)Cinema(

Coraline Jones na sala de aula / "Coraline e o mundo secreto"; Neil Gaiman; Tim Burton; Henry Selick;

Renato Alessandro dos Santos

Coraline e o mundo secreto é um filme em stop-motion que deve ser visto na sala de aula ou na sala da nossa casa. Tanto faz. Embora caia muito bem quando visto do tapete da sala, alunos e professores têm muito para discutir após a sessão da tarde regada a pipoca, barras de chocolate Wonka, Nutella e, bem ali, a Fanta uva da infância querida. Ou não; é como você leu: o filme não tem de ser visto pelos adolescentes apenas do lado de dentro dos muros da escola. É que, na sala ou no quarto forrado de pôster, ele cai muito, muito bem. Por quê? Não é desses filmes da Disney; ele não é lapidado àquela moral que surge após os créditos. Não. Talvez seja porque o enredo sombrio tenha vindo lá da moringa dissonante de Neil Gaiman, o que, em outras palavras, significa encarar os contornos cinzentos da sentinela do abismo; ou seja: decifra-me ou… Nutella.

Coraline convive com caraminholas que crescem debaixo da cabeleira e, como tal, sente-se ímpar, diferente, incompreendida. A começar por seu nome: não é Caroline; é Coraline: Coraline Jones. Ao espectador, lá aonde a linguagem cinematográfica vai fazer seu serviço, o filme oferece leituras e releituras em busca de interpretação. Enquanto isso, do outro lado, “o mundo secreto” de Coraline faz seu estrago. 

Em 2009, nunca havia ouvido falar nada de Coraline e o mundo secreto, até meu filho me mostrar uma revista Recreio e perguntar se sabia alguma coisa sobre o filme. Não, nada. “Aventura arrepiante”, dizia a capa, que ainda perguntava: “Um lugar onde os desejos viram realidade pode ser assustador?” Você, que provavelmente não é mais uma criança, o que acha dessa pergunta?

É bem provável que você goste do filme. Deve ser porque Coraline e o mundo secreto traz uma história que faz o espectador pensar. Ah, outra coisa: a trilha sonora é acachapante e onírica. Bonita de se ouvir. E, enquanto os ouvidos deliciam-se, os olhos acompanham atentos o quadro a quadro da beleza cinematográfica. Marcianos que não conhecem o trabalho do escritor podem ter certeza de uma coisa: Gaiman é uma espécie de Tim Burton da literatura, pois ambos sabem contar histórias com personagens excêntricos, sombrios, cativantes (Edward Mãos de Tesoura, Beetlejuice, Victor Van Dort). Coraline e o mundo secreto até poderia ser confundido, facilmente, como outro filme de Tim Burton, mas a direção é de Henry Selick, diretor de O Estranho mundo de Jack (The nightmare before Christmas), que, por sua vez, todo mundo pensa que é de Tim Burton – algo que tem lá sua verdade, uma vez que ele colaborou no roteiro e criou os personagens. É engraçado também descobrir no Google que James e o pêssego gigante (James and the Giant Peach), filme baseado em narrativa infanto-juvenil de Roal Dahw, foi dirigido por Selick e produzido por Burton. Tudo isso, certamente, não nos leva à conclusão alguma, a não ser ao fato de que há muita coisa em comum entre Burton e Selick, que são almas siamesas. Inclua Gaiman aí e você terá 1 Cérbero (fascinante, embora lúgubre).

Coraline e o mundo secreto conta a história de uma arredia garota de 11 anos que se muda com os pais para um velho casarão; perto, moram um velho trapezista, Mr. B, e duas atrizes decadentes, Sra. M e Sra. N. Os pais são o estereótipo dos pais ocupados demais com suas vidas e que, por isso, não têm tempo para a filha. Perambulando pela vizinhança, Coraline conhece Wybie Lovat, um garoto que mais a incomoda do que a deixa feliz, além de um gato lépido, que a segue por um bom tempo antes que note a presença dele.

