)Contos(

Os livros não dormem jamais /

André Carretoni

Minha namorada e eu vivemos em Lausanne, na Suíça, e nosso apartamento fica na frente do Museu de Arqueologia e de História da Place de la Riponne. Aliás, não é apenas a fachada renascentista do Palais de Rumine que podemos ver de nossa varanda, mas também os Alpes franceses, o Lago Léman e o campanário de uma catedral do século XIII. Uma vista de tirar o fôlego. Clichê?! Vários! Tenho tirado inúmeras fotos dessa praça e sei que jamais conseguiria repetir o mesmo clichê em dias diferentes, mesmo se quisesse. Fotos em dias de sol, em dias de chuva, em dias de nevasca, de fogos de artifício, de relâmpagos, de arco-íris, de luzes de natal. Um disco rígido cheio.

E tudo ia muito bem até a semana passada, quando descobri que o tal museu também abrigava uma biblioteca. Foi o fim das minhas noites de paz. Agora, no final de cada dia, ao invés de fechar os olhos e tentar dormir, vou pra varanda e solto os cães da minha imaginação, ao tentar imaginar aquilo que deve estar se passando dentro do magnífico prédio.

Estará Hamlet vagando pelos seus inúmeros corredores? A citar o seu famoso monólogo? E numa sala vizinha? Estará o Marquês de Sade se divertindo com a grande e a francesa? Com as Alegres Comadres de Windsor e a Madame Bovary? Culpa minha, a confusão foi armada.

Alice correndo atrás do Coelho Branco, que também estaria fugindo de Robinson Crusoé e de Sexta-feira, que finalmente encontrara a sua família dentro de um calendário.

O Chapeleiro Louco lendo as Portas da percepção; o Alienista esperando Godot; o Príncipe lendo A arte da guerra; Jack, o Estripador, folheando as obras de Freud; e o Jogador, por sua vez, estudando manuais de pôquer.

Siddartha batendo um papo cabeça com Maomé, Jesus e Robert Langdon.

Em uma das torres o Fantasma da Ópera; noutra, o Corcunda de Notre-Dame.

Na cave, o Homem da Máscara de Ferro, as Vinhas da Ira e a famosa máquina de Júlio Verne, pronta para explorar O Inferno de Dante.

Drácula perseguindo o Chapeuzinho Vermelho; a Múmia com medo do calor de Fahrenheit 451; o Grande Irmão de 1984 na sala de vigilância; Oliver Twist sendo acusado do desaparecimento da maçã do Antigo Testamento, impossibilitando Guilherme Tell de acertá-la; e a carcaça de Moby Dick empacando a circulação na ala norte, após ter sido pescado por um Velho cubano.

Raskolnikov pronto para matar o Mercador de Veneza; Macbeth tentando escrever o seu Capolavoro; o Conde de Monte Cristo cavando um buraco para sair na portaria do meu prédio; João Valjean lutando contra Frankenstein; Poliana brincando com Heidi e com os habitantes de Liliput; Dom Corleone tentando se livrar de um Processo; Helena de Tróia fugindo com o Grande Gatsby para os Estados Unidos – e lá iríamos nós para a Guerra dos Mundos.

Dona Flor dando conselhos matrimoniais para Mrs. Dalloway; Gulliver voltando para casa com a ajuda de Os Lusíadas; e os Quatro Mosqueteiros tentando manter uma ordem em tudo isso.

Robin Hood roubando as minas do rei Salomão para dar de comer aos Capitães da Areia; Dorian Gray procurando o seu retrato, que emprestaram, por engano, ao Museu do Louvre; e Ana Karenina passando uma Estação no Inferno, antes de se atirar na frente do Expresso do Oriente.

Três horas da manhã, e ainda estou acordado.

O problema é que, com isso, comecei realmente a dormir mal. Basta ouvir agora um barulho na rua que acordo sobressaltado e fico tentando adivinhar os motivos que geraram tal rumor.

Don Quixote a fazer investidas contra as turbinas eólicas da Grécia? Os terremotos de Richter Nove? O vulcão de Pompéia a entrar em erupção? Dr. Hyde, que virou monstro, a destruir a coleção de bichos empalhados do museu?

Resolvo investigar.

Minha namorada já dorme, o que acho ótimo. Não seria fácil explicar-lhe os meus motivos.

“Aonde você vai?”

“Abrir as janelas do museu para que o Peter Pan possa sair.”

Prefiro não compartilhar meus intuitos com ela – e manter minha dignidade – e saio, à surdina.

A noite está fria. Os carros e os habitantes de Lausanne dormem. Atravesso a rua e a praça e olho para trás. As luzes do meu apartamento continuam apagadas.

Chego ao museu e espreito através de uma janela, mas tudo que vejo são trevas. Esquivo-me de abertura em abertura, mas nada. Começo a meditar sobre o ridículo de minha situação. Que explicações eu daria à polícia para explicar a razão de minha presença? Seria o meu pobre vocabulário da língua de Molière capaz de evitar que eu parecesse ridículo, algo que imagino estar sendo?

E um segundo antes de desistir da louca aventura e voltar para o conforto da minha cama, surpreendo uma pequena luz no interior do imóvel. Uma vela a bruxulear e a circular rebeldemente. Ainda penso em ignorá-la e dar as costas à descoberta, mas sempre fui curioso demais para deixar as coisas em aberto. Resolvo, então, empurrar a janela e qual a minha surpresa ao ver que ela está aberta.

