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Pecado capital /

George dos Santos Pacheco

Eram duas horas da manhã. A lua minguante, quase nova, não iluminava bem a noite, aliada a grandes e espessas nuvens que encobriam o céu por longos períodos. A densa escuridão era cortada por dois grandes fachos de luz, provenientes dos faróis do caminhão de Ranulfo. Ele sacudia na boleia, devido aos grandes e constantes buracos da estrada mal conservada, que tentava desviar, sem sucesso, infelizmente. Dirigia há mais de vinte anos. Era de estatura mediana, tinha um rosto largo, e muitos cabelos brancos, que desciam ondulados pela testa. Seus olhos eram apertados e pequenos, e sua barba, um tanto grisalha, estava por fazer. Era um homem robusto e de aparência dura, que contrastava com o crucifixo do terço que balançava preso ao retrovisor, e as imagens de santos colados no painel. 

Era uma noite extremamente quente e abafada, e Ranulfo, que tinha a testa cheia de gotículas de suor, refrescava-se com um pequeno ventilador, além do vento proveniente das janelas inteiramente abertas. O facho dos faróis alcançou a distância uma silhueta feminina à beira da estrada, e ele foi reduzindo as marchas até se aproximar da mulher. Vestia um pequeno top preto, que deixava seus grandes seios quase à mostra, e um short jeans curto e surrado, além de uma bolsa de mulher que carregava a tiracolo. Tinha uma longa cabeleira negra, e o rosto um tanto marcado por espinhas, pouco disfarçado apesar da pesada maquiagem, que a deixava mais lasciva que ao natural. Provavelmente ela diria que tinha dezoito ou vinte anos, e que começara nesta vida há pouco tempo, contudo, Ranulfo sabia que ela tinha menos que isso. Talvez, bem menos. Antes de parar completamente o caminhão, tocou o crucifixo e benzeu-se, fazendo uma pequena oração.

– Oh Senhor! Perdoe-me por mais este pecado! – disse com os olhos semicerrados, momentaneamente. A garota acabara de subir no carro, apoiada nos degraus, pondo a cabeça na janela.

– Oi, gostoso! – disse num sorriso cheio de volúpia.

– Entre... - limitou-se a dizer, retribuindo o sorriso.

Ela subiu e ele tornou a arrancar com o caminhão, rasgando o silêncio da noite. Ela não podia e nem queria esperar que ele a tomasse, então baixou as alças de seu top, exibindo seus seios firmes e rosados. Encostou-se nele enquanto dirigia, lambendo suas orelhas e passando a mão entre suas pernas.

- Porque não me quis aqui mesmo, garanhão? Gosta de aventuras? - disse ela ao passar a língua nos lábios e curvando-se um pouco, ao abrir o zíper da calça de Ranulfo.

– Acalme-se vadia! – advertiu sorridente. – Vou te levar para um lugar melhor... – disse sem desviar os olhos da direção, deixando-a desconcertada e um tanto contrariada. Por que diabos ele não encostava logo esse caminhão? A mulher continuou então a passar-lhe a mão e mordiscar sua orelha, e em menos de cinco minutos, o caminhoneiro parou no acostamento, onde avistara uma clareira. Beijaram-se apaixonadamente e desceram do carro, entrando na pequena trilha à beira da estrada, em meio a gargalhadas. Ranulfo a encostou em uma pequena árvore, e beijou fortemente seus seios, arranhando sua pele alva com sua barba.

– Ah, seu puto! Está me machucando! – disse ofegante, enquanto tentava lhe tirar a camisa.

– Diga: Senhor, perdoa meus pecados! – disse ele em tom severo, ao afastar-se um pouco, ajeitando a camisa.

– Como é?! – perguntou desconcertada. Seu batom vermelho estava completamente borrado, e alguns de seus cabelos estavam grudados em seu rosto corado.

– Eu disse para pedir perdão! – esbravejou, desferindo-lhe um grande murro no rosto, derrubando-a ao chão.

– Seu idiota! Por que está fazendo isso? Você é louco? – disse chorando, tentando erguer-se. Sua face inchara rapidamente, e o sangue vertia de seu nariz, em forma de um filete.

– É uma impura! Deve pedir perdão por seus pecados! – repetiu ele ao aproximar-se dela, que se afastava, com desespero. Tirou do bolso um canivete automático, e sacou a lâmina, que brilhou num breve raio de luar. Seu olhar tinha um cintilar maligno e sorria estranhamente. Seus cabelos estavam banhados em suor, que escorria pelas têmporas.

– Não tente nada! Ouviu? Nada! Ou então... eu gritarei! – disse a mulher, ganhando tempo para levantar-se, e afastando-se de costas.

