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O preço e o valor em 2,99 / "2, 99"; "Minda-Au"; "Golegolegolegolegah!"; literatura brasileira contemporânea;

Paulino Júnior

Sou dos que questionam a posição à sombra que o conto é levado pelas editoras de grande porte (e seus setores de markenting), e lamento certa mítica de que um escritor precisa escrever um romance para provar que “tem fôlego”. Mas também sou dos que constatam o quanto o conto segue firme, forte e invocado à revelia da política de mercado. Sobretudo porque existe um contingente de escritores que não dá a mínima diante da advertência (ou quebranto): “conto não vende”.

Marcio Renato dos Santos tem moral para dar mais uma volta no parafuso, pois acaba de lançar seu terceiro livro de contos 2,99 – precedido por Minda-Au (Record, 2011) e Golegolegolegolegah! (Travessa do Editores, 2013). Primeiro título da editora curitibana Tulipas Negras, que já marcou presença com o lançamento em 2012 e 2013 dos bem bolados “livros-conto” – um formato fanzinesco com um único conto de dezesseis autores.

Já apontei em outra ocasião que 2,99 é formado por contos bem humorados que lidam com o absurdo de nossa bela existência com uma galeria de personagens de vidas tão vazias, mas tão vazias, que até a prosa é leve. Aproveito agora para desdobrar a observação e começo pelo título da obra – “2,99” – que, penso, estabelece o parentesco com a popular medida monetária “1,99” e indica algo que nos parece facilmente reconhecível, acessível, e, ao mesmo tempo, não (nos) é.

O insólito aloja-se sorrateiramente e se esgueira ao ponto do leitor se convencer da viabilidade empresarial de um restaurante como Todo Recheio, que:

[...] oferece rodízio de bolachas recheadas. Por R$ 19,90, cada cliente tem direito a comer pelo tempo que quiser, e conseguir, as 32 opções. Há bolachas com recheio de morango, limão, chocolate, leite condensado, goiaba, requeijão, queijo, cheddar, rabanete, entre outras possibilidades.

Deve-se atentar que essa passagem do conto “Conduzido por Minha Pequena Eva” não é criada para despertar o riso fácil e pueril, mas é sintomática em relação aos protagonistas (um homem e uma mulher que se encontram após contatos via Facebook) que tentam reinventar suas vidas insossas.

Já “O segredo da bem-aventurança de Chuni Kuni” é uma história que adverte o quanto o álcool pode ser prejudicial ao ponto do sujeito não conseguir ser tão bem-sucedido “como o Alberto, o Bernardo, o César, o Daniel, o Ferdinando, o Gastão, o Hamilton e outros homens prósperos”. Os paraísos artificiais se confundem tanto mais a vida se resume a bicar pequenas porções de estados de graça.

Também vejo Tolstói em Marcio Renato dos Santos, mais especificamente na orientação “Se queres ser universal, começa por pintar sua aldeia”. Propósito que repercute no conto “A noite está velha”: no Bar Bashô ocorre o concurso semanal de imitadores de Paulo Leminski. Quem será mais realista que o rei? Contarei o final: há um vencedor. Talvez seja mesmo fácil encontrar Leminskis desprovidos de Leminski pela capital paranaense, no entanto, o bovarismo literário pulula aqui e acolá com os Rimbauds, Hemingways, Bukowskis e Pivas de ocasião e em liquidação.

Eu disse que 2,99 era composto por contos bem humorados e devo confessar que faltei com a verdade. Espero me retratar ao aludir dois contos que são fábulas sombrias genuínas de nosso tempo: “No Leblon” e “Jobs”. Sobre o primeiro, veja por si mesmo:

Pronto.

Estou dentro do meu apartamento.

Só consigo ficar em pé aqui.

Mas realizei um sonho antigo. Agora, moro no Leblon. Sim. Na Zona Sul do Rio de Janeiro.

Adquiri um espaço. Comprei um metro quadrado por R$ 21 mil. Vinte e um mil reais.

Investi nesse projeto quase todo o dinheiro que economizei em vinte e um anos de trabalho.

Quer mandar uma carta pra mim? Agora meu CEP é vinte e dois mil.

Numa sociedade em que a expressão “sonho de consumo” acabou por se naturalizar no léxico, tornando-se coordenada no sentido de que a finalidade da vida está em algum ponto entre o hedonismo vago e o fascínio em empreendê-lo à custa de muito esforço, “No Leblon” é a alegoria corrosiva da vida degradada.

“Jobs” é outro dos meus prediletos, um conto feito com golpe de mestre. Pergunto: onde reside o mal em um emprego que consiste no sujeito fazer uma ligação, esperar pelo “sim, sim” e passar o resto do mês sem fazer nada? Um serviço dos sonhos, não? Não para o narrador.

Eis um paradigma da arte do conto, em que revela quanto mais esconde. Basta lembrar a pertinente comparação de Hemingway entre o bom conto e o iceberg, só um oitavo fica visível. E se o submerso depende das inferências do leitor para vir à tona, vejo em “Jobs” a exposição das entranhas de uma nova etapa de exploração no mundo do trabalho, a da captura da subjetividade do “colaborador” – o desespero para se sentir útil. Tanto que o título pode ser de uma sutileza obscena se pensarmos em certa personalidade considerada o “avatar” do capitalismo criativo, aquele que leva Jobs no nome.

Mas tudo isso pode ser apenas coisa da minha cabeça e ainda não falei nem da metade dos dezesseis contos. Talvez em outra oportunidade eu possa retornar ao assunto mercado, contos e icebergs. Por ora, termino com o aviso de que tudo tem um preço, alguns muito altos, mas, no fim das contas, o valor não passa de 2,99.

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MARCIO RENATO DOS SANTOS é autor dos livros de conto Minda-Au (Record, 2010), Golegolegolegolegah! (Travessa dos Editores, 2013) e 2,99 (Tulipas Negras, 2014). Participa com um conto inédito publicado na antologia O livro branco (Record, 2012), na qual 20 autores brasileiros escreveram contos a partir de canções dos Beatles. Tem conto traduzido para o alemão, publicado na antologia Wir Sind Bereit, publicada na Alemanha, em outubro de 2013, pela editora Lettrétage/Verlag durante a Feira de Frankfurt. Nasceu em 1974 em Curitiba, onde vive.

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Ilustrações de HELTON SOUTO

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Foto de LINA FARIA

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PAULINO JÚNIOR é ficcionista. Graduou-se em Letras e concluiu mestrado em Teoria Literária pela UNESP. Seus contos foram publicados em diversos periódicos – com destaque para a revista Coyote nº 24 (inverno de 2012) e Ô Catarina (nº 81, 2014) – e em antologias de concursos literários – os mais recentes foram Histórias de Trabalho 2013 (Coordenação do Livro e Literatura de Porto Alegre) e 8º Concurso de Conto e Poesia (Sinergia/SC). Ademais, teve um conto escolhido como epígrafe para a coletânea de artigos científicos Jovens, trabalho e educação (Ed. Mercado de Letras, 2012). Contemplado pelo edital Elisabete Anderle 2013, da Fundação Catarinense de Cultura, acaba de lançar seu livro de contos Todo maldito santo dia (Ed. Nave, 2014). Vive em Florianópolis desde 2005.

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HELTON SOUTO nasceu em 76. Ribeirão Preto. Casado com Silvana. Cientista social, educador, gerente de projetos na área de educação e juventude, artista plástico e ilustrador. Desenha e pinta desde sempre. Torce para o São Paulo. E seu cachorro se chama Yoda. Blog: Andar na pedra. Contato (Facebook): Helton Souto.

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07/12/2014