)Contos(

A mangueira da nossa infância /

Alexandre Nobre

“Eu já te falei, André? Que quando a Aninha voltar, nós vamos juntos passear no parque? Aquele parque novo, no centro da cidade, sabe? A Aninha sempre gostou de parque. E a Maria Rita também; a minha pequenininha. Um dia, pouco antes de ir embora, ela me falou assim: Me leva, pai? Naquele parque novo, no centro da cidade? A gente vai! Assim que elas voltarem, a gente vai. Também, não sei o que deu na Aninha de ir embora assim, de repente, parece que fugindo até. Como se isto aqui tivesse cansado ela um pouco.”

     “Ela não fugiu, Pedro, você sabe.”

     “Não, não fugiu. Eu sei. Mas é que a Aninha andava muito diferente ultimamente. Ameaçou levar a menina embora. A minha pequenininha...”

     “Ela implicava comigo, Pedro. Implicava sempre. Não queria que eu viesse aqui te visitar.”

     “Eu sei. Mas não era por maldade. A Aninha sempre foi uma boa alma. Precisava ver. Eu ainda me lembro de quando a gente se conheceu. Lembro ainda. Faz tempo, a gente era criança, mas eu não esqueço. Foi no dia que a mãe morreu. Eu estava triste, tristíssimo, sentado no quintal de casa, debaixo da mangueira. A mangueira da nossa infância, lembra André? Onde a gente se divertia tanto. Tantas tardes. Ela foi chegando devagarzinho, falou comigo, e pegou na minha mão, me acalmou. Deixe de tristeza, ela disse, brincando nos meus cabelos. Criança ainda, André. Mas me fez sentir uma coisa boa. Quente. Uma coisa que eu nunca tinha sentido antes. Parecido com a mãe. Antes da mãe. Você sabe André, a mãe...”

     “A mãe ficou louca, Pedro”.

 

     A brisa fria e o céu de aço. O quarto ia se acendendo de luz, que brotava através das frinchas, pelo reboco rachado, formando figuras engraçadas no alto da parede. Previa, através das pálpebras, a alva suave do amanhecer, e a mãe que vinha pisando devagar. E vinha para me acordar. Eu que já estava acordado faz tempo, mas fingia dormir de novo; só para ter aquele momento, aquele prazer bom da nossa infância: “Bom dia, coração”. Ela ia entrando debaixo dos lençóis, me tocando suavemente as mãos, fazendo festa nos meus cabelos. “Bom dia, coração. Vamos, e deixa de preguiça que o dia já começou. Vai lá, brincar com o teu irmão”. Eu me levantava repleto. Corria para fora feito louco. Cheio de mim mesmo eu procurava por você, André. A algazarra da criançada brincando no nosso quintal. Debaixo da mangueira. A mangueira da nossa infância.

 

    “Você sabia que a Maria Rita é preguiçosa como eu quando criança? Fica no quarto me esperando para levantar. Se eu não vou, não sai da cama não. Fico pensando... Não sei o que deu na Aninha para ir embora assim de repente. E levar a menina junto. A Maria Rita, a minha pequenininha. Como é que ela está acordando sem eu lá, André?”

     “A gente se acostuma a tudo nesta vida, meu irmão”.

     “Não acostuma não. A mãe nunca acostumou”.

 

     - André! Cadê o seu irmão, menino? Cadê ele? Vocês não foram juntos?

     - Fomos mãe. Mas ele ficou lá. Não quis vir não. Você sabe como ele é esquisito.

     - Esquisito nada, menino. É seu irmão. O único que você tem. E é mais novo. Você tem que cuidar dele, André.

     - Eu cuido mãe. Mas ele é esquisito.

 

    Toc. Toc. Toc.

     “Espera André, espera que estão batendo na porta. Já vou ver quem é. Mas espera aqui. Espera. Eu já volto.”

    - Quem é?

     - Sou eu. A dona Esperança. Está tudo bem ai dentro com você, Pedro?

     - Está sim, dona Esperança. Pode deixar.

     - É que eu ouvi barulho. Você está sozinho, Pedro?

     - Estou. Pode deixar.

     - Tudo bem então. Se precisar...

     - Obrigado, dona Esperança. Não precisa.