– Ninguém a escutará aqui. Você teve sua chance de arrepender-se. Agora será levada ao Juízo do Senhor. Você e sua raça de víboras e porcas nojentas espalham o pecado com toda essa fornicação. Você e todos os outros pecadores devem deixar de existir... como num novo dilúvio, para que assim, surja uma raça pura, livre do pecado. E cabe a mim, livrar este mundo do mal, doce menina... - disse com meiguice.

– Socorro! – gritou ela fugindo para a mata. Seus olhos estavam embaçados pelas lágrimas, que ela tentava limpar com as costas das mãos. Desesperava-se a cada passo que dava, a cada metro que atingia. E a escuridão tornava-se mais espessa, à medida que se embrenhava nos arbustos. Não ouvia mais as palavras sem nexo do caminhoneiro. Jamais ouvira tanta bobagem, e jamais imaginou encontrar um louco puritano em seus programas. Sua pele brilhava de suor, e estava cheia de marcas dos arranhões dos galhos que chicoteavam seu corpo. Olhou novamente para trás, enquanto corria, para certificar-se que se safara de seu algoz. Quando voltou-se para frente, topou num grande galho, caindo ao chão com o impacto, contorcendo-se de dor, ofegante e sem forças.

– Oh menina... Não sabe que não pode esconder nada aos olhos do Senhor? - disse Ranulfo, caminhando calmamente em sua direção.

– Não! Por favor! Não faça nada comigo! - implorou arrastando-se. – Eu... eu... faço o que você quiser!

– Você já teve sua oportunidade... - disse ele ajoelhando-se sobre ela, que parou de fugir quando se viu acuada, chorando com mais desespero. – É uma pena... – disse ao segurar fortemente sua garganta com uma das mãos, enquanto ela permanecia imóvel e ofegante, sentindo o ar sumir. Seus olhos estavam arregalados, marejados, tomados de um grande pavor. – um corpo tão belo, usado somente para o pecado... – sussurrou ele com o olhar lânguido, lambendo os seios impregnados de suor e poeira, e em seguida, cravou fortemente o canivete entre eles, segurando com firmeza o cabo, além do pescoço da mulher, enquanto ela tentava gritar, contorcendo-se, tremendo, agonizando. Em pouco tempo era apenas um saco de carne vazio, sem alma. Algo sem nenhum valor, descartado como qualquer coisa.

Ranulfo deixou seu corpo como estava, tirou o canivete, que estava incrustado, levantou-se e voltou para seu caminhão, tranquilo e lentamente, como se degustasse a brisa fresca da serra, com a sensação do dever cumprido. Entrou na boleia, limpou o canivete em sua calça e com a ponta da lâmina fez mais um risco no painel de vinil, completando quase uma dezena de riscos. Guardou então o canivete, tocou o crucifixo, e benzeu-se fazendo uma pequena oração.

– Senhor, perdoe-me por mais este pecado! – disse com os olhos semicerrados. Benzeu-se novamente, ligou o caminhão, e arrancou, rasgando o silêncio da noite.

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ILUSTRAÇÃO DE helton souto

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GEORGE DOS SANTOS PACHECO nasceu em Nova Friburgo, Rio de Janeiro, em 07 de outubro de 1981. Desde a adolescência rascunha histórias em cadernos, mas só tomou coragem de escrever depois de assistir a uma entrevista da escritora Sônia Belloto, em que a autora afirmava que, se quisesse, qualquer um poderia escrever. Assim surgiu O fantasma do Mare Dei, publicado pela Multifoco, do Rio de Janeiro. É graduado em Pedagogia e um dos autores da Coletânea Assassinos S/A Vol. II, também da Multifoco. Tem participado de Desafios Literários propostos em sites, o que lhe rendeu a participação no e-book Contos sombrios de Natal, do fórum literário Fórum Câmara dos Tormentos (atual A Irmandade). Publicou também um conto na edição do 3º trimestre de 2011 da Revista Marítima Brasileira. Recebeu Menção Especial no VI Concurso de Trovas do Grêmio Português de Nova Friburgo, tema lírico-filosófico. Blogueiro desde 2009, publica textos na Revista Pacheco e nos sites A Irmandade, Tertúlia, As Crônicas do Edifício Cinza, dentre outros. A partir de janeiro de 2014, passou a compor o quadro de colunistas da Revista Êxito Rio. No Facebook: Revista Pacheco.

 

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HELTON SOUTO nasceu em 76. Ribeirão Preto. Casado com Silvana. Cientista social, educador, gerente de projetos na área de educação e juventude, artista plástico e ilustrador. Desenha e pinta desde sempre. Torce para o São Paulo. E seu cachorro se chama Yoda. Blog: Andar na pedra. Contato (Facebook): Helton Souto.

  • 05 Wrong Way

10/01/2015