)Contos(

Sonata de Lausanne, 1ª parte (1 de 3) /

André Carretoni

Primeiro Movimento

(allegro con spirito)                                                                      

A areia do deserto escorria, recordando uma ampulheta sem fim, mudando dunas de lugar e soterrando, continuamente, impérios vencidos. Não existe nada mais forte que o vento, dizem os tuaregues, pois o sol nasce e morre, a lua brilha e se esconde, mas o vento, fraco ou forte, nunca deixa de soprar. E é nesse mar chamado deserto – região inóspita para alguns, lar para outros – que começa a nossa história.

Ele cavalgava só, enrolado num turbante; sem pressa e sem destino; sem nada nos bolsos e sem ter deixado nada para trás, portando apenas a certeza de poder encontrar, nesse tipo de paisagem, o essencial para a sua sobrevivência. Seguia para não parar, cessava de mover-se para repousar. Comia quando sentia fome e bebia para não ter sede. Seu nome era Ahamarã, que significa guiado por Deus.

De personalidade difícil, capaz de sorrir para uma serpente e chorar por causa de um pôr-do-sol, era alguém cuja autossuficiência conquistara, tanto material quanto espiritual. Conheceu diversas cidades e viveu a segurança de um lar, mas, abrindo mão de tudo aquilo que possuiu de mais valioso, encontrara a sua própria liberdade.

Mestre de arte rara, reconhecia, com antecedência, a aproximação de uma tempestade; via coisas onde um olhar deseducado nada seria capaz de ver e percebia, a quilômetros, a existência de algum oásis. Místico – psicótico para os descrentes –, orientava-se com a ajuda dos pontos cardinais e pela certeza de que sempre encontraria aquilo que buscasse. Era a fé que movia o homem, mas o homem que controlava a vida.

"Ahamarã, Ahamarã, parido de mulher, para onde vais?"

Para alguns, o deserto é o lugar mais rumoroso do mundo. Contudo, para Ahamarã, ali se tornara sua realidade e casa.

A serenidade de saber que a solidão é apenas um meio e não um fim: um dos muitos caminhos para domarmos os nossos próprios sentidos e para aprendermos a como nos satisfazer com pouco – um dos muitos atalhos para um lugar onde recordaremos o passado sem ansiedade e nos conscientizaremos de que a felicidade não está nos ópios da vida, mas sempre presente, apenas a esperar pelo nosso abraço. Felicidade: esta linda mulher que não vence e nem perde, que não sai vitoriosa e que nunca será derrotada.

– Para onde vais, meu filho?

– Vou até ao fim do mundo, minha mãe. Até ao fim do mundo.

O seu cavalo trotava, deixando, para trás, uma cicatriz temporária, e ele sorria, imaginando um futuro capaz de tudo, menos de ser apenas uma repetição de seu próprio passado.

"Ahamarã, amado por uns, odiado por outros, o que mais esperas?"

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Segundo movimento (Parte 2 de 3)

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ILUSTRAÇÃO DE helton souto

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Nascido no Rio de Janeiro em 1971, ANDRÉ CARRETONI cedo se apaixona pelas artes. Autodidata, aprende música, desenha, segue cursos de teatro, frequenta um curso de cinema, até que escolhe a literatura como meio de expressão. Encontrando afinidades com certos autores expatriados, aos 27 anos decide dar uma reviravolta em sua vida e parte para a Europa, à procura de novas experiências. Vive seis anos em Lisboa, mas sente necessidade de ir além. Faz o Caminho de Santiago de Compostela e se inscreve em um curso de pintura em Florença, onde escreve seu primeiro romance, Piedade Moderna, e conhece aquela que se tornará sua esposa. Sua vida de escritor acabava de começar. Vive dois anos na Suíça, aprimorando seu estilo de escritura. Escreve Mais Alto que o Fundo do Mar, cria sua página na internet (carretoni.com), escreve crônicas para o sítio francês Bonjour Brasil, participa do sítio brasileiro Tertúlia e frequenta o laboratório de escritura criativa do Instituto Camões. Depois de quatro anos em Paris, no encalce da Lost Generation, instala-se em Nice e encontra uma nova fonte de inspiração.

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HELTON SOUTO nasceu em 76. Ribeirão Preto. Casado com Silvana. Cientista social, educador, gerente de projetos na área de educação e juventude, artista plástico e ilustrador. Desenha e pinta desde sempre. Torce para o São Paulo. E seu cachorro se chama Yoda. Blog: Andar na pedra. Contato (Facebook): Helton Souto.

  • 02 - Stealin'

13/12/2014