca que o gato tingido pela noite lambe com indiferença. O desgosto pela desgraça é tão forte quanto a necessidade que faz seu organismo ranger, eu quero mais uma. Preciso de mais uma pedra, porra.

Os meses que sucederam a primeira reunião foram de festas e debates. E cocaína. A república pulsava ardor, transpirava subversão. Alice vivia entre seres extraordinários, por isso era extraordinária. Passou a ser chamada de Branca da Neve, envaidecia-se, fazia questão de sustentar o apelido. Numa das madrugadas em que salvava o futuro da humanidade, disse à Susana que precisava de sensações maiores: a farinha não fermentava mais sua euforia. Vai devagar. Pra voltar, o caminho é foda. Um ar de superioridade tomou seus lábios e ela sussurrou de soslaio, a vida é muito curta, amiga. Não temos o direito de não experimentar as possibilidades. Amarrou o garrote no braço direito e injetou na veia. Era heroína. Acordou no alpendre com o sol flagelando as costelas; os seios sobre uma poça de vômito.

Agora, engolida pelo breu, Alice gostaria de estar sobre o próprio vômito; ao menos seria um sinal de que tivera algo no estômago, órgão oco, seco, côncavo como os anseios que a moveram. Os braços, que facilmente confundir-se-iam com um graveto, levam as mãos ao ventre, mas elas não preenchem o vazio que reside muito mais em sua parte imaterial.

O dinheiro que o pai enviava não era suficiente para os livros, a república, as bebidas e a heroína. Não comprou mais livros. Ia às aulas quando se lembrava, até se esquecer por completo. Arrastava os pés pelas madrugadas, saía e entrava de si com os olhos arregalados. Ofegante. Numa manhã cansada, depois de espalhar sua tosse pela casa durante a noite inteira, os amigos decidiram que ela deveria pagar os três meses de aluguel atrasado. Contestou, porém teve que sair com a esperança entre as pernas. Naquele dia, até o anoitecer, carregou sobre a cabeça os pertences num saco preto de plástico. Com os pés pesados e o futuro esfarelado à sua frente, ligou para os pais. A cobrar. É, pai, fui eu que escolhi... Sentou-se no coreto da praça e ficou na mesma posição por um tempo desconhecido pelos relógios. Apoiou a cabeça no saco, desprendeu-se do corpo e cerrou os olhos para que o sol surgisse subitamente. Ele não obedeceu. Na noite seguinte, movida pelo medo, encontrou um albergue noturno destinado a mendigos e lá dormiu por duas semanas. Nesse período, injetou as roupas, o celular, as bijuterias; só lhe restou os trapos que cobriam com facilidade o corpo.

Tenta se levantar. Os fiapos que recobrem os ossos não obedecem. Meu Deus, o senhor é míope? Ela tosse e o muco que sai da boca pinta de luto a água da sarjeta.

Ela errou pela cidade e implorou moedas no semáforo, mas os trocados que conseguia não davam conta do seu corpo. Corpo? O de Alice já não merecia esse nome. Misturada ao poste de uma esquina questionável, ela tentava ver a noite empurrar o sol, quando dois homens de bicicleta pararam ao seu lado. Com dificuldade, soltou-se do cilindro de concreto e se debruçou sobre o que estava na garupa. Cedeu à pechincha. Só tinham um preservativo, entretanto ofereceram algumas moedas a mais que o combinado e Alice, então, transformou-se em contorcista entre as folhas, os espinhos e o lixo, que pareciam extensão da sua pele. Serviço feito, limpou a boca e a virilha com um pedaço de papelão, desceu a saia e saiu trôpega do terreno baldio. Em poucas semanas virou celebridade da esquina: todo dia, de oito a dez contorcionismos. Depois de mais um número, amassou as notas entre os dedos amarelos e se pôs a correr sem notar as folhas secas que tomavam os cabelos. Perambulou pelo bairro até os calcanhares sangrarem, mas conseguiu comprar duas pedras de crack. Entrou num casarão abandonado e entregou-se à necessidade.

Tanto quanto os pulmões, as pálpebras se movimentam pesadamente. Descobrem metade das retinas que constatam a ausência de vida: até o gato negro que dividia a saliva com ela fugiu receoso do contágio. Contudo, quando pensa que não está sozinha de verdade, um bem-estar cortante se apodera de Alice: é reconfortante saber que os insetos estão sobrevivendo perto dela e sobre ela. Mais prazeroso é se lembrar dos vermes dentro de sua umidade. Sente inveja do cachimbo que repousa encostado ao seu rosto: indiferente ao futuro e ao passado. Existências coladas que permutam algo de inanimado.

Quase vinte e quatro horas de sono. Ela acordou com os trovões e se encolheu feito um caramujo ameaçado onde as paredes leprosas se encontravam. A chuva tinha poucos obstáculos, aproveitava os buracos no teto para dissolver a saúde esquálida de Alice. Os raios recortavam o negrume do céu sob a cortina densa de água. Com que direito esses tijolos me olham assim? As paredes cresceram e começaram a se aproximar de Alice, o cômodo foi ficando menor, mais estreito, mais denso, mais sufocante. Incômodo. Não consigo me mexer. Minhas pernas e meus braços não me pertencem. Reaja, Alice. Reaja, caralho! As paredes lamberam a pele ácida da mulher, língua coberta de lâminas. Mãe, me ajuda! Correu com pernas emprestadas pela progenitora e caiu desmaiada na sarjeta em frente ao casarão.

Feito um feto, Alice traz o corpo para mais perto de si. Um corpo encharcado de mágoas e máculas. Os olhos tremem e as pernas, permeadas por espasmos, atritam-se contra o chão à medida que a vida passa na mente como um filme às avessas. Viagem curta, ela desce da montanha-russa, tira as vestes e entra no ventre materno pelo umbigo. Sente-se, enfim, segura e entrega-se à sensação de não sentir.

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Este conto, "Alice", pertence ao primeiro livro de ficção de Matheus Arcaro, Violeta velha e outras flores (Patuá). 

ILUSTRAÇÃO: déco

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MATHEUS ARCARO nasceu em 1984 em Ribeirão Preto, onde vive atualmente. É graduado em Comunicação Social e também em Filosofia e pós-graduado em História da Arte. Atua como diretor de criação publicitária e como professor de Filosofia e Sociologia em cursos pré-vestibulares. Desde 2006 tem artigos, contos e poemas publicados em veículos regionais e nacionais. Violeta velha e outras flores é seu primeiro livro publicado (Patuá). Nas poucas horas vagas, arrisca-se ainda como artista plástico. No Facebook: Matheus Arcaro.

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déco é artista plástico, quadrinista, poeta e ilustrador. Participou do movimento artístico Dissipação Visual, em Miracatu (SP), nos anos 1990.

 

  • 05 - White Rabbit

  • Jefferson Airplane - White Rabbit, Live from Woodstock 1969 [HD] (Lyrics).

31/01/2015