 

     A gente passava o dia inteiro naquele quintal. Era um tempo comprido. Onde as horas pareciam arrastar-se pelas paredes, preguiçosas. A mãe, depois que o pai foi embora, trabalhava dobrado. Dia e noite costurando. Colocou a máquina na varanda para ficar vendo a gente brincar. Lembra André? A gente na mangueira do quintal: “Pedro, desce daí menino! Vem brincar com o seu irmão, com as outras crianças. Tá fazendo o quê este tempão aí sozinho?” “Eu estou pensando, mãe”. “Pois então desça já. Você pensa demais, menino. Isso não pode acabar bem, Pedro”.

 

     - Pedro, por favor, sai deste quarto. Vem aqui fora com a gente. Vem brincar com a sua filha.

     - Minha filha. Minha pequenininha...

     - Meu Deus dê-me forças. Assim não vai nada bem. Você precisa se esforçar mais, amor. Parou com o tratamento, os remédios, tudo. Eu sei. O Dr. Saulo me contou. Telefonou estes dias. Falou que você não aparece mais nas sessões. Três semanas já.    O que é que você fica fazendo o dia inteiro, Pedro?

     - Eu sei Aninha. Vai passar. Já, já passa amor.

     “Viu André, que não precisava se preocupar. Era só a dona Esperança. Veio ver se eu estava bem. Ouviu barulho. Mas eu menti, André. Falei que estava sozinho”.

     “Tem certeza que ela não me viu?”

     “Não viu não, André. Ela nem entrou no quarto”.

     “A arma. Ela viu a arma? Tá aí em cima da cama, à mostra”.

     “Não, André. Pode ficar despreocupado. Ela nunca entrou aqui”.

     “É engraçado”.       

     “O que é engraçado, André?”

     “Este nome. Dona Esperança. É engraçado”.

     “É, é engraçado. Mas não precisa se preocupar, André. Ela nunca entra aqui”.

 

     - Quando a gente se casou as coisas pareciam que iam dar tão certo, lembra amor? Você estava se tratando. Queria recomeçar a vida. Trabalhar, cuidar das nossas coisas. Por que você largou de tudo, Pedro? Desgostou de novo da vida? 

     - Desgostei nada, Aninha. Vai melhorar. Você vai ver. Já, já, melhora, amor.

     - Desgostou sim. Quando a Maria Rita nasceu, você ficou tão feliz, lembra? Passou um tempo tão bem. A gente estava contente. Por que deixou tudo desandar de novo, amor? Esqueceu de mim, da sua filha...

     - Minha filha, minha pequenininha...

     - Eu não agüento mais, Pedro. Seis anos já. Eu não agüento.

 

    “Aquele dia, André, aquele dia a mãe não estava costurando no quintal. Se estivesse ela não ia deixar. Ia ver que aquilo não podia dar certo. Ela ia saber. A mãe sabia de tudo. Mas a gente era criança. Como é que a gente ia saber, André?”.

     “A mãe ficou louca.”

     “Ficou. Naquele dia mesmo. Depois. Ela ficou.”

 

     - Eu não agüento mais, Pedro. Vou te deixar. Esta situação está nos fazendo mal. Principalmente para a menina. Ela sofre demais. Não entende o pai trancado no quarto o dia inteiro. Ela é criança ainda, Pedro.

     - Não, Aninha. Não vai não. Não leva ela não. A minha pequenininha...

     - Eu vou, Pedro. Não agüento mais. Nem a menina. Vendo o pai sofrer assim.

     - Já, já, melhora Ana. Você vai ver. Vai melhorar. O Dr. Saulo disse que a gente vai poder passear no parque. Aquele parque no centro da cidade, sabe? A Maria Rita queria tanto... Eu já falei com o André. Ele vai também.

     - Cala a boca, Pedro. Você sabe...

     - Mas Aninha...

     - O André morreu faz tempo.   

