)Contos(

Sonata de Lausanne, 2ª parte (2 de 3) /

André Carretoni

Primeiro movimento (Parte 1 de 3)

Segundo movimento

(adagio)

A metade de seu corpo estava soterrada. Ahamarã antecipou a tempestade e abrigou-se a tempo num rochedo. Entretanto, como a tempestade fora violenta e durara horas, a mesma rocha que o salvara, servindo-lhe de refúgio, impedia-o agora de se mover, pois uma grande quantidade de areia fora represada ao seu redor.

Intempérie bizarra. Jamais havia visto um remoinho tão devastador e repentino como aquele. Toda sua noção de sobrevivência ficou reduzida a correr até as fendas de uma montanha, enquanto, ao seu cavalo, restou apenas precipitar-se na direção contrária.

— Espero que ele não tenha sofrido...

Sem nenhum apoio para se desenterrar, Ahamarã olhou para cima e viu o céu por uma abertura. Tinha de fazer algo antes que o frio noturno chegasse, ou encontraria, naquele mesmo ambiente que fora testemunha de seu renascimento, seu túmulo.

Ele movimentou-se com força e nada. Cada pequena folga que conquistava era imediatamente preenchida por mais grãos. A consciência de seu apuro. A improbabilidade de salvação.

Se bem que a força de vontade não era para ali chamada. Uma lição que ele também tinha aprendido era que ele poderia viver com o deserto, retirar dele a água da vida, mas nunca poderia superá-lo. A eternidade é longa, o infinito é distante, e, como ser humano que encontrara sua autonomia, Ahamarã sabia que um dia chegaria o momento no qual ele deveria apenas aceitar.

Mas ainda era cedo para desistir. Ele juntou mais forças, respirou fundo e prendeu a respiração. Tentou ocupar o maior espaço possível ao seu redor. Sua única chance estava em alcançar a parede maciça, e, sendo assim, tinha de unificar todo seu esforço numa só tentativa.

Ele, então, contou mentalmente até três, espirou como se seu corpo explodisse numa só direção, mas, de novo, nada. Nem um centímetro de liberdade física, independente do estado de seu espírito.

Os minutos correram, transformaram-se em horas, e o céu começou a escurecer. Ele ainda identificava as cores do deserto, mas a temperatura descia rapidamente. O frio, o frio que amortece a alma e facilita as coisas.

Mas, afinal, para que sair dali? Por que ele sairia dali? No momento que havia se libertado da ansiedade, dos sentimentos de posse e de todos os prazeres temporâneos da vida, qual seria o motivo ao qual se agarraria para tentar escapar de uma morte certa? Não tinha mais ambições, não queria possuir mais nada, estava bem, sereno, então, não seria melhor se deixar levar e... aceitar? Não era melhor relaxar e partir para o mundo etéreo, já que nada mais ali atraía sua paixão? Já que nem mais paixão ele tinha, somente aquele estado inquebrável de tranqüilidade?

Morrer, partir, voar... Como um grão de areia, soltar-se ao vento, ir embora, para bem longe, para longe do mundo dos vivos e do reino das ilusões. Fazer parte de tudo e voltar para o lugar de onde havia vindo.

Ahamarã abriu os olhos e percebeu que tinha cochilado e teria voltado a cochilar se não fosse um movimento no lusco-fusco. Era um rato. Uma pequena e maravilhosa criatura, pensou.

Quando estamos no meio das cidades, na multidão, esbarrando-nos com milhares de pessoas que não procuramos conhecer, esquecemo-nos do mais importante de tudo: o valor da vida. Do valor de uma vida que seja. Ali, sem nenhuma alma por perto, ver a mais insignificante forma de existência era a força da natureza mais valiosa que ele poderia encontrar. A divina vida e o direito de viver de cada um, da maneira mais digna possível.

— Desejo-te toda a sorte do mundo, pequeno.

E Ahamarã dormiu de cansaço e sede.

