)Contos(

O conto dos contos /

André Carretoni

José da Silva – nome comum para uma pessoa incomum – acordou sobressaltado pelo sentimento de estar sendo observado. Tivera uma noite de sono profundo, mas, às dez da manhã daquele primeiro domingo de 2007, foi como que arrancado bruscamente dos braços de Morpheu, ao despertar certo de que teria sido capaz de surpreender dois olhos furtivos a lhe observarem, nu, sobre o leito. Erro seu. No seu quarto de poucos móveis e paredes brancas, com uma janela que dava apenas para a praia do Flamengo, apenas ele e mais ele.

Não era a primeira vez que sentia isso, esse desconforto ao abrir os olhos por pensar que não estava sozinho, como um "déjà vu" persistente, de vezes incontáveis, mas assim como em todas as outras manhãs parecidas com aquela, qual remédio poderia sorver a não ser se levantar e se preparar para outra jornada? Mesmo que desconfiado de que aqueles sentimentos esquisitos não parariam por ali...

...pois sempre que acordava de tal forma, também portava a incoerente certeza de que ele iria descobrir, enfim, brevemente, o que se passava de tão anormal consigo...

Tomou o seu banho, vestiu-se e preparou o seu o café da manhã: um pão com manteiga para molhar no café. Como amava aquele "déjeuner" simples e como não conseguia pensar em nada melhor para substituí-lo. Terminou de comer, fechou as janelas do seu apartamento – uma agradável temperatura lhe aguardava – e saiu.

Na frente do seu prédio, decidiu caminhar pelo Aterro e por Botafogo, até a Urca. A bela Urca de sua infância.

Durante o trajeto, logo depois de alguns bons metros, encontrou um senhor vendendo livros usados. O tal desconforto ressurgiu com toda a sua força. Tinha a certeza de que conhecia aquele senhor e que não seria a primeira vez que compraria algo com ele, ao mesmo tempo em que estava seguro de jamais o ter visto. Tomou por opção questioná-lo:

– O senhor vem sempre aqui?

– Não. É a primeira vez.

– Ah...

Resolveu não incomodá-lo com mais perguntas e aceitou a fatalidade e a dúvida que se formara. Sem procurar, então, por nada em especial, com uma escolha ao acaso, retirou um livro qualquer do monte. Em suas mãos, um título em letras douradas: "O conto dos contos e outros contos". Poderia lê-lo quando chegasse a Urca, pensou, para passar algumas horas e se esconder daquela angústia crescente, daquela aflição, como se achasse quase capaz de tocar uma pessoa que continuava a seguir, de perto, os seus passos.

Pagou o livro com os trocados que tinha no bolso e continuou o seu caminho.

Quando chegou à praia Vermelha, após comprar uma cerveja, procurou um banco à sombra. Abriu a lata e deu um saboroso gole. Folheou as primeiras páginas, colocou a bebida de lado e, sem acreditar no que lia, seguiu as primeiras linhas do primeiro parágrafo do primeiro capitulo:

"José da Silva – nome comum para uma pessoa incomum – acordou sobressaltado pelo sentimento de estar sendo observado. Tivera uma noite de..."

Fechou bruscamente o livro e arregalou os olhos em direção ao horizonte. Pegou a sua cerveja e deu novos e grandes goles.

Abriu o livro mais adiante e pôde ler quando o personagem principal chegou à praia Vermelha, na Urca, com a sua cerveja e um livro para ler, que tinha o mesmo título que aquele, e quando aquele outro José fechou o livro e arregalou os olhos em direção ao horizonte, para beber de novo a sua cerveja.

Fechou novamente o livro e atirou-o ao solo. Seria possível?!? Novos goles, engasgou-se. Era isto que explicava enfim o seu sentimento de estar sendo observado no momento que estava sendo lido por uma pessoa? Que acordava de um sono profundo porque antes do início de tal história ele nem sequer existia? Que afinal ele era um conto? Um simples conto? Mas e a sua memória? Todas as lembranças que tinha? A sua infância naquela praia, os seus pais? Haviam realmente existido ou não passavam de uma definição de um personagem? E, se sim, se ele era mesmo um conto, então bastava folhear as últimas páginas daquele livro para saber o que aconteceria com ele e como tudo terminaria? Para depois ele voltar a cair num profundo sono, enquanto estaria limitado para sempre a um vai e vem infinito e solitário, dependente de algum leitor para existir, preso num processo eterno de ignorância e conhecimento da sua própria situação?

Encarou o livro sujo de terra no chão. Suas páginas viravam ao sabor do vento e aguardavam a sua decisão. Ficaria ali o tempo que fosse, o tempo que ele quisesse. Se ele quisesse ir embora e deixá-lo ali, jogado, ele poderia... ou será que no momento em que ele havia sido criado, outra pessoa já havia tomado as suas decisões?