 

     Era um vento parado. Como se o ar houvesse sumido. Um vento cheio de silêncios. O sol ainda brilhava, uns fiapinhos de nuvem acumulavam no céu, mas não havia ar. Somente o tempo, vazio e quieto, arrastando-se nas paredes tingidas pela luz amarela do entardecer. Tudo parecia estar à espera de alguma coisa. Agora eu sei, André. Eu sei, porque vi antes. De cima da mangueira do quintal eu via tudo antes. Ouvi clara e nitidamente você me pedir para amarrar a corda. “Amarra Pedro, na mangueira.” A mangueira dos nossos tempos de infância, lembra André? Aquilo não podia mesmo dar certo. Se a mãe estivesse lá, ela ia saber. A mãe sabia de tudo. Sentada na máquina de costura, mesmo sem olhar, eu adivinhava o olho dela em cima da gente. Cuidando, velando, protegendo. Mas aquele dia a mãe não estava... E eu fiz o laço muito forte, André! Dentro da minha ilusão de criança, eu acreditei demais na brincadeira, e apertei a corda com força. Que pena, André. Que pena, meu irmão. Era brincadeira de enforcar o bandido. E você sempre foi o bandido, porque era o maior. Sempre foi grande. Muito maior do que eu, do que os outros meninos. E o seu corpo, grandalhão, ficou lá na mangueira pendurado. Nenhum de nós teve forças para te puxar, irmão. Mesmo quando você ainda pedia.

     André, você ficou lá até a mãe chegar.

 

     - O que é esta arma na mão, Pedro? Ficou louco de vez? Pelo amor de Deus, homem.

     - A minha menina, a minha pequenininha. Não leva a minha pequenininha, não, Ana.

 

   “A mãe nunca mais foi a mesma. Eu dizia para ela que você tinha voltado, que falava comigo, mas ela nunca acreditou.”

     “Ficou louca.”

     “Ficou louca. Foi o que disseram. O médico também falou. Mas mesmo assim deu os remédios para ela. Foi o médico, André. Foi o médico que matou a mãe. Eu soube logo na hora que cheguei em casa e vi as caixinhas vazias em cima da mesa. Tinha umas três. A garrafa de cachaça pela metade. A mãe que nunca bebeu na vida, André. O corpo caído no chão. O silêncio batendo forte dentro da minha cabeça.”

 

     “Quando eu vim para cá, para esta pensão, a dona Esperança não queria me alugar o quarto. Não gostou da minha cara, das minhas roupas, sei lá. Deve ter sido as roupas porque eu não trocava fazia dias. E a cara também não estava lá estas coisas, pela falta do sono. Só alugou porque eu paguei adiantado. Também, era todo o dinheiro que eu tinha. Dinheiro para quê agora? Agora que a Aninha e a Maria Rita viajaram.”

     “Elas não viajaram, Pedro. Você...”

     

     “Bom dia, coração. Acorda que o dia já começou. Vamos lá fora brincar. O dia está tão lindo, cheio de sol.”

     “Hoje você não vai ficar no quarto, papai?”

     “Hoje não, coração. Hoje o papai está bonzinho...”

 

     “A água que goteja das telhas faz um barulho estranho. Plás, plás, plás. A gente ouve as gotas. Ficam batendo dentro da gente, pesadas. Fiquei ouvindo o borbotar da água durante muito tempo ainda. Devo ter adormecido, porque, quando acordei, já era sol de novo. Mas as gotas continuaram batendo na minha cabeça sem parar. Intensas, difíceis. Uma atrás da outra. Até que eu não pude mais suportar e peguei a arma para matar a Aninha. Eu não tinha mais o que fazer, André! Ela queria levar embora a menina. A minha pequenininha...”

     “Mas não foi isto o que aconteceu, Pedro. Você sabe que não foi assim.”

     “Não, não foi isto o que aconteceu. Eu sei... Eu não tive coragem, André! Graças a Deus que eu não tive coragem. Aquele dia, quando eu peguei a arma, um anjinho bom entrou na sala. Um anjinho todo doce, branquinho, repleto de luz. Era ela, André! A Maria Rita! Era ela o meu anjo bom. Ficou parada, os olhinhos rasos, confusos, cravados em mim. E tinha medo nos olhos dela! Minha filha, minha pequenininha, com medo de mim... Como é que eu iria fazer uma coisa dessas, André? Eu não pude! Não consegui. Só abaixei um pouco o braço, olhei para o rosto amargurado de Ana, as mãos tremendo em pânico, e fugi para cá, para este lugar.” 

     “E a arma, Pedro? Por que você não jogou a arma fora?”

     “Eu ia. Mas ainda não. Ainda tem uma coisa para fazer. Mas antes eu precisava falar mais uma vez com você. Para ter certeza.”

     “Certeza de quê, irmão? Agora que...”