Sonhou que caminhava num deserto durante um dia infinito, jamais dividido pela noite. E ele caminhava e caminhava, com o sol sobre sua cabeça, com dunas a sua frente, e mais dunas, e nenhum oásis. Finalmente, depois de uma eternidade, ele enxergou um vulto quase imperceptível no horizonte, com roupas escuras, vindo em sua direção. Ahamarã continuou caminhando, e, como aquele outro alguém também não corria, a expectativa se tornou interminável.

Quando ficaram, enfim, mais próximos, Ahamarã começou a definir os traços do viajante. Talvez houvesse tanta idade quanto ele, e o outro se tornou mais próximo, mais próximo, até que, parado diante do estranho, Ahamarã se reconheceu. Era ele próprio. Ahamarã estava diante de si mesmo, com as mesmas roupas e as mesmas rugas. Ele esticou a mão para tocá-lo e o seu outro "eu" fez o mesmo. Quando estavam, todavia, perto de se tocarem com os dedos, Ahamarã sentiu o contato frio de uma superfície entre eles. Ele espalmou a mão, ambos espalmaram, e tocou com sua palma uma superfície lise, reparando que aquele outro alguém era na verdade o seu reflexo.

Ahamarã olhou para o chão, para os lados e para cima e percebeu que tinha chegado diante de um gigantesco espelho, tão enorme que ele era incapaz de ver o seu fim ou imaginar se este existia. Ahamarã agachou-se para cavar um pouco e imaginou que o espelho também seguia até às entranhas infinitas da terra.

Ahamarã colocou-se de pé e olhou para si mesmo. Lembrou-se de como havia partido jovem e como havia mudado, até que sua imagem finalmente falou para ele:

"Fim do passeio, Ahamarã."

Ahamarã acordou e ouviu rumores do lado de fora da gruta. Eram passos de montaria e o murmúrio de pessoas.

— A vida... — ele murmurou e depois começou a gritar.

Ouvindo-o, algumas pessoas começaram a cavar em sua direção, até que ele sentiu algumas mãos a puxarem-no para fora e água a tocar-lhe os lábios.

"Ahamarã, homem mortal, teu dia ainda não chegou."

Ele acordou de seu desmaio e a primeira coisa que viu foi um negro tapete de estrelas. Ele estava deitado e coberto. Seu corpo estava aquecido, e ele sentia-se protegido. Ahamarã girou com alguma dificuldade a cabeça para o lado e viu três estranhos a conversarem do outro lado de uma fogueira. Fora salvo e, agradecido, dormiu novamente.

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ILUSTRAÇÕES DE helton souto

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Nascido no Rio de Janeiro em 1971, ANDRÉ CARRETONI cedo se apaixona pelas artes. Autodidata, aprende música, desenha, segue cursos de teatro, frequenta um curso de cinema, até que escolhe a literatura como meio de expressão. Encontrando afinidades com certos autores expatriados, aos 27 anos decide dar uma reviravolta em sua vida e parte para a Europa, à procura de novas experiências. Vive seis anos em Lisboa, mas sente necessidade de ir além. Faz o Caminho de Santiago de Compostela e se inscreve em um curso de pintura em Florença, onde escreve seu primeiro romance, Piedade Moderna, e conhece aquela que se tornará sua esposa. Sua vida de escritor acabava de começar. Vive dois anos na Suíça, aprimorando seu estilo de escritura. Escreve Mais Alto que o Fundo do Mar, cria sua página na internet (carretoni.com), escreve crônicas para o sítio francês Bonjour Brasil, participa do sítio brasileiro Tertúlia e frequenta o laboratório de escritura criativa do Instituto Camões. Depois de quatro anos em Paris, no encalce da Lost Generation, instala-se em Nice e encontra uma nova fonte de inspiração.

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HELTON SOUTO nasceu em 76. Ribeirão Preto. Casado com Silvana. Cientista social, educador, gerente de projetos na área de educação e juventude, artista plástico e ilustrador. Desenha e pinta desde sempre. Torce para o São Paulo. E seu cachorro se chama Yoda. Blog: Andar na pedra. Contato (Facebook): Helton Souto.

  • 02 - Tuareg

20/12/2014