)Sarau(

corpo oração / poesia brasileira contemporânea; literatura brasileira; Paulo Andrade; "Corpo-arquivo"

Paulo Andrade

 

 

 

 

 

 

Corpo, linguagem

 

Teu corpo é um poema

 

mais que Euterpe, Calíope,

Clio é só linguagem

esse corpo miragem

tão perto tão longe,

paisagem oásis esfinge

 

Leio com a língua as linhas e dobras

(são tantos enigmas o teu corpo)

enquanto das pétalas vermelhas

aromas baunilhas exalam e

minha língua como se olhos fosse

procura a luz no fim do túnel

 

A lança - punhal cego - deseja transpassar

entranhar-se curva adentro-fora:

conhecer cada relevo pêlo poro

 

as metáforas do teu corpo.

 

Visões de lautréamont

Não fosse o fogo por aqui ardendo
e este cenário, deverias, filho,
mais ligeiro do que eles ir correndo
(Dante, Inferno. Canto XVI)

 

entre cálices de absinto e ópio

lautréamont

desce ao sétimo círculo

 

virgílio, no limbo,

se recusa a acompanhá-lo

as harpias incendiando o céu com labaredas

apontam-lhe o percurso

 

seus cantos –

elixir de enxofre

mandrágora e mescalina –

entorpecem os jardins das delícias

seus pecados:

alquimia do verbo

corrosão da sintaxe

subversão de versos

fratura e sutura de textos

 

trêmulo e atônito,

entre troncos e correntes,

no bosque dos suicidas,

nenhuma beatriz vem salvá-lo

 

 

Respondendo a uma pergunta

 

Não, não pertenço e

nunca me ouvirá bater à sua porta

migalhas de pão sobre a mesa

não interessam a ninguém

e decididamente é menos

orgulho que vingança

 

nestes troncos truncados

rios não se deitam

em afluentes disléxicos.

 

É da aridez do interior

que gesta a poética da falta e, de fato,

Platão erra, pois o amor não é

aquilo que é.

 

São sucessivos acidentes

(acertam os sofistas)

edificados tijolo a tijolo

desde sua fundação

 

mas chaves e cadeados

impedem a transfusão e sabe-se

em oculto que o cálice do sangue dos avós

nunca é ofertado aos herdeiros

 

quem se fortalece quando

se nega o pertencimento?

 

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ILUSTRAÇÕES DE stênio santos, vanessa lira & thaís alberti

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PAULO ANDRADE é autor do livro Corpo arquivo, Paulo Andrade nasceu em Boa Nova (Ba), município incrustado entre a caatinga e a mata, onde passava seus dias lendo, tocando e ouvindo música. Aos 21 anos, foi fazer Letras na Universidade Federal de Viçosa (MG). Lá começou a trabalhar como repórter/redator de jornal. Em 1996, mudou-se para Araraquara-SP, onde fez mestrado e doutorado em Estudos Literários na UNESP. Durante muitos anos integrou, como saxofonista e flautista, a banda lítero-musical Mestres Cantores. Foi professor de Teoria da Literatura na Unesp/Assis, entre 2010 e 2014, cargo que continua ocupando na Unesp/Araraquara, para onde foi transferido. É autor de Torquato Neto: uma poética de estilhaços, (Annablume/Fapesp) e de vários ensaios sobre poesia contemporânea em livros e revistas. É casado com Maria Lúcia e pai da Marina e da Júlia.

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STÊNIO SANTOS nasceu em São Joaquim da Barra, interior de São Paulo. Desenha desde que se conhece por gente. Ainda não é formado em Design, mas pretende ganhar a vida com isso. Gosta de quadrinhos (principalmente os escritos pelos autores Alan Moore e Neil Gaiman) e mangás, de filmes e de literatura. Facebook: Stênio Santos.

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VANESSA LIRA é artista plástica e professora de artes. Utiliza a fotografia e o desenho como linguagens de expressão e adora chacoalhar as mentes brilhantes dos adolescentes que frequentam suas aulas. É mãe de Theo, com quase cinco anos, que lhe inspira o registro de historinhas da visão de uma criança para o mundo; e é companheira do Anderson há dez anos.

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THAÍS ALBERTI nasceu em 1994, em Ribeirão Preto. A filha perdida do Neil Gaiman. Estudante de Letras por ter encontrado Oscar Wilde na adolescência; faz uns rabiscos, que chama de ilustração, nas horas vagas. Mais perdida na estrada do que Kerouac. 

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24/01/2015