)Sarau(

Três poemas de Matheus Arcaro / Poesia;

Matheus Arcaro

 

 

 

 

 

Eternidade nua

A penumbra que invadia a janela
realçava a rouquidão das retinas.
A voz envelhecida
revelava seu avesso:
embaraço de traços,
traças num abraço suado.
Nos gestos encharcados de chorume
vi o velório do sentimento
que um dia
tomou de sequestro nossos sentidos.
– Por que, amor?
– Pergunte à rotina.
Foi ela que arremessou as promessas
nas frestas frias da realidade.

 

 

 

 

Desfeto


Esquivei-me de mim inventando a Esperança.
Fi-la alta, alva, veias à mostra, cabelos longos.
Logo que terminei,
ela atirou-me violentamente ao chão
e lambeu-me os vãos com seus olhos verdes.
Copulamos.
Engravidei do tempo,
que ficou tempo demais dentro do meu ventre,
corroendo cada víscera viva,
cada sílaba da palavra presente.

Nosso filho necrosou minhas perspectivas.
Frente ao espelho,
com lábios recheados de carnes não nascidas
e pupilas permeadas de promessas impossíveis,
lembro-me do dia em que a Esperança largou-me
e alargou a vala entre o desejo e os fatos.

Fiquei comigo. Sem futuro.
Somente com o tempo no útero.

 

 

 

 

Perspectivas

 

 

Fui superestimado pela vida.
Fardo pesado arrancar o dardo 
do ventre do mundo, 
vale inundado 
de sonhos secos, 
de peitos práticos
de olhares estreitos
f
eito estradas do interior.

 

Por isso desisti de rasgar o véu.
De violentar o presente 
com entulhos ou promessas.
Comecei a aceitar o incerto,
apostei no oposto e criei o desimposto. 
Troquei o destino pelo desatino 
e ainda devolvi troco: 
deixei as verdades penduradas
no dedo frígido de Deus,
que, pesado,
não pôde mais me proibir.

 

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Ilustração de HELTON SOUTO

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MATHEUS ARCARO nasceu em 1984 em Ribeirão Preto, onde vive atualmente. É graduado em Comunicação Social e também em Filosofia e pós-graduado em História da Arte. Atua como diretor de criação publicitária e como professor de Filosofia e Sociologia em cursos pré-vestibulares. Desde 2006 tem artigos, contos e poemas publicados em veículos regionais e nacionais. Seu primeiro livro de contos está em análise em várias editoras e, atualmente, escreve um romance. Nas poucas horas vagas, arrisca-se ainda como artista plástico. No Facebook: Matheus Arcaro.

HELTON SOUTO nasceu em 76. Ribeirão Preto. Casado. Desenha e pinta desde sempre. Graduou-se em Ciências Sociais. Foi arte-educador. Foi professor de História. Trabalha em ONG, com educação e juventude. E não parou de desenhar e pintar. Blog: Andar na pedra. Contato (Facebook): Helton Souto.

 

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24/08/2014