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Os defeitos meus /

Renato Alessandro dos Santos

Das três recomendações que a mãe de Drummond deixou a ele — não guardes ódio de ninguém; compadece-te sempre dos pobres; cala os defeitos dos outros —, é essa última que não sai da cabeça. É um conselho inesquecível, que deveria ser grifado por todas as gerações que vêm pela frente. Você não acha? Mas há um problema: e nosso defeitos, o que vamos fazer com eles? Pense bem nisto: quem vai nos alertar sobre eles?

Somos todos cobertos de vícios e manias. Não adianta tapar o sol com a peneira. Defeitos. Você sabe: pessoas perfeitas não existem. Mas sabe que elas podem se tornar melhores, até porque a ideia era essa desde o início, quando a lida diária e oportuna começou, e o archote caiu nas suas mãos e, de quebra, três estações de sua vida foram subtraídas de sua idade; por isso, ao perguntarem sua graça e quantos anos tem, lembre-se que tudo começou com aquela corrida seminal de cotoveladas e dedos nos olhos, passando pelo tobogã, o Ferrorama e o mandiopã. Tudo para chegar até aqui, a essa sabedoria sempre em trânsito. 

Agora que tudo recomeça, longe de desejar sempre a mesma coisa, por que não acrescenta esse conselho da mãe de Drummond à carroceria? Estamos sempre pela metade do caminho. Não há por que pensar diferente. E já que estamos aqui, no mínimo aprendendo algo, vamos jogar os dados e esperar que a sorte nos dê uma piscadela. Adiante, adiante. Mas, cuidado: à medida que os sinos dobram, o tempo parece encurtar numa dimensão oposta àquela de quando seus dentes eram brancos como cirandinha, e o sol parecia sempre querer quedar-se antes do inevitável. Era você ali na rua, brincando, alheio ao tempo que fluía.

E que flui.

E mais um ano chega ao fim, enquanto outro calendário vai parar na lixeira. Torça para que tudo fique como está — se a boa sorte o acompanha — ou para que o futuro lhe reserve um dia melhor — se o ano que foi embora não foi bom —, mas lembre-se de que você nunca precisa ser a-perfeição-em-pessoa coisa nenhuma. Problema algum nisso. É melhor que viva la vida loca, e de preferência o mais longe possível de bulas de remédios, jogando os olhos acesos adiante, iluminando tudo, enquanto T.U.D.O. é possível. 

A você mesmo: mirabolantes planos diários, projetos que podem dar certo, a cabeça e a autoestima em ordem; andar para cima e pra baixo, um livro embaixo do braço. I.D.E.I.A.S. ao redor; vaga-lumes em gravidade zero. 

A ninguém mais que você mesmo, como os defeitos dos outros, guarde tudo a você mesmo.

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FOTOGRAFIAS DE joão thiago

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Meu nome é RENATO ALESSANDRO DOS SANTOS. Tenho 42 anos, um filho de 14, Théo, e uma mulher que amo, Silvia. Sou professor no curso de Letras do Centro Universitário Moura Lacerda, em Ribeirão Preto, e no Colégio Semeando, em Batatais; doutorando em estudos literários na UNESP, de Araraquara, e autor de Mercado de pulgas: uma tertúlia na internet (Multifoco) e da dissertação A revolução das mochilas: de On the road à lenda de Duluoz – a literatura beat de Jack Kerouac; um dos autores de Literatura futebol clube (Multifoco), Crônico: crônicas brasileiras ilustradas (Multifoco) e de Desafios e perspectivas das ciências humanas na atuação e na formação docente (Paco editorial); editor do TERTÚLIA e apaixonado por música, cinema, literatura e o Santos Futebol Clube. E-mail: realess72@gmail.com. No Facebook: Renato dos Santos Santos.

 

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JOÃO THIAGO é fotógrafo, professor de informática e de artes visuais e, agora, ilustrador no TERTÚLIA. Mais sobre ele em www.joaothiago.com. No Facebook: João Tiago.

 

 

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03/01/2015