De qualquer forma, independente do seu livre arbítrio existir ou não, como ele jamais poderia impedir que aquele conto terminasse, decidiu que mais valia matar a sua curiosidade e voltou à sua leitura.

O homem que se tornou personagem, o personagem que se transformou em homem, abaixou-se na direção do livro e pegou-o novamente, pensando ser capaz de ousar e ler mais adiante, quiçá, o seu destino.

Abriu uma página qualquer.

"– Tudo bem contigo?"

Neste momento, José sentiu uma mão a tocar o seu ombro. Ele girou a cabeça e encontrou uma bela mulher que jamais havia visto antes, com um radioso sorriso e uma sedutora voz.

– Tudo bem contigo?

Nervoso diante de tal possibilidade, ele se atrapalhou e levantou-se perdido. Respondeu que estava tudo bem, tudo estava ótimo. Por que ele não estaria bem?!

– É que eu o vi com uma expressão de dor quando você lançou o livro ao chão - disse - Fiquei preocupada.

– Não, está tudo bem.

Mas ela, um pouco desconfiada, não quis deixá-lo novamente só. Insistiu que gostaria de pagar um suco para os dois, no bar do clube militar. Apesar de confuso, ele não pôde deixar de se sentir lisonjeado.

– Carla Azevedo.

– José da Silva, prazer.

Ele concordou em beber algo, naquele bar que ficava ali ao lado mesmo, se esquecendo por minutos da bizarra experiência que estava vivendo. Tão bizarra que, com certeza, aqueles novos passos que estava dando, agora acompanhado, também estariam descritos naquela celulose espremida por sua mão suada.

– Deus... – murmurou.

– Está tudo bem mesmo?

– Sim, sim... Um suco de manga, por favor...

Ela pediu um suco de abacaxi, e o garçom se afastou. Começaram a falar sobre coisas fúteis como o tempo ou sobre o bem estar que aquela praia portava aos dois, mas para José o inimaginável continuava lá.

Ao mesmo instante que conversavam, a sua curiosidade pelo seu próprio final se tornou insuportável, e, sem saber de onde surgira tamanha confiança, resolveu dividir a sua experiência com a carismática estranha.

– Algo muito irreal está acontecendo.

– Irreal como?

– Você está vendo este livro?

O conto dos contos e outros contos...

– O que você diria se eu te dissesse que eu sou o personagem principal desta história?

– Eu acreditaria em você.

– Não, você não acreditaria.

– Claro que sim.

– Você não entendeu o que eu disse?! As coisas que estão acontecendo comigo, agora, estão todas aqui! Todas! Provavelmente também o fato de estarmos aqui falando e o nosso próprio diálogo!

– Eu sei, José.

– Não, você não sabe!

– Eu sei. Leia o nome da autora.

José parou de falar e olhou para o livro. Lá, abaixo do título em letras douradas, o nome da autora: Carla Azevedo. Ela era a sua escritora, a pessoa que o havia criado. Ela estava ali, diante dele.

– Você?!

– Sim, eu. Bastou que eu me inserisse como personagem para eu vir parar aqui na praia perto de você.

– Mas quem sou eu?! Eu não entendo! Eu não existo?! Eu sou uma obra sua?! E esta pele?! Este odor que sinto?! Tudo isso ao meu redor?! Nada disso existe?!

– Existe, José; tanto quanto você. Porque basta que um pensamento se manifeste para que as coisas se tornem reais. A única diferença é que você vive numa outra dimensão, só isso.

– Mas que outra dimensão?! Do que é que você está falando?! Você acha que é normal aceitar que tudo ao seu redor são caracteres espalhados numa folha em branco?! Só isso?! E... E se foi você mesmo que me criou, qual era o seu intuito?! Estava a fim de brincar de Deus?!

– Calma, José. Eu sei que as coisas não são fáceis de assimilar, mas se eu fiz o que fiz, foi única e exclusivamente por um motivo: eu te amo. Eu precisava personificar o meu companheiro perfeito, pois, depois de tanto te procurar, eu finalmente descobri que você existia apenas nos meus sonhos.

José não soube o que dizer diante de tal declaração.

– Mas como é que eu posso viver agora com o peso dessa verdade?! Eu vou precisar de alguns anos de análise! Pode escrever isso!

– José, a gente poderia ter-se encontrado e ter passado belos dias juntos sem que você tivesse imaginado o que está se passando com você, mas, por eu te amar tanto, por eu querer realmente construir algo de sério com você, eu resolvi contar tudo pra você antes mesmo de nos conhecermos, começando a nossa relação com toda a sinceridade possível. Eu lhe criei porque eu sou uma pessoa só e porque eu preciso de você como você precisa de mim.

José pousou suavemente o livro sobre a mesa e se se encostou à cadeira.

