)Contos(

Sonata de Lausanne, 3ª parte (3 de 3) /

André Carretoni

Terceiro movimento

(allegro gentile)

Dizem que os habitantes do deserto são aqueles que mais acreditam em Deus, porque: por terem sido mais expostos ao silêncio, acabaram por ouvir mais o universo e por não terem tido muitas cores que os distraíssem, acabaram por olhar com mais profundidade para as coisas. Contudo, não é o fato de acreditar em algo que deveria definir uma pessoa, mas o que cada uma dessas pessoas faz sem esperar por um retorno. Um ateu que ajude alguém tem muito mais valor que um crente que faça algo à espera de alguma recompensa.

Ahamarã acordou e sentou-se junto de seus salvadores. Queria aproveitar de mais perto o calor do fogo. E foi o que estava mais próximo dele aquele que falou:

– Já era hora. Vamos, coma...

– Obrigado.

Ahamarã esticou o braço e arrancou uma lasca do cordeiro que estava sendo grelhado.

Permanecera três dias deitado, a recuperar-se. Portadores de remédios naturais, aqueles senhores deram-lhe de beber e comer, e, agora, não era com menos satisfação que o viam recuperado.

– É melhor vires conosco. Não temos muito, mas, afinal, irás precisar de uma nova montaria.

– E para onde ides?

– Para Belém.

– Belém...

– Conheces alguém que te possa ajudar na Judéia?

– Não.

– Poderemos apresentar-te a algumas pessoas.

– E o que buscais? Sois mercadores? – disse Ahamarã.

Os três sábios entreolharam-se.

– Não. Estamos indo para o nascimento de alguém.

– Perdão, jovem, como te chamas?

– Ahamarã.

– Ahamarã, guiado por Deus...

– Ao vosso serviço.

– Eu sou Baltazar. Esse é Gaspar e o calado ali se chama Melchior.

– Deus seja convosco.

– Escapaste de uma, hein? – disse Gaspar.

– Não sei como agradecer.

– Somos apenas instrumentos. – concluiu Melchior.

A pequena caravana levantou acampamento e continuou seu caminho rumo a este. Assim como Ahamarã, os três homens também conheciam a cartografia escrita nos céus.

"Ahamarã, Ahamarã, ainda não vistes nada."

Bastaram três dias de cavalgada até à referida cidade hebraica. Chegaram durante o dia e, como eram pessoas importantes nas cidades de onde vieram, procuraram a autoridade máxima daquele estado, a fim de comunicarem suas presenças. E intenções.

Ahamarã esperou pelos sábios fora do grande palácio, após ter sido encarregado da montaria e compra de mantimentos – a confiança que estranhos podem depositar em nós será sempre uma dádiva descida sobre as nossas existências.

Ao cair da noite, porém, Ahamarã, que ainda os acompanhava, compreendeu que algo realmente estranho estava acontecendo. A estrela que seguiram, nova no céu, não passara apenas a ser a estrela mais brilhante que já vira, mas também passou a emitir, num vertical perfeito, um fino raio de luz.

Ali estava a criança que procuravam.

Eles aproximaram-se do que seria uma manjedoura, e Ahamarã viu os três homens darem valiosos presentes para o recém-nascido. Reverenciaram-no como se ele fosse um rei, e os pais da criança se mostraram muito agradecidos.

Horas passaram, e os homens resolveram partir.

– Ahamarã, amanhã iremos falar com um ferreiro que poderá ajudar-te a começar uma nova vida.

– Baltazar, não se preocupe comigo. Eu vou ficar por aqui.

Baltazar olhou para seus amigos, para Ahamarã, e sorriu. Compreendia sua decisão.

– Fique com Deus, jovem.

Os três homens acenaram e partiram, e Ahamarã ficou ali, a olhar para as estrelas.

Era tarde quando ele sentiu um toque em suas costas. Virou-se assustado e, ao reconhecer o seu cavalo, levantou-se depressa. De alguma maneira ele também havia escapado da tempestade. E, como se estivesse diante de um homem, Ahamarã abraçou-o como a um irmão, para, entre lágrimas de alegria, dizer:

– Estamos em casa, meu amigo.

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ILUSTRAÇÕES DE helton souto

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Nascido no Rio de Janeiro em 1971, ANDRÉ CARRETONI cedo se apaixona pelas artes. Autodidata, aprende música, desenha, segue cursos de teatro, frequenta um curso de cinema, até que escolhe a literatura como meio de expressão. Encontrando afinidades com certos autores expatriados, aos 27 anos decide dar uma reviravolta em sua vida e parte para a Europa, à procura de novas experiências. Vive seis anos em Lisboa, mas sente necessidade de ir além. Faz o Caminho de Santiago de Compostela e se inscreve em um curso de pintura em Florença, onde escreve seu primeiro romance, Piedade Moderna, e conhece aquela que se tornará sua esposa. Sua vida de escritor acabava de começar. Vive dois anos na Suíça, aprimorando seu estilo de escritura. Escreve Mais Alto que o Fundo do Mar, cria sua página na internet (carretoni.com), escreve crônicas para o sítio francês Bonjour Brasil, participa do sítio brasileiro Tertúlia e frequenta o laboratório de escritura criativa do Instituto Camões. Depois de quatro anos em Paris, no encalce da Lost Generation, instala-se em Nice e encontra uma nova fonte de inspiração.

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HELTON SOUTO nasceu em 76. Ribeirão Preto. Casado com Silvana. Cientista social, educador, gerente de projetos na área de educação e juventude, artista plástico e ilustrador. Desenha e pinta desde sempre. Torce para o São Paulo. E seu cachorro se chama Yoda. Blog: Andar na pedra. Contato (Facebook): Helton Souto.

  • 06-Jesus (Closet mix)

23/12/2014