)Livros(

Nos ombros do Everest /

Renato Alessandro dos Santos

Se você chegasse ao topo do mundo, quanto tempo ficaria lá?

Calma. Não responda ainda. Leve em consideração que, nesse dia, o dia em que quase tocou com o dedo-do-meio o teto da Terra, o tempo estava muito ruim. Eleve esse tempo abissal ao cubo. É que, justamente nesse dia, o dia em que você sentou-se sobre os ombros de um gigante, o céu ficou lá com aquele mau humor lascado e com raivoeiro: raiva do gigante e de você; sim, de você: com as sobrancelhas espremendo ventanias, raios & lagartixas, o céu esbravejou exclusivamente a vocês 2, lançando cobrinhas, tachinhas e caveirinhas de histórias em quadrinhos em sua direção.

Para chegar lá,  você precisou de meses de preparação física e mental e não se esqueceu de levar uma máscara de oxigênio, porque o ar lá em cima é raro, ou melhor, rarefeito. Ainda bem que não sofreu uma hipoxia, embora com o corpo exaurido, tenha sido carregado por alguma pessoa de boa vontade, que estava tão cansada como você. Teve alucinações, ou acredita mesmo, até hoje, que ficou conversando com aquele alpinista? Seu cansaço era tanto que raciocinou de forma mais lenta, enquanto caminhava como um caracol. Percebeu? Fisicamente, algumas extremidades de seu corpo ficaram danificadas para sempre: você nunca mais terá aquela ponta arrebitada do nariz, nem mesmo suas mãos serão as mesmas. Não lamente: poderiam ter sido amputadas. Nunca saberá o porquê da briga entre o céu e a terra, naquele 10 de maio de 1996, mas jamais se esqueceu dos ventos que fizeram a temperatura baixar para 71º negativos. -71! Banho? Tomar banho? Que história é essa?!

Então, se você chegasse ao topo do Everest, quanto tempo ficaria lá?

Deusa & mãe do céu & da Terra

Um dia, li a manchete do caderno de notícias internacionais do Estadão, de 9 de agosto de 2008, que dizia: “Alpinistas relatam horas de pânico no K2”. Uma placa se soltara e, na avalanche que se seguiu, onze alpinistas morreram. Li a reportagem, escrita por Graham Bowley e Andrea Kannapell, do New York Times, e (fascinado) fui até a estante e peguei No ar rarefeito. O impacto que a leitura da obra tem sobre o leitor é enorme. Não é para menos. O que era para ser uma escalada difícil ao cume da montanha mais alta do mundo tornara-se uma tragédia de proporções alarmantes; o que em outras palavras significou a morte de oito alpinistas, e, dentre eles, alguns dos mais experientes especialistas em Everest.

Jon Krakauer ficou menos de cinco minutos no alto do outeiro tamanho GG e sobreviveu para contar por que ficou tão pouco. A leitura de uma passagem de No ar rarefeito - um relato da tragédia no Everest pode oferecer a dimensão e o impacto da tragédia. Estamos na página 198 e lemos:

"A essa altura, o frio praticamente já acabara comigo", diz Charlotte Fox. "Meus olhos estavam congelados. Eu não via como iríamos sair dali vivos. O frio era tão doloroso, não achava que fosse aguentar nem mais um minuto. Eu me enrolei como uma bola e torci para que a morte chegasse depressa." 

Em termos práticos, alcançar o topo do Everest, é como ficar sentado sobre uma nuvem e, ao olhar para baixo, descobrir que se está a quase nove quilômetros acima do mar. Tem 8848 metros ou 29028 pés. A montanha é chamada de Sagarmatha pelos nepaleses, que significa “deusa do céu”, enquanto para os tibetanos é Chomolungma, a “deusa mãe do mundo”. “De pernas abertas no topo do mundo, um pé na China, outro no Nepal, limpei o gelo de minha máscara de oxigênio, curvei o ombro para me proteger do frio e fixei o olhar distraído na vastidão do Tibete”, escreve Jon Krakauer no parágrafo inicial de No ar rarefeito,  em 1996, ensaio cujo título já oferece ao leitor o que está por vir.

Atingir o cume do Everest é um sonho que muitos alpinistas carregam até conseguir colocá-lo em prática, num esforço que consome, em condições difíceis, não apenas o alpinista em si, mas, como em um redemoinho, as pessoas ao redor, que, com um passo em falso, podem desaparecer para sempre. Montanhistas que atingiram o alto do Everest são obrigados a levar a montanha aonde quer que vão; afinal, trata-se de uma experiência-limite levada às últimas conseqüências e que faz a vida transformar-se em um antes e depois do Everest, batismo com o qual nem todos conseguem lidar. Chega-se ao topo e ao limite das forças humanas, mas paga-se um preço caro por isso.

Se experiências inesquecíveis têm o poder de mudar completamente quem as vivencia, quem não imagina as agruras impostas pelo Everest, para os alpinistas que desejam decifrá-las, poderá compreender por que chegar ao topo do mundo é uma façanha que cabe a poucos, como a Jon Krakauer, que sobreviveu à experiência para relatá-la em No ar rarefeito - um relato da tragédia no Everest

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Ilustração de HELTON SOUTO

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RENATO ALESSANDRO DOS SANTOS, 41, é professor do curso de LETRAS do Centro Universitário Moura Lacerda e dos colégios Semeando e Objetivo. Faz doutorado em Estudos Literários na UNESP, de Araraquara, e é autor de Mercado de pulgas: uma tertúlia na internet (Multifoco) e da dissertação A revolução das mochilas: de On the road à lenda de Duluoz – a literatura beat de Jack Kerouac. É editor do Tertúlia. Contato: realess72@gmail.com. Facebook: Renato dos Santos Santos.

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HELTON SOUTO nasceu em 76. Ribeirão Preto. Casado. Desenha e pinta desde sempre. Graduou-se em Ciências Sociais. Foi arte-educador. Foi professor de História. Trabalha em ONG, com educação e juventude. E não parou de desenhar e pintar. Blog: Andar na pedra. Contato (Facebook): Helton Souto.

  • 10 Mount Everest

13/09/2014