Na mesma tarde em que se muda para o casarão, numa expedição solitária pelos cômodos da casa, uma emburrada e entediada Coraline encontra uma porta, pequena e fechada. Pede ajuda à mãe, que consegue abri-la. Mas não há nada do outro lado: apenas uma parede de tijolos. À noite, quando todos dormem, Coraline é acordada por um camundongo. Ela o persegue até a mesma porta. Não há mais tijolos, mas um túnel escarlate. A oferta é tentadora. Coraline resolve experimentar a travessia. Do outro lado, há outra porta; ao abri-la, como num sonho, descobre o mesmo casarão onde mora. Mas alguma coisa está errada. Alguma coisa está errada. Alguma coisa está errada. O problema é que ela não sabe bem o quê. Ainda.

As cores ficam mais quentes. Os cinco sentidos de Coraline estão mais despertos do que nunca. De repente, é sua mãe que a chama para o jantar. Sua mãe? O aroma do peru no forno reclama a atenção dela, mas nem tanto como os botões que substituem os olhos da mãe. Botões iguais aos olhos da misteriosa boneca que ganhara de Wybie. O que estaria errado? É uma realidade distorcida. Seu pai tem um trator que voa, e do céu Coraline vê o jardim psicodélico de sua outra casa: uma profusão de flores que formam seu rosto. Triste descoberta, e por aí vai, até que o encantamento transforma-se em desilusão: pressionada pela mãe de mentira a ficar para sempre do outro lado do túnel, deixando-a que substitua seus olhos por botões, Coraline “desperta” e descobre a dissimulação toda. É tarde. Seus pais correm perigo, e o final feliz dessa história dependerá somente dela.

Universo paralelo

Em um curso sobre o uso dos filmes em sala de aula, discuti com os alunos o quanto esse mundo descoberto por Coraline pode se confundir com o mesmo universo sedutor que, a princípio, um adolescente pode encontrar no parque de diversões que muitas drogas oferecem. Faz sentido: ao ingressar em um mundo onde tudo é fascinante, e sugestivamente mais atraente do que é, Coraline e o mundo secreto pode oferecer uma leitura em que pode ser alto o preço a ser pago por um adolescente disposto a descobrir o que há do outro lado da porta. Por que as cores ficam mais destacadas e quentes? Por que botões no lugar dos olhos? Por que o mundo distorcido do outro lado? Daí o porquê de se ver esse filme e discuti-lo em sala de aula.

Coraline, como uma Alice do século 21, também terá de descobrir, crescendo e diminuindo, como fazer para obter o jogo de cintura necessário para lidar com as armadilhas que surgem estrada afora. Numa narrativa, o herói sempre se vê obrigado a desviar-se das pedras pelo caminho; é a condição que Coraline tem de enfrentar para conseguir crescer. Crescer por dentro. Ritos de passagem. O mais impressionante é que o filme cativa o espectador, fazendo-o matutar a respeito de como a vida de uma garota pode ser feita de decisões que revelam seu caráter, bom-senso e maturidade.

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Ilustração de STÊNIO SANTOS

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RENATO ALESSANDRO DOS SANTOS, 41, é professor do curso de Letras do Centro Universitário Moura Lacerda e dos colégios Semeando e Objetivo. Faz doutorado em Estudos Literários na UNESP, de Araraquara, e é autor de Mercado de pulgas: uma tertúlia na internet (Multifoco) e da dissertação A revolução das mochilas: de On the road à lenda de Duluoz – a literatura beat de Jack Kerouac. É editor de Tertúlia. Contato: realess72@gmail.com. Facebook: Renato dos Santos Santos.

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STÊNIO SANTOS nasceu em São Joaquim da Barra, interior de São Paulo. Desenha desde que se conhece por gente. Ainda não é formado em Design, mas pretende ganhar a vida com isso. Gosta de quadrinhos (principalmente os escritos pelos autores Alan Moore e Neil Gaiman) e mangás, de filmes e de literatura. Facebook: Stênio Santos.

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18/07/2014