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"Doolittle": 1989-2014, 25 anos depois, Pixies... /

Alexandre Dantas

Como a grande maioria que curte música sabe, não teria existido Nirvana sem o Pixies. Senão vejamos. Kurt Cobain certa vez revelou: “Eu tentava escrever a canção pop por excelência. Mas que nada, na verdade tratava de roubar coisas do Pixies. Tenho que admitir. A primeira vez que escutei a banda, me senti tão identificado que achava que deveria fazer parte dela ou, pelo menos, de uma banda que fizesse covers do Pixies. Com o Nirvana, tomamos seu sentido e dinâmica: uma parte suave e tranquila e outra forte e potente”. Isso bastaria para qualificar o status do Pixies como uma das mais geniais bandas desse planeta. Mas há muito mais, como por exemplo, o fato de o Pixies ter gravado excelentes álbuns, repletos de guitarras ligeiras, melodias grudentas e letras bem construídas.

Formado por Black Francis, nas guitarras e nos vocais, Joey Santiago, na outro guitarrista, e mais a baixista Kim Deal e o baterista David Lovering, o Pixies gravou álbuns essenciais, executando uma sonoridade que misturava elementos do punk rock, surf music, noise guitar e pitadas pop. Fiquemos, então, com Doolittle, a obra-prima do Pixies. Lançado em 1989, pelo selo inglês 4AD, o álbum traz como temas principais a violência, a dor e a rejeição, tendo como norte musical um som limpo, simples e extremamente melódico.

O álbum começa com “Debaser”, totalmente inspirado no filme Um Cão Andaluz (Un Chein Andalou), de Luís Buñuel e Salvador Dali (com a famosa cena da navalha cortando o olho). Ali, sob um baixo e um riff de guitarra soberbos, mais o vocal amalucado de Francis, o cantor relata a experiência de ter assistido ao tal filme de Buñuel: "Fatiando os globos oculares... ha ha ha ho! Não sei de você, mas eu sou um 'chien andalusia'. Quero crescer para ser um pervertedor." Na sequência vem “Tame”, mantendo o mesmo pique que a anterior. Baixo e vocais de enlouquecer, com Francis e Deal gemendo, culminando num orgasmo ruidoso. Confira! É exatamente isso que acontece ali. A terceira música, “Wave of Mutilation”, retrata uma situação que acontecera no Japão anos antes: um número significativo de empresários de sucesso se matou com a família, dirigindo o carro em direção ao mar, devido à vida estressante do mundo urbano. Saquem a letra: “Paro de resistir e me despeço, dirijo o meu carro rumo ao oceano, vocês pensarão que estou morto mas eu velejo para longe numa onda de mutilação, numa onda, numa onda”. São poucos mais de 2 minutos de puro brilhantismo rock. O que comprova que não se precisa de muito tempo para expressar qualidade, e isso o Pixies sempre teve de sobra. São três músicas incríveis! E isso é apenas o começo do álbum!

Na sequência vem “I Bleed”, que começa com um baixo e uma guitarra despretensiosos para ir ganhando força até explodir em um todo conexo e vibrante. Mais uma vez a poesia – singular – de Black se faz presente: "Alto feito o inferno, um sino toca atrás do meu sorriso, sacode meus dentes e, esse tempo todo, enquanto os vampiros se alimentam, eu sangro". O interessante dessa música é acompanhar o vocal de Kim Deal sob o de Francis, em alguns momentos não sincronizados, o que torna a canção mais legal ainda. “Here Comes Your Man” é sinônimo do que uma canção com voz + guitarra + baixo + bateria deve ser. Ela pode ser considerada um modelo de como se faz uma excelente canção pop rock. O que sei é que é outra canção do cacete. “Monkey Gone to Heaven” (para mim, a mais legal do álbum) é formada por um refrão ganchudo, além de ser extremamente melódica, composta por celos, pelo backing vocal de Kim Deal e por uma letra do caramba, que fala sobre natureza, numerologia e apocalipse. Logo em seguida vem um ska/rockandroll divertidíssimo: “Mr. Grieves”. Haja fôlego!

E quando se pensa que as coisas poderiam começar a decair, há mais sete músicas da melhor qualidade. Para ficar com algumas: “La La La Love You”, que é uma canção idiota (propositalmente) sobre um amor idiota, que começa com uma bateria vigorosa para dali seguir um riff de guitarra e um despretensioso assobio, tudo extremamente grudento e delicioso; “Hey” (que tem um dos baixos mais legais de TODOS OS TEMPOS) na qual um Black Francis canta “Hey, venho tentando te encontrar, hey, tem que ter um demônio entre nós, ou vadias na minha cabeça, vadias na minha porta, vadias na minha cama mas, hey, onde você esteve, se você for [embora], com certeza eu morrerei, estamos acorrentados”. O álbum termina com “Gouge Away”, uma versão “pixiana” para a história de Sansão e Dalila.

Eu poderia passar mais linhas e linhas escrevendo sobre Doolittle. Porém, penso que já é um bom começo para você ir atrás desse álbum, que até hoje, 17 anos depois, é motivo de norte, inspiração, cópia etc. para uma grande geração de bandas.

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Ilustração de HELTON SOUTO

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ALEXANDRE DANTAS é pai do João e do Pedro, apaixonado por música (especialmente rock), palmeirense, sociólogo e professor universitário.

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HELTON SOUTO nasceu em 76. Ribeirão Preto. Casado. Desenha e pinta desde sempre. Graduou-se em Ciências Sociais. Foi arte-educador. Foi professor de História. Trabalha em ONG, com educação e juventude. E não parou de desenhar e pintar. Blog: Andar na pedra. Contato (Facebook): Helton Souto.

  • 01 Debaser

  • 05 Here Comes Your Man

27/09/2014