)Futebol(

Narciso e as lembranças da queda / Copa do Mundo de 2014; Brasil 1 x 7 Alemanha;

Helton Souto


A impressão é a de um pesadelo! Que vamos acordar e ver que foi um pesadelo. É uma sensação de letargia,sonho, anestesia...loucura! Quem escreveu isso foi um amigo, numa mensagem de celular. Sou um torcedor contido, pouco dado a explosões. Não choro. Não grito. Vibro pouco.  E lá pelo terceiro gol minha voz quase não saia. Embargada. Ao meu lado, a esposa chorava lágrimas silenciosas. E apertava sua mão na minha. Meu cachorro agradecia a combinação de gols e silêncio. Sem fogos. O que é isso? Eu dizia. Olha lá. Virou um treino. A voz não saia. Uma festa alemã que só terminou no sétimo gol. Uma festa para eles. Para nós, uma queda. De 70 andares. De 7 mil pés.

Nos anos, meses, dias, horas e minutos antes da queda, nos encontrávamos diante de um espelho. Narciso diante de um lago espelhado, admirando nossas belezas. A exaltação da força, da raça, da fé, da camisa. A camisa. Nada nos desviaria de futuro mais exultante. A copa era nossa. Tinha de ser. Com a nossa história, nosso povo, nossos cinco títulos mundiais, nosso drible, nossa ginga, nossa malandragem, nossa organização. Nossa camisa. Favoritos, somos. Sempre. Ainda mais aqui. Em casa. O espelho nos mostrava o quão poderosos somos. E nos vimos felizes, fortes, viris e indestrutíveis na quantidade de festas, selfies, propagandas, posts nas redes sociais, gente bonita, loira, bem nascida, com dentes brancos sorrindo para as lentes e vestindo o verde e o amarelo fashion. Belos filhos do país do futebol. Brasileiros com muito orgulho e muito amor. E entre uma selfie e outra, mandar a presidente tomar no (!) é… cool. Vale porque somos o Brasil. É a Seleção.

A imagem no espelho é bem bacana. Só que não. Vieram os 7 a 1 e acabou tudo. E parte daqueles torcedores brasileiros com muito orgulho oscilou entre fazer piada sobre a seleção e rugir pedindo reformas na educação, na saúde, na política e na cultura para mudar tudo que está aí. Para deixarmos de ser esse povo pobre, de cultura atrasada, inúteis, incapazes. Mais uma vez, Narciso, olha para o espelho e não se reconhece mais. Confunde tudo. Perde-se. Narciso custou a olhar o que tinha dentro do lago espelhado e o que podia encontrar ali. Só que lá pela final da segunda fase da Copa, já dava para ver que era aconselhável apegarmos mesmo em Deus, em Galvão Bueno, no hino, no choro, no passado, em Neymar e tudo o mais que fosse possível. Porque pelo futebol não ia dar. A cada jogo, uma incógnita e um pensamento de que a coisa engrenaria no próximo. E nada. E pouco. A Seleção jogou minutos de bom futebol e, aos trancos e barrancos, chegou à fatídica semifinal. Melhor não tivesse chegado? Duvido. 

Não estávamos preparados para ir tão longe e tampouco preparados para descer da nave mais cedo. Então, tinha de ir aos trancos e os barrancos mesmo. Do jeito que dá. E se desse, seríamos campeões com a pior seleção brasileira já montada nos últimos 45 anos. Mas quiseram os deuses que ficássemos ali pelo Mineirão mesmo: mortos, caídos, amontoados, estraçalhados. Acho até que, lá na lógica torta dos deuses, o plano era cairmos assim mesmo. Para aprendermos? Perdemos. Mais nada. Não perdemos porque somos atrasados, pobres, sem brios etc. Perdemos porque faltou jogar o jogo. Futebol. Faltou futebol. Sempre que fomos campeões houve algum nível de organização dentro e fora de campo associada a talento, a futebol bem jogado. Sempre contamos, no mínimo, com uma meia dúzia de jogadores na Seleção que sabiam bem o que fazer com a bola. Sim. Mesmo em 1994. Desde 2002, fala-se pouco em jogar bem o futebol e muito mais em dedicação e comprometimento e num passado de glórias. Evocamos no espelho a imagem do futebol-arte do passado e o que vimos, refletido, foi que, entre os 23 jogadores da seleção, apenas um trazia alguma memória desse tempo. E ele nem estava em campo em oito de julho. E essas imagens, seus reflexos e suas realidades nos confundem muito. Faz com que deixemos o sonho e acordemos dentro do pesadelo, gritando onde estamos e quem somos. Acordamos? 

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Mas isso tudo foi há muito tempo. 64 anos se passaram. De lá para cá, todos já conhecem a história. E nunca mais fomos os mesmos. Ontem, foi quebrado um espelho aqui em casa. Estão falando em algumas… Não sei bem. Estou velho e cansado e me deito na cama dessa casa vazia para descansar um pouco. Antes do sono profundo, vem à cabeça algumas imagens sem nexo, quase alucinações. Dessas que nos fazem ter medo sem saber. Imagens de meninos numa pelada, à beira de um igarapé. Eles sorriem e driblam. Eu durmo. E sonho.

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A fotografia que ilustra esse texto é do fotógrafo Luiz Braga “Narciso e bola no igarapé”(2002). Luiz Braga está com exposição Retumbante Natureza Humana em cartaz no SESC Pinheiros, em São Paulo, de 28 de maio a 03 de agosto de 2014.

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Texto e ilustração de HELTON SOUTO

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HELTON SOUTO nasceu em 76. Ribeirão Preto. Casado. Desenha e pinta desde sempre. Graduou-se em Ciências Sociais. Foi arte-educador. Foi professor de História. Trabalha em ONG, com educação e juventude. E não parou de desenhar e pintar. Blog: Andar na pedra. Contato (Facebook): Helton Souto.

  • 13 Vaseline

27/07/2014