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Violetas perenes / "Violeta velha e outras flores"; Matheus Arcaro

Renato Alessandro dos Santos

Matheus Arcaro é multifacetado: trabalha com publicidade, dá aulas de filosofia, pinta, faz poemas e, agora, publicou um livro de contos. Não é pouca coisa para quem está ainda na casa dos 30. Sem contar que está sempre lendo alguma coisa, porque não dá para não ler ao menos uma linha por dia, como diz o pensamento secular.

Violeta velha e outras flores não é um livro de contos em que a prosa se faz de engraçada ou de maniqueísta. Matheus Arcaro, decerto, vinha carregando esses contos há muitos anos, porque a gaveta, ou a HD, ainda são dois ótimos lugares para se deixar o texto maturando, enquanto não chega o tempo que lhe cabe, quando recebe como prêmio o ponto definitivo, algo que veio a acontecer aqui, em Violeta velha e outras flores: nenhuma vírgula fora do lugar, léxico enxuto, temática coerente com a forma, enfim, trata-se de um livro que levou tempo para sair do forno e que, agora, chega para receber do leitor seu aval e suporte para se preservar vivo, lido, discutido, como tem de ser.

O livro começa com a história de um menino que se descobre à mercê de um irmão mais velho não muito preocupado com ele (“Casulo rompido”), segue com um adolescente que mantém um teclado em que as notas soam mudas, porque ele não faz questão de ligar o instrumento (“Teclado”); passa pelo fluxo de consciência bem executado, com um personagem que tem de pagar a prestação da moto (“Maquinando”); acompanha a amizade interrompida pela violência do suicídio (“Ausência confirmada”), com palavras que sabem registrar a dificuldade dessas horas terríveis:

Ele engole o desgosto, enxuga os olhos com os punhos do casaco e, com as pernas zonzas, corre para o centro do palco. Como a viúva que levanta o véu do caixão para o beijo derradeiro na boca frígida, as cortinas se abrem. A cadeira vazia reflete sua alma. Sob a luz cônica, os ombros curvados e os braços estendidos ao longo do tronco cediam-lhe um aspecto primitivo.

Há mais: um casal que vive um impasse em relação a seu futuro (“Pés de barro”); a rotina desbotada daqueles que se esforçam em levar adiante relacionamentos com data de validade vencida (“Até que a morte os separe”); um personagem kafkaniano, isolado em seu quarto, atento a um pássaro e a quatro árvores que lhe dão, até certo ponto, um porquê de estar vivo (“À beira do abismo”); o acerto de contas de um namorado, por meio de uma carta arrivista, em que o ordinário, o medíocre, o comum do dia a dia bem que poderia ser deixado para trás (“Sentido”):

Com o mundo sobre as costas, tu te conformas com o alívio de tirar o sapato ao fim do dia. Não te passa pela cabeça que possa ter algo de sensato em eu não querer usar sapatos apertados? Que eu prefira dançar a correr?

E mais: no conto-título, um pai se vê obrigado a suportar o descaso e o desrespeito do filho, que não está nem aí para ele (“Violeta velha”); uma garota de futuro promissor que, após entrar na faculdade pública, descortina o universo eufórico e sedutor das drogas: maconha, cocaína, crack, heroína, enfim, tudo o que pode fazer da vida da protagonista um embate finito entre ela e suas muletas (“Alice”), neste que é um dos melhores contos do livro, que segue, sem dar as costas à verossimilhança, retratando a vida de personagens comuns e incomuns, mas sempre à beira de situações-limite que cabem no mundo dos contos.

A estrada esparrama-se em altas esferas diante do autor.  É um livro de estreia promissor.

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A seguir, leia entrevista feita com o autor, por e-mail, nesta semana.

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TERTÚLIA – Violeta velha e outras flores é seu primeiro livro publicado, ou seja, seu “primeiro sutiã”, como dizia aquela velha propaganda premiada da TV. Sempre há um certo ar romântico por trás da publicação do primeiro livro, ainda mais quando se tem tão pouca idade, 30 anos, como é o seu caso. Mas a julgar pela leitura de seus contos, você não parece deixar-se enganar por uma certa ilusão romântica juvenil e, em vez disso, opta em analisar e criticar a peleja e a crueldade da vida. Nesse sentido, é possível afirmar que em Violeta velha e outras flores há um diálogo incessante entre filosofia e literatura, diálogo que vai além do romantismo juvenil e que, por isso, apresenta-se mais maduro, sério e crítico?