     “Era o cheiro, André! Por isso a dona Esperança não queria me receber. Ela sentiu o cheiro! Este cheiro de morte que não sai de mim, desde os sete anos, desde a nossa infância que este cheiro não sai. O mesmo cheiro que ficou grudado na mangueira, ficou para sempre, apodrecido, impregnado. Dentro da minha cabeça, da minha alma, irmão. Este cheiro que só aumenta, só aumenta... Não tem mais jeito, André. Eu não posso mais viver desta maneira. Este tormento dia e noite martelando minha cabeça. O Dr. Saulo diz que eu preciso me esforçar, fazer os tratamentos para me livrar de você, desta sua voz que me persegue, mas eu não consigo. Eu tento, mas não consigo. Preciso acabar com isto de uma vez, irmão! Eu não agüento mais. Preciso fazer alguma coisa agora. Tem que ser agora!”

    “O que você está dizendo, Pedro? O que é que você vai fazer?”

    “Estou dizendo o que acabo de dizer. Não se preocupe, André. Não há mais porque sofrer. Só tem um jeito da gente se salvar. Não tenha medo. Não precisa. Eu venho pensando nisto há muito tempo já. É só você segurar a minha mão. Vem meu irmão, vem comigo. Me ajude. Não tenha medo. Por favor, não tenha medo. Segura a minha mão com força. Vai, André. Aperta junto comigo este gatilho. Faz calar esta cabeça de uma vez. Vem agora, meu irmão. Vem. Vai ser rápido. Não tenha medo. Só um pouquinho mais de coragem agora... Devagar... A gente consegue... Vem... Vem...  Não, André, assim não! Não presta atenção nela não. É só uma velha cantando uma música boba. A Dona Esperança. É só uma velha. Não presta atenção. Olha: ouça esta música. É uma música antiga. Vê?  Uma música boba e antiga. Só isso. Ouça... Você sabe o que é? Está lembrando? Até que eu conheço esta música. É bonita! Me recorda de um tempo distante. Um tempo bom. “Se essa rua se essa rua fosse minha” Lembra, André? A mãe cantando para a gente no quintal; debaixo da mangueira. A mangueira dos nossos tempos de infância. “Eu mandava eu mandava ladrilhar” Ela encostava-se junto ao pé da árvore, nos ajeitava no seu colo macio; e eu, de cabeça baixa, sentia num momento suas mãos deslizarem pelo meu peito nu, brincando com meus cabelos desarrumados. Sua voz doce e tranqüila enchendo devagarzinho o ar abafado da tarde, fazendo brotar fé dentro das nossas cabeças. “Nesta rua nesta rua tem um bosque” Sabe André? Eu também cantava esta música para a Maria Rita. Ensinei a letra toda para ela. Falei das nossas brincadeiras, das nossas histórias. Ela me dizia assim: Canta, pai? Aquela que a vovó cantava. Das pedrinhas de brilhante. “Que se chama que se chama Solidão” Eu não quero que a Maria Rita sofra o que eu sofri, André! Não quero. Não posso deixar ela passar por isto também. Uma criança assistir a morte assim tão de perto. Está errado! “Dentro dele dentro dele mora um anjo” Quando a Maria Rita nasceu, eu me esforcei tanto! Queria que a minha filha fosse feliz. E queria uma vida boa com a Aninha também. Cuidar das nossas coisas, trabalhar, deixar de lado esta tua voz que me persegue. Essa goteira batendo dia e noite dentro da minha cabeça. Ah, meu irmão, mas eu queria tanto, tanto! Talvez agora, se eu lutasse um pouco mais... Só com um pouquinho mais de vontade... Será que eu consigo, André? Sair deste quarto, deixar você para trás um momento. Recomeçar direito a minha vida... Sabe, André, esta velha, esta bruxa, sei lá, está me chamando. A dona Esperança. Eu sei o que ela quer. Está dizendo que basta eu me esforçar para não te ouvir mais. Imaginar que você não existe. E sair por aquela porta. Quem sabe se com um pouquinho mais de esforço? Sei que posso conseguir! Pela minha filha, pela minha pequenininha. É só abaixar a mão, levantar-me de uma vez e ir embora daqui deste lugar. Este lugar que me sufoca. Este quarto repleto de angustias. Quarto solidão. Sem olhar para trás. Fazer um esforço como o Dr. Saulo diz... Agora... devagar... Fechando os olhos aos pouquinhos... Ah, mas eu preciso tanto, tanto! Pela Maria Rita, pela minha filhinha... “Que roubou que roubou meu coração”.