Meu coração bate com toda a força. A adrenalina é lançada em enormes jatos no fluxo da minha corrente sanguínea. Não me esqueço da minha situação de estrangeiro e, com a consciência de poder ser expulso do país, galgo o parapeito da janela e me atiro para dentro. Caio desajeitadamente. Levanto-me nervoso e fecho a janela. Sento-me no canto da sala e rezo para que o barulho não tenha chamado a atenção de alguém.

Depois de alguns minutos de suspense, após ter certeza de que a minha presença ainda estava sendo ignorada, levanto-me e vou até a porta do aposento, por onde vi passar a vela. Coloco a cabeça no corredor, olho para um lado, para outro e nada vejo.

“Alô?”

Digo, desprezando a intransigência do meu ato.

Nenhuma resposta.

Com passos vacilantes, inicio a percorrer o local. Alguns passos, outra porta, olho para dentro, ainda nada. Outros passos, outra porta, ninguém. E a pessoa que estava segurando aquela vela? Onde estará? Contudo, bastou terminar esta frase mental para vê-la aparecer no final de um corredor e começar a vir em minha direção. Não tenho tempo de fugir e nem forças. Minhas pernas se fincam no chão. Será o fim do mistério e... a prisão certa?

A luz se aproxima e percebo que, afinal, não se trata de uma vela. Velas não flutuam. É algo que voa e que resolve passar por mim rapidamente.

Viro-me e corro atrás dela. Faço cada curva que ela faz e entro por cada porta que ela entra, no intuito de agarrá-la. Às vezes deixo de vê-la, mas a sua luz deixa um rasto tão luminoso que meu trabalho é facilitado.

“Sininho?” – grito.

Sininho? Devo estar louco. Todavia, se estou mesmo perseguindo a fadinha, onde estarão os outros?

Paro e a luz vai embora, e, para minha desolação, percebo que não existe mais nenhum outro foco de luz ao meu redor. Tudo está escuro. Nem sei mais onde estou, e, pela primeira vez, temo pela minha segurança. Olho para os lados, não vejo nada e me sinto, afinal, observado – por dezenas, talvez centenas, de olhares.

Estarei no Livro da Selva? Ou no meio da discussão comercial entre Fausto e o Diabo? Ou estarei sendo observado pelos piratas do capitão Gancho?

Engulo seco. Maldita a hora em que me tornei esta pessoa obsessiva e inquisidora. Quando foi? Quando foi exatamente? Quando eu recebi pela primeira vez um livro de presente e não parei de lê-lo até ler o seu final? Ou foi na primeira vez que sonhei escrever um livro? Paixão que despertou em mim o prazer pela maior de todas as viagens: aquela no interior da imaginação?

Escuto uma risada demoníaca, um TIC-TAC crescente, um rumor tão alto que sou capaz de jurar que a península Ibérica está a caminho, ou que Júpiter está se tornando um novo sol. Um cão a ladrar. Um carro ciumento a acelerar. Corvos voando de galho em galho.

“Quem está aí?”

Termino a frase, e alguém segura a minha mão.

“Venha comigo.”

Ela me puxa para fora dali.

Quando, enfim, chego a uma sala iluminada pela luz da rua, vejo que eu havia sido guiado por um menino de cabelos dourados.

“Quem é você?” – pergunto-lhe.

“Você sabe desenhar uma ovelha?”

A criança não para de andar, até que reparo estar na frente da janela por onde entrei.

“Mas...”

“Eu sei” – disse o menino – “Mas é melhor você partir.”

“Eu não posso ficar mais um pouco?”

“Não é seguro.”

“Mas eu sinto que existem tantas coisas para serem lidas aqui!”

“Você sempre poderá voltar quando a biblioteca estiver aberta.”

“Quer dizer que...”

“Exatamente.”

“...”

“não fique triste...”

“Ninguém acreditará em mim.”

“Não se preocupe. A sua missão não é essa.”

“Entendo” – faço uma pausa – “Príncipe...”

“Sim?”

“Obrigado.”

Ele me fita paternalmente e sorri. Pulo para fora do museu e escuto a janela sendo trancada atrás de mim.

Chego a casa e me deito.

“Onde é que você se meteu?”

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Ilustração de HELTON SOUTO

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Nascido no Rio de Janeiro em 1971, ANDRÉ CARRETONI cedo se apaixona pelas artes. Autodidata, aprende música, desenha, segue cursos de teatro, frequenta um curso de cinema, até que escolhe a literatura como meio de expressão. Encontrando afinidades com certos autores expatriados, aos 27 anos decide dar uma reviravolta em sua vida e parte para a Europa, à procura de novas experiências. Vive seis anos em Lisboa, mas sente necessidade de ir além. Faz o Caminho de Santiago de Compostela e se inscreve em um curso de pintura em Florença, onde escreve seu primeiro romance, Piedade Moderna, e conhece aquela que se tornará sua esposa. Sua vida de escritor acabava de começar. Vive dois anos na Suíça, aprimorando seu estilo de escritura. Escreve Mais Alto que o Fundo do Mar, cria sua página na internet (carretoni.com), escreve crônicas para o sítio francês Bonjour Brasil, participa do sítio brasileiro Tertúlia e frequenta o laboratório de escritura criativa do Instituto Camões. Depois de quatro anos em Paris, no encalce da Lost Generation, instala-se em Nice e encontra uma nova fonte de inspiração.

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HELTON SOUTO nasceu em 76. Ribeirão Preto. Casado com Silvana. Cientista social, educador, gerente de projetos na área de educação e juventude, artista plástico e ilustrador. Desenha e pinta desde sempre. Torce para o São Paulo. E seu cachorro se chama Yoda. Blog: Andar na pedra. Contato (Facebook): Helton Souto.

  • 15. Macbeth (Rehearsal)

02/11/2014