Creio que minha formação filosófica tenha contribuído para a maturidade dos textos, como você mesmo disse, Renato. Contudo, vale ressaltar que é muito comum que excelentes teóricos ou pensadores não se deem bem quando se põem a fazer literatura. Por isso, creio que minha outra formação, em História da Arte com ênfase em literatura, tenha me dado o suporte para propor esse diálogo entre Filosofia e Literatura, para que eu não caísse em textos teóricos, desconectados de uma narrativa consistente. Mas creio que os maiores ensinamentos vieram com os grandes artistas das palavras, tanto na poesia quanto na prosa.

TERTÚLIA – Seus contos acabam ligando-se, numa afinidade sutil, temática e linguisticamente, como bem notou o crítico Paulo Bentancur. Pensando nos 22 contos do livro, e por ser a filosofia sua formação original, gostaria de saber se você procura criar sua ficção estruturando-a com base na teoria da literatura, que, a princípio, tem o papel de iluminar o texto.

Não há essa preocupação a priori. Como bem notou Immanuel Kant teoria, prática e juízo estético, apesar de manterem relações, são esferas distintas do conhecimento. Tanto é que não faz muito sentido artistas teorizarem sobre suas obras. Isso me traz à mente uma anedota do Mário Quintana: “Quando alguém pergunta a um autor o que este quis dizer, é porque um dos dois é burro.” Entretanto, não é plausível afirmar que seja dispensável a teoria. Para quem se propõe a fazer alta literatura é fundamental conhecer Aristóteles, Roman Jakobson, Roland Barthes, Tzvetan Todorov, Antonio Candido entre tantos outros. Isso porque, sem base teórica, pode-se escorregar para um relativismo estético, flexível a ponto de rotular de poeta aquele que simplesmente rima “amor” com “dor” ou descreve razoavelmente cenas bucólicas.

TERTÚLIA – Em seu livro, há referência a autores como Franz Kafka, Albert Camus, Clarice Lispector, Guimarães Rosa e outros. Sei que é um leitor de Nietzsche também e há, na densidade de seu estilo, uma espécie de fusão de todos esses autores. Acredita que são esses os autores que mais influenciam seu trabalho em Violeta velha e outras flores ou há outros?

Michel Foucault afirmava que o ser humano é uma coleção de discursos. Creio que os escritores que você citou, mais do que influências, são parte de mim. Não há como fugir: mesmo as pessoas que sequer têm noção disso são forjadas discursivamente. Sobre os autores que me habitam, ainda menciono, no âmbito da filosofia, o próprio Foucault, além de Espinosa, Heidegger, Sartre e o pré-socrático Heráclito. Na literatura, em poesia, Rimbaud, Fernando Pessoa, Drummond, Bandeira e Manoel de Barros. Na prosa, Flaubert, Dostoievski, Proust, Machado de Assis (o homem que inventou o Brasil), Borges, Joyce, Beckett, Faulkner, Saramago e Mia Couto.  Vale dizer também que a literatura em geral (e a minha em particular) mantém estreito diálogo com as outras artes. Se tomarmos meu conto “À beira do abismo”, por exemplo, podemos pensar em Dali ou Magritte. Já em “Maquinando”, é o cubismo de Picasso que vem à mente, que, por sua vez, tem como ponto de partida o esfacelamento do sujeito esboçado por Freud. Isso me faz crer que as relações estão postas em potência, basta sabermos atualizá-las.

TERTÚLIA – Diferentes entre si, em linguagem e temas – “Maquinando”, em que usa o fluxo de consciência, “Violeta velha”, com sua descrição realista, desbotada, amargurada de um pai decepcionado consigo mesmo e com o filho indolente e de caráter leviano, e “Alice”, em que anota a decadência de uma universitária envolvida com drogas, – esses três contos voam bem alto e, com isso, quero dizer que se trata de uma literatura admirável. Por que optou pelo fluxo de pensamento em “Maquinando” e pelo registro realista e cirúrgico de “Violeta velha” e “Alice”?

