)Livros(

A resposta do oceano / "O Oceano no Fim do Caminho" (2013); Neil Gaiman.

Thaís Alberti

O Oceano no Fim do Caminho (2013) é o último romance publicado por Neil Gaiman – que escreveu coisas, literalmente, fantásticas, como Sandman! A história começa com um narrador-personagem contando que estava passando pelas bandas onde morou quando pequeno e decidiu visitar sua antiga casa e, também, a casa de sua amiga de infância, Lettie Hempstock. O protagonista não tem nome e é idiossincrático em tudo o que faz e pensa. Apesar de ser uma história contada por ele já mais velho, ele a conta com seu olhar de sete anos e com toda a inocência que cabe a um narrador com essa idade. A história desenrola-se quando ele entra na fazenda das Hempstocks (avó, mãe e Lettie) à procura de Lettie, e acaba por descobrir que ela não está mais ali. 

Para onde ela foi? Estados Unidos? Não, Austrália. Era isso. Algum lugar bem longe. E não era mar. Era oceano. O oceano de Lettie Hempstock. Lembrei-me disso, e, ao lembrar, lembrei-me de tudo. 

Ele vai perto do lago, senta-se num banco e abre uma grande, enorme, gigantesca analepse (que, você sabe, é um flashback, e este dura a narrativa inteira) para contar a partir do ano em que conheceu Lettie. Aparentemente seus pais passavam por alguma dificuldade financeira e decidiram alugar um quarto para arranjar algum dinheiro extra (obviamente tinha de ser o quarto do nosso protagonista de apenas sete anos, com sua pia feita para sua altura e tudo mais); um minerador de opalas aluga o quarto e, logo que chega, inicia um ciclo de perdas, atropelando o gato do menino com o táxi em que vinha; naquele mesmo dia, o minerador suicida-se dentro do carro da família. É esse evento que faz nosso protagonista conhecer Lettie:

Não existe passar ou ser reprovado em ser uma pessoa, querido.

A partir desse ponto, qualquer coisa pode contar como spoiler, mas são coisas atrás de coisas, sucessivamente, de um modo que você não consegue parar de ler o romance. Basicamente, tudo depende do modo como você enxerga a história. Se lê-la com um olhar adulto, acreditará que é tudo fantasioso e exagerado demais; tudo muito inventando por um doido qualquer, barbudo e grisalho, que não fala nada com nada. Mas se ver a narrativa com o olhar do nosso protagonista de sete anos, e acompanhar as perdas e sofrimentos dele, verá que tudo faz muito sentido; tudo é muito real...

e… ele nunca deveria ter soltado a mão da Lettie naquele primeiro momento.

Neste trecho, podemos perceber que nosso protagonista era já um leitor e que, talvez, suas memórias, sua bagagem literária, fossem a base de sua imaginação e vivência:

Eu não era uma criança feliz, ainda que, de vez em quando, ficasse contente. Vivia nos livros mais que em qualquer outro lugar.

As Hempstock são três: a mãe de Lettie, a avó e, claro, Lettie. Elas têm algum tipo de magia ou poder que, se observado ao longo da narrativa, nunca é usado em conjunto. É sempre uma delas que resolve toda a situação, seja mudando a mente de alguém, seja costurando um buraco no tempo, seja mandando vermes para o devido lugar deles. Em alguma parte do romance é mencionado que as Hempstock vieram da “velha pátria”, mas só Deus sabe o que é isso! Um primeiro episódio, que dá para notar esse comportamento bizarro delas, ocorre logo após o corpo do minerador ser encontrado:

Fiquei me perguntando por que todas tinham o sobrenome Hempstock, aquelas mulheres, mas não perguntei, da mesma forma que nem ousei perguntar como sabiam sobre o bilhete do suicídio ou o que o minerador de opala estava pensando ao morrer. Elas tratavam tudo aquilo com muita naturalidade.

O título do livro é bem curioso e ele é explicado ao fim, quando tudo se costura. Várias coisas são importantes na narrativa: as moedas em todos os lugares, fazendo coisas e pessoas engasgarem; os vermes; as perdas que, ao final, formam um ciclo desde o início até o fim. Na verdade, ninguém deveria agir assim: todo mundo solta-se da mão de alguém e, depois, acorda no meio da noite, engasgado com uma moeda; todo mundo tem uma Ursula no meio do caminho; todo mundo fica meio saudoso quando perde um “gatinho” (;D) e sabe que, não importa quantos venham, nenhum substituirá aquele que já foi embora…     : (      = (       = [

Todo mundo tem seu oceano no fim do caminho (e também sua Lettie).

Era apenas um lago de patos, nos fundos da fazenda. Nada muito grande. Lettie Hempstock dizia que era um oceano, mas eu sabia que isso não fazia o menor sentido.

Logo após a publicação do livro, em 2013, o autor deu alguns depoimentos e, sem dizer muito, deixou subentendido que algumas daquelas memórias eram dele (talvez, por isso, a escolha de não nomear o protagonista); na própria edição do livro, na contracapa, há uma imagem do autor quando criança, o que é mais um voto para a hipótese de que Gaiman poderia ser o garotinho da história, certo? Estamos combinados de que autor é autor e narrador é narrador, certo?

Gaiman afirma que a história era inicialmente um conto, mas quando se deu conta já estava escrevendo um romance, o que não muda o fato de ser uma história que nos faz entrar de cabeça nela, para saber seu desenlace. Sim, já virou meu livro favorito! Não posso deixar de mencionar que o oceano é para o protagonista o que a estrada é para Sal Paradise: coisas se perdem e pessoas se vão, mas o oceano e a estrada sempre continuam...

Nos agradecimentos, ao final do livro, Gaiman diz que “as palavras salvam a nossa vida, às vezes”, e eu poderia dizer de boca cheia que este romance salvou tudo que eu chamo de existir. É uma narrativa sobre perdas – físicas e abstratas – e sobre ver o mundo de uma maneira descomplicada e lúdica, mesmo nessa azáfama cotidiana que nos sublinha.

Quando trabalhei em uma livraria, esse era um dos livros que mais vendiam, pois eu o indicava, quando não o presenteava a todos; inclusive dei minha única e primeira edição – com notas, citações marcadas, sentimentos e tudo – de presente a alguém que tirou o verme do meu pé e não soltou minha mão em momento algum.

— Nada nunca é igual — respondeu ela. — Seja um segundo mais tarde ou cem anos depois. Tudo está sempre se agitando e se revolvendo. E as pessoas mudam tanto quanto os oceanos.

É um excelente romance, de um excelente escritor.

<>_<>

Ilustração de THAÍS ALBERTI

<>_<>

THAÍS ALBERTI nasceu em 1994, em Ribeirão Preto. A filha perdida do Neil Gaiman. Estudante de Letras por ter encontrado Oscar Wilde na adolescência; faz uns rabiscos, que chama de ilustração, nas horas vagas. Mais perdida na estrada do que Kerouac.

  • 10 - Sea Within A Sea

22/11/2014