 

Sexta-feira. Vinte e dois de março. Uma e meia da tarde.    A chuva amortece os ruídos. Pelos vidros opacos da janela, sentado dentro do meu quarto, eu vejo as gotas deslizarem como fios grossos de lágrimas. Tenho medo que elas me peguem. Chamo a enfermeira e pergunto pelo Dr.Saulo. É ele quem me ajuda agora. Toda vez que tenho dificuldades, quando preciso chegar lá no fundo escuro, lá onde fica aquela tarde distante, aquela mangueira apodrecida no quintal da minha casa, a mangueira dos meus tempos de infância, é ele quem me dá a mão. Volta comigo e me ajuda a caminhar. Atravessamos fissuras insondáveis, tropeçamos, caímos, e voltamos a nos levantar. Confio nele. É um homem bom. Gosto também quando chega o fim de semana e, aos domingos, a Aninha e a Maria Rita vêem me visitar. A minha filha ainda tem os olhos tristonhos, fica brincando de lado, mas eu não ligo. É bom vê-la brincar. A Aninha senta-se comigo num banco de madeira, me traz lanche, suco, algumas vezes um pedaço de bolo de chocolate. Ela insiste em repetir que me perdoa, que nunca acreditou que eu pudesse lhe fazer mal, e que tive muita sorte em não me matar. Me conta uma história estranha: Eu trancado no quarto por muito tempo, e ela batendo insistentemente, toc toc toc. Diz que me chamou o dia inteiro e eu não abria. O Dr. Saulo chegou no início da noite e mandou que arrombassem a porta. Os enfermeiros precisaram me pegar à força, tiraram a arma da minha mão e me trouxeram para este lugar. Eu olho para ela e digo que não foi assim. Conto do quarto de pensão onde me escondi, da conversa com o André, da música e da senhora que me salvou a vida. A dona Esperança. Ela me olha horrorizada, e pede para eu não falar mais disto. Digo que sim, está bem. Concordo com ela. Cada um acredita na realidade que melhor lhe convém. Eu, de meu lado, sei que tenho sofrido dores terríveis, angustias imaginadas mais sentidas e autênticas que a vida real. É. A vida é dura. Mas também é bonita e estranha.  O André continua comigo. Continuará sempre. Agora mesmo eu o vejo ali, sentado na cadeira perto da porta. Minha luta é não deixar que ele se aproxime. Posso vê-lo, posso senti-lo, mas não posso falar com ele. É o que me diz o Dr. Saulo e eu acredito nele. É um homem bom. Preciso fazer um esforço tremendo, mas acho que vale a pena. Faço isto pela Aninha, pela Maria Rita, mas também por mim. De mais, já disse, cada um acredita na realidade que melhor lhe convém. Eu, cá do meu canto, aprendi que preciso escolher a minha a cada dia, a cada nova manhã.

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Ilustração de HELTON SOUTO

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ALEXANDRE NOBRE é paulistano, mas reside em Ribeirão Preto, interior do estado. Durante os anos 90 atuou como compositor e guitarrista em bandas de blues e rock e, paralelamente, publicou alguns poemas e contos em jornais e revistas da cidade e região. A partir de 2007 passou a dedicar-se à literatura, sendo premiado em diversos concursos literários do país, como: Concurso Nacional Luiz Vilela 2008, de Minas Gerais, com “A mangueira da nossa infância”; Newton Sampaio 2009, do estado do Paraná, com “Aila”, Maximiano Campos 2007, de Recife, com “A praia” e Prêmio Ignácio de Loyola Brandão 2011, com o conto “Fazendo Nova América”, dentre outros. A mangueira da nossa infância é o seu primeiro livro publicado. Foto do autor: Matheus Urenha. Facebook: Alexandre Nobre.

HELTON SOUTO nasceu em 76. Ribeirão Preto. Casado. Desenha e pinta desde sempre. Graduou-se em Ciências Sociais. Foi arte-educador. Foi professor de História. Trabalha em ONG, com educação e juventude. E não parou de desenhar e pintar. Blog: Andar na pedra. Contato (Facebook): Helton Souto.

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07/09/2014