Em “Maquinando” o próprio ritmo angustiante e claustrofóbico de uma cidade grande exigia o fluxo de consciência. Essa vida atribulada que levamos (como se fôssemos imortais, diria Heidegger) é caótica como caótico é o pensamento (ninguém pensa com vírgula ou ponto final). Já em “Violeta velha”, quis fazer um retrato da vida dura de um pai que sofre com a violência do filho e, para isso, achei por bem uma linguagem dura, marcada, mas poética. Por quê? Porque acredito que, se a alegria é bela, a tristeza é sublime. Algo semelhante acontece com “Alice”, anti-heroína recortada das fábulas infantis e transportada para um contexto decadente. Borges dizia que há cinco ou seis temas universais da literatura. A diferença entre um grande escritor e um escritor razoável está na maneira que o primeiro conta a estória. Por isso, tenho para mim que literatura é predominantemente forma: o “como” sobrepondo-se ao “o quê”. E por isso, desde as minhas primeiras produções, me empenho em trabalhar cada frase como um ourives.

TERTÚLIA – Para encerrar, Matheus, gostaria que você mencionasse dois ou três contos de outro(s) autor(es) que são para você dois ou três dos melhores contos que já leu até hoje e, claro, qual o porquê dessas escolhas. Além disso, e nessa mesma toada, gostaria que sugerisse dois ou três contos que são os seus prediletos em seu livro, e, também, o porquê de tê-los escolhido.

Quanta responsabilidade! É impossível não pensar nos mestres do gênero, quatro em especial: Edgar Alan Poe, Katherine Mansfield, Anton Tchekhov e Guy de Maupassant. Mas, para citar os contos, vou me ater a autores nacionais. Começo com quem talvez mais tenha me influenciado: Clarice Lispector. Dela, dentre os muitíssimos que poderia escolher, trago “Amor” e “O búfalo”, os dois pela poeticidade na prosa e profundidade com que trata a condição humana. O segundo autor é um tal de João Guimarães Rosa, responsável simplesmente por reinventar a língua portuguesa. O conto que destaco é “A terceira margem do rio”, pela intersecção entre linguagem visceral e enredo tocante. Faço menção também a Raduan Nassar, com o conto “Aí pelas três da tarde”, um dos poucos (talvez o único) narrado em segunda pessoa. Por fim, mas não menos importante, reverencio Machado de Assis. Destaco “O espelho”, pela construção das personagens e do ambiente de suspense. É impressionante como Machado consegue, abusando da ironia sem perder a sutileza, pegar o leitor pela mão e carregá-lo ao final do conto para, ali, deixá-lo boquiaberto. Sobre os contos do meu livro, me sinto como a mãe que, por culpa, não assume aos outros gostar mais de um filho que de outro, mas lá no fundinho tem suas preferências. Respondendo, então, como madrasta: “A fúria sem som”, pela estrutura polifônica e densidade do enredo (atributos que lhe renderam prêmio em Paraty); “Visita”, por ser tristemente comovedor, e “Condenado à liberdade”, pelo teor filosófico (existencialista) que convida o leitor à reflexão.

Sobre o autor:

MATHEUS ARCARO nasceu em 1984 em Ribeirão Preto, onde vive atualmente. É graduado em Comunicação Social e também em Filosofia e pós-graduado em História da Arte. Atua como diretor de criação publicitária e como professor de Filosofia e Sociologia em cursos pré-vestibulares. Desde 2006 tem artigos, contos e poemas publicados em veículos regionais e nacionais. Violeta velha e outras flores é seu primeiro livro publicado (Patuá). Nas poucas horas vagas, arrisca-se ainda como artista plástico. No Facebook: Matheus Arcaro.

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Ilustração de HELTON SOUTO

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RENATO ALESSANDRO DOS SANTOS, 41, é professor do curso de Letras do Centro Universitário Moura Lacerda e dos colégios Semeando e Objetivo. Faz doutorado em Estudos Literários na UNESP, de Araraquara, e é autor de Mercado de pulgas: uma tertúlia na internet (Multifoco) e da dissertação A revolução das mochilas: de On the road à lenda de Duluoz – a literatura beat de Jack Kerouac. É editor de Tertúlia. Contato: realess72@gmail.com. Facebook: Renato dos Santos Santos.

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HELTON SOUTO nasceu em 76. Ribeirão Preto. Casado com Silvana. Cientista social, educador, gerente de projetos na área de educação e juventude, artista plástico e ilustrador. Desenha e pinta desde sempre. Torce para o São Paulo. E seu cachorro se chama Yoda. Blog: Andar na pedra. Contato (Facebook): Helton Souto.

 

 

  • TITAS TITÃS - Flores

18/10/2014