)Livros(

Pulp fiction / "A última vítima"; Dan Barton; romance policial;

Renato Alessandro dos Santos

Difícil achar justificativa diante de algumas leituras que, vez ou outra, fazemos. Agora, estou envolvido com um romance policial que trata de um assassino que enterra as pessoas... vivas. O romance chama-se A última vítima; seu autor, Dan Barton. A edição é de bolso e é de 1989. A editora chamava-se Nova Cultura, que nem mais existe, imagino. Trata-se na verdade de um desses romances que eram vendidos em bancas de revistas, em papel jornal, vagabundos até não poder mais, mas que circulavam por todo o país. A pergunta, então, é: por que ler A última vítima, enquanto A divina comédia espera impaciente na prateleira de livros?

E eu tenho uma resposta muito pessoal a esse respeito.

Já li A última vítima duas vezes na minha vida. Gostei de lê-la aos 17 e, depois, aos 25. Desde então, minha edição está emprestada, lá na casa do meu primo, há 17 anos. Como o livro, após esse tempo, não mais me pertence, encomendei outra edição (idêntica à anterior) na Estante Virtual, paraíso bibliomaníaco na internet. Dias depois, o livro chegou e, como a ocasião era propícia para um livrinho, lá me vi lendo páginas e páginas do romance.

Dizem que a experiência de leitura de uma pessoa que leu D. Quixote em várias fases da vida é impressionante; obviamente, não se pode dizer o mesmo com um romance como A última vítima. Não, o romance não é ruim. Pelo contrário. Mas é que nenhum outro nunca será D. Quixote. Então, por que ler uma pulp fiction como essa? Talvez para resgatar uma dessas leituras perdidas dentro da gente; talvez para reler um bom romance, desses que, como o primeiro sutiã, a gente nunca esquece… talvez pela eletricidade que há nas letras desses livrinhos que deixa toda a gente acordada até tarde da noite. De qualquer forma, dane-se o motivo; interessa mesmo é o prazer; nunca, a obrigação da leitura.

O herói é John Stratton. O rapaz é médico. O motivo de ter perdido o emprego de médico-legista foi por causa do flerte com cocaína e com maconha, por um bom motivo, diga-se. Por um “bom motivo”, lê-se: há uma queda de um avião; 500 pessoas morrem; trabalhando sem descanso, nessas circunstâncias, um médico oferece a Stratton a fadinha latina, que não foi recusada e… Desde então, a velha história: o vício diário, com a muleta sempre a poucos metros de distância. Já o motivo de ter perdido o emprego seguinte, numa clínica particular, foi por se desentender com um dos médicos. Então, desempregado, John passa a matar o tempo investigando a morte de uma ex-namorada que, veja você, havia sido enterrada viva! Quem descobre o corpo da garota é o próprio John (!), após atender a uma emergência no dia anterior a sua dispensa da clínica. Um operário, cavando um buraco, encontra uma grande caixa; ao abri-la, por insistência de John, eis que o corpo em decomposição é encontrado. O corpo é da mulher que o médico namorara dois anos antes.

Aos poucos, a história vai dosando seus ingredientes mágicos, aqueles que fazem os leitores debruçarem-se entusiasmados sobre um livro, e, com um pouco de mistério aqui, com uma colher de curiosidade ali, a história segue chamando a atenção. John chega até a irmã gêmea de sua ex-namorada. Olhos azuis, ruiva, 33 anos. U-lá-lá. Um metro e oitenta de altura. Está formado o par romântico, elemento essencial nas melhores histórias do gênero. Não fica só nisso: há uma maldição na família da moça, mas ela não sabe disso. Como a irmã, ela foi adotada sem que soubesse nada dos pais biológicos. A maldição acompanha a família há séculos. Trata-se de banshee, espírito que Jorge Luis Borges destacou em seu O livro dos seres imaginários.

Dan Barton é um romancista que maneja com cuidado seus botões. Mas vez ou outra, ele escorrega. Lá pela página 80, ao falar ao telefone com a irmã da ex-namorada, com quem nunca conversou, John marca um encontro com a moça para falar sobre os pais verdadeiros dela. A garota reluta, mas acaba concordando em se encontrar com o maganão. Ela lhe diz altura, cor dos olhos, dos cabelos, ou seja, a descrição arrebatadora do pacote. A pergunta é: por que perguntar como a moça é, se ela é a irmã gêmea de sua namorada? Coisas assim comprometem um romancista. Mas o buraco aqui é mais meridional, e o buraco tem nome: entretenimento. Puro e simples.

Por que continuar lendo a história? Porque Dan Barton sabe contar uma história, e você sabe: essa é uma das grandes virtudes que um romance deve ter.

 

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Ilustração de STÊNIO SANTOS

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RENATO ALESSANDRO DOS SANTOS, 41, é professor do curso de Letras do Centro Universitário Moura Lacerda e dos colégios Semeando e Objetivo. Faz doutorado em Estudos Literários na UNESP, de Araraquara, e é autor de Mercado de pulgas: uma tertúlia na internet (Multifoco) e da dissertação A revolução das mochilas: de On the road à lenda de Duluoz – a literatura beat de Jack Kerouac. É editor de Tertúlia. Contato: realess72@gmail.com. Facebook: Renato dos Santos Santos.

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STÊNIO SANTOS nasceu em São Joaquim da Barra, interior de São Paulo. Desenha desde que se conhece por gente. Ainda não é formado em Design, mas pretende ganhar a vida com isso. Gosta de quadrinhos (principalmente os escritos pelos autores Alan Moore e Neil Gaiman) e mangás, de filmes e de literatura. Facebook: Stênio Santos.

  • 02 - First Kiss

05/10/2014