)Livros(

No mar do planalto central / "Terra de casas vazias"; André de Leones

Haron Gamal

“Brasília tem umas ruas bem largas — diz Aureliano. Tudo é muito quadrado e muito igual [...] Você se acostuma. Meu pai nunca se perdeu lá. Nem minha mãe. Nem eu.”

Terra de casas vazias, de André de Leones, é um romance em sua maior parte ambientado em Brasília. Seus personagens, ao contrário do que afirma Aureliano quando garoto ao seu primo Arthur, vivem perdidos e, mesmo que se desloquem continuamente, não conseguem encontrar-se. O fato de a história se desenrolar em Brasília durante boa parte da narrativa é bastante auspicioso, porque a cidade, quase sempre renegada por intelectuais, escritores e mesmo por políticos, torna-se também uma excelente personagem. E por mais que o narrador se refira a ela como “um apocalipse higiênico”, não é isso que ele próprio representa. Retomando a tradição do romance urbano brasileiro, a capital, com todas as contradições que os grandes centros apresentam, mostra-se humana, e há Aureliano a amá-la na sua fala de menino, a dizer à mãe, quando os pais estão prestes a separar-se, que não quer mudar-se para Goiânia.

André de Leones ambienta a narrativa também em outras cidades, todas se identificando com o momento retratado. Passeamos por Silvânia, onde nasceu o próprio autor, São Paulo, Goiânia e até Jerusalém, local em que o romance termina. Mas é Brasília que fica como âncora. Tanto é verdade que, numa das cenas finais do livro, enquanto Arthur fotografa o Mar Morto, em Israel, a sombra de Brasília ainda lhe turva a visão; sua mulher é quem diz: “O mar da Galileia não me interessa, [...] Arthur fotografava o nada diante de si”.

A narrativa é dividida em cinco partes, todas elas correspondendo às cidades percorridas. Brasília ocupa duas partes e mais um trecho da parte final, numa espécie de narrativa intercalada. Estes cenários têm como protagonistas pelo menos quatro casais, cujas vidas entrecruzam-se. A trama envolve perdas, solidão, traições, corrupção, doença, loucura e um amor homossexual entre duas mulheres.

Além de todo esse itinerário narrativo e mesmo poético, o que deixa o leitor intrigado são as marcas da violência que também fazem parte deste livro de ficção. E a ficção acaba por espelhar a realidade. A periferia de nossas grandes cidades é um bom exemplo disso. Toda essa violência despertará em Aureliano, quando menino, o desejo de ser policial. E ele cumpre a sua palavra. Mais tarde, como uma espécie de inspetor de polícia, ele nos proporcionará histórias curtas que, mesmo sem fazer parte diretamente do romance, mostrar-se-ão bem urdidas, muito contribuindo para o enriquecimento da narrativa e para a construção do personagem.

A memória
O ponto alto do livro é a memória, e talvez seja o que autor melhor saiba trabalhar em todo o romance. A obra de André de Leones poderá vir a se firmar caso o autor aproveite este filão. Um bom exemplo disso está na terceira parte. O narrador volta ao tempo em que Arthur é apenas um menino e está naquela fase turbulenta entre o final da infância e o começo da adolescência. O garoto vive com os pais em Silvânia, e se esconde dentro de um armário. O local funciona como uma espécie de refúgio do resto do mundo. Ali, mergulhado em pensamentos, ele reflete sobre a mãe, sobre o pai, sobre o casamento desastrado entre ambos. Considera a possibilidade de um futuro melhor para si próprio. Num determinado dia, o primo chega para passar uns dias com a família, o menino desembarca sozinho para uma espécie de férias, enquanto seus pais resolvem a respeito da separação. Este é o momento mais pungente da narrativa. O flashback apresenta ao leitor as dúvidas dos dois garotos, Arthur e Aureliano, suas esperanças e tentativas de entender o mundo dos adultos. Na sequência de chegada, o narrador introduz um passado ainda mais remoto, apresentando uma foto da mãe de Arthur na praça que existia ali antes da construção da pequena rodoviária: “sorriso aberto não para a máquina, mas para aquele que segura a máquina, talvez já estivessem de casamento marcado”, mais adiante: “Arthur gosta de fuçar nos armários da casa, pegar as caixas onde guardam as fotografias antigas e observá-las uma por uma, os cabelos, as roupas, as calças boca de sino, a ideia assombrosa de um tempo em que ele ainda não existia”. Aureliano, enfim, desembarca e, segundo o pai de Arthur, não parece estar em lugar algum, pois transmite uma estranheza e acanhamento que revelam a dificuldade do seu estar no mundo. Durante a convivência entre os dois meninos, esta discussão será aprofundada.

Dispersão
O que se pode criticar no livro é certa dispersão em relação aos personagens. O romance, apesar de sempre estar ancorado no casal Arthur e Tereza, traz à tona vários personagens que, com seus dramas, tornam-se tão importantes quanto os protagonistas. As explicações que antecedem cada uma das partes do livro também se mostram desnecessárias e um tanto didáticas, não permitindo ao leitor fazer suas próprias descobertas.

Outro ponto que se dilui na narrativa é um conto atribuído à personagem Marcela A., escritora brasileira que, assim como o casal Arthur e Teresa, também passa uma temporada em Israel. A pequena narrativa ambientada parte na Rússia, terra de origem de Dúnia, a protagonista, parte em Israel, não se encaixa dentro do romance, e a única questão que apresenta é o papel secundário da mulher nas sociedades russa e israelense. A autoria pretensamente feminina pode envolver André de Leones numa desnecessária polêmica sobre o papel das escritoras brasileiras e o lugar delas na nossa literatura.

Conflitos humanos e a psicologia de cada personagem são questões sempre discutidas pelos romancistas brasileiros da atualidade. Sabe-se que a grande literatura passou a ser chamada assim porque seus autores souberam apresentar e especular com maestria os conflitos da alma humana. Vemos isso desde Dante, passando por Shakespeare, desaguando num Dostoievski, num Machado de Assis, num Tolstói e mesmo em James Joyce, entre outros. Portanto, desenvolver este tema na literatura brasileira de hoje requer maturidade, aprofundamento e vagar, para que a obra não empalideça diante dos grandes clássicos, requintados especuladores da natureza humana.

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Este texto foi publicado originalmente no Jornal Rascunho e publicado no Tertúlia com autorização do autor.

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Ilustração de HELTON SOUTO

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HARON GAMAL é autor de Estrangeiros: o anfíbio cultural na prosa brasileira de ficção (2013), publicado pela Ibis Libris, e de Magalhães de Azeredo (2012), edições da ABL (Academia Brasileira de Letras), série essencial. Tem doutorado em literatura brasileira pela UFRJ. É professor de literatura da Fafima (Faculdade de Ciências e Letras de Macaé) e professor de português do Estado do Rio de Janeiro. Leciona português e literatura para o Ensino Médio. Colabora no JB online, no Globo e noRascunho, onde esta resenha foi originalmente publicada. Tem um blog (harongamal.blogspot.com).

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HELTON SOUTO nasceu em 76. Ribeirão Preto. Casado com Silvana. Cientista social, educador, gerente de projetos na área de educação e juventude, artista plástico e ilustrador. Desenha e pinta desde sempre. Torce para o São Paulo. E seu cachorro se chama Yoda. Blog: Andar na pedra. Contato (Facebook): Helton Souto.

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25/10/2014