– Mas você acha que essa nossa relação dará certo?! E você acha que vai ser mais fácil agora para nós só pelo fato de eu conhecer a verdade?!

– Eu não podia mentir para você.

– ...

– Você preferia ter vivido na ignorância?! Ter-me encontrado sem nunca ter imaginado que você era uma criação literária?!

– Não! Não! Foi bom você ter me contado tudo... eu agradeço... mas e agora?! Para onde é que eu vou quando vier o fatídico ponto final?! Para uma escuridão completa depois de uma página virada?! Depois de um... sei lá... um belíssimo pôr-do-sol, mas que vai chegar como uma parada cardíaca indesejada?!

– Isso eu não posso dizer, pois o meu fim será diferente do seu. Quando acabarem as páginas deste conto, o meu final será diverso. Eu voltarei para o meu mundo, para a minha solidão, e para uma vida onde eu continuarei só pensando em você. Mas uma coisa sobre nós eu posso dizer: bastará acabar esta obra para que eu queira escrever uma próxima sobre nós, para que a gente possa se encontrar de novo, e, adivinhe, você poderá até escolher onde isso vai ser...

– Como assim?

– Em primeiro lugar, na próxima vez que nos encontrarmos, você já terá consciência de tudo sobre a tua natureza... a qual espero que, até lá, você já tenha aceitado um pouco melhor... depois, nós poderemos passar férias na Grécia ou então escalarmos juntos o Everest. Ou, quem sabe, a gente poderá se encontrar numa gôndola em Veneza?! Bastará, para isso, resolvermos para onde a gente deseja ir e pronto. Deixe o resto comigo.

– Hum... Essa história começa a me parecer interessante...

– Você pode me dizer o que lhe faz falta e eu poderei portar-lhe essa coisa...

– Ou como eu gostaria de te ver vestida?

Carla encabulou-se.

– Uma pergunta... – José continuou – Sou eu que estou dizendo estas coisas ou é você que tem escolhido o que eu vou dizer a seguir?

– Eu prometo que eu vou tentar ao máximo não interferir na sua própria vontade.

Ele meditou por uns instantes:

– É bastante confuso...

– ...

– Este livro todo é sobre nós?

– Provavelmente, com contos que eu ainda escreverei.

José deu um gole no seu suco e largou um ligeiro sorriso para Carla.

– Então? – ela disse.

– Mas, se você me ama, porque eu ainda não te beijei?

– Eu estava esperando que você dissesse isso, ou melhor, eu estava esperando o momento certo para que isto acontecesse.

Olhares cúmplices, corações acelerados, certo nervosismo. Os dois lábios se aproximaram e ambos se tocaram num beijo.

– Eu sei que a gente se conhece há pouco tempo, Carla – disse José, afastando um pouco a cabeça e olhando-a nos olhos – mas eu juro que eu também te amo.

– Oh, José... que bom...

Ao fundo, num horizonte colorido como um quadro de Rafael, o sol começava a se pôr e os pássaros voavam livremente, e eles, abraçados como se fossem ligados em apenas um corpo, mantinham a certeza de um futuro feliz... para sempre.

<>_<>

Ilustração de HELTON SOUTO

<>_<>

Nascido no Rio de Janeiro em 1971, ANDRÉ CARRETONI cedo se apaixona pelas artes. Autodidata, aprende música, desenha, segue cursos de teatro, frequenta um curso de cinema, até que escolhe a literatura como meio de expressão. Encontrando afinidades com certos autores expatriados, aos 27 anos decide dar uma reviravolta em sua vida e parte para a Europa, à procura de novas experiências. Vive seis anos em Lisboa, mas sente necessidade de ir além. Faz o Caminho de Santiago de Compostela e se inscreve em um curso de pintura em Florença, onde escreve seu primeiro romance, Piedade Moderna, e conhece aquela que se tornará sua esposa. Sua vida de escritor acabava de começar. Vive dois anos na Suíça, aprimorando seu estilo de escritura. Escreve Mais Alto que o Fundo do Mar, cria sua página na internet (carretoni.com), escreve crônicas para o sítio francês Bonjour Brasil, participa do sítio brasileiro Tertúlia e frequenta o laboratório de escritura criativa do Instituto Camões. Depois de quatro anos em Paris, no encalce da Lost Generation, instala-se em Nice e encontra uma nova fonte de inspiração.

HELTON SOUTO nasceu em 76. Ribeirão Preto. Casado. Desenha e pinta desde sempre. Graduou-se em Ciências Sociais. Foi arte-educador. Foi professor de História. Trabalha em ONG, com educação e juventude. E não parou de desenhar e pintar. Blog: Andar na pedra. Contato (Facebook): Helton Souto.

  • 01 Coração Vagabundo